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segunda-feira, 9 de maio de 2016

7ª lição do 2º trimestre de 2016: A VIDA SEGUNDO O ESPÍRITO


Texto Base: Romanos 8:1-17

“O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8:16).

 
INTRODUÇÃO

Nesta Aula, estudaremos o capítulo 8 da Epístola aos Romanos. Este capítulo é um dos mais apreciados da Bíblia. Trata da vida no Espírito, em contraste com aquilo que nós lemos no capítulo 7: a experiência de agonia, fracasso e derrota do homem carnal. No final do capítulo 7, Paulo garante aos crentes que todos têm o poder de vencer o pecado e a certeza da libertação final deste mundo de iniquidade. Mas ele inclui um aviso de que haverá durante toda a vida uma constante tensão por causa da nossa natureza pecaminosa; há um grande conflito entre a velha natureza e a nova natureza. O ser humano almeja, quer, mas não consegue obedecer ao que Deus determina, criando, então, aquele grito no final do capítulo 7: “desventurado homem que sou, quem me livrará do corpo desta morte?”. É neste contexto, então, que Paulo introduz a Pessoa e a Obra de Cristo escrevendo as operações e as atividades do Espírito Santo naquele que está em Cristo Jesus, que é o assunto do capítulo 8. Neste capítulo, Paulo nos diz que a vitória sobre o pecado e a comunhão com Deus nos vêm pela união com Cristo, mediante o Espírito Santo que em nós habita. Ao recebermos o Espírito Santo e sermos por Ele dirigidos, somos libertos do poder do pecado e prosseguimos adiante para a glorificação final em Cristo. O que era impossível na antiga aliança, regida pela lei, agora se tornou possível graças a uma nova lei – a lei do Espirito de vida em Cristo Jesus. Assim, a vida cristã constitui-se essencialmente em vida no Espírito, quer dizer, uma vida que é animada, sustentada, orientada e enriquecida pelo Espírito Santo. O Espírito Santo que habita em nós concede-nos recursos para vivermos neste mundo de maneira santa e justa. Sem o Espírito Santo não poderemos viver de modo a agradar ao Pai. Que possamos nos entregar totalmente a Deus, permitindo que o seu Espirito nos guie. Sem Ele perderemos a bênção da esperança de morarmos ao lado do Senhor no Céu.

Romanos 8 trata das seguintes operações do Espirito Santo:

Ø Aplicação da Obra de Cristo no coração do crente (vv.1-4).

Ø Como o Espírito nos inclina agradar a Deus (vv. 5-8).

Ø Que Ele abita em todo verdadeiro cristão (vv. 9-11).

Ø Que Ele nos dá o poder para mortificar a carne, a tendência pecaminosa (vv. 12,13).

Ø Que Ele nos guia como filhos de Deus (vv.14,15).

Ø Que Ele testifica da nossa salvação e da nossa herança (vv.16,17).

Ø Que Ele nos conforta em meio aos sofrimentos do mundo presente (vv.18-25).

Ø Que Ele intercede por nós nas nossas orações (vv.26-27).

O capítulo termina com uma exposição de Paulo diante da obra do Espírito Santo, argumentando que somos mais que vencedores por meio de Cristo Jesus nosso Senhor e Salvador; são os versos 31-39, onde Paulo pergunta: “à vista disso tudo [o plano da salvação que foi exposto em Romanos capítulos 1-8] quem nos poderá separar do amor de Deus? Somos mais que vencedores por meio de Cristo Jesus, nosso salvador”.

I. A VIDA NO ESPÍRITO PRESSUPÕE OPOSIÇÃO À LEI DO PECADO (Rm 8:1-4)

Ao falar da ação do Espírito Santo naquele que foi justificado pela fé, que está unido a Cristo, Paulo faz um contraste entre a vida na carne - que é a mesma coisa da vida debaixo da lei, que é a vida no mundo não regenerado – e a vida no Espírito - que é a vida do justificado, aquele que foi aceito por Deus e que foi perdoado. Paulo, também, mostra o resultado de cada um desses modos de vida. A vida na carne leva à morte, a vida no Espírito traz vida. Paulo agrupa a humanidade nestas duas categorias. Ou vivemos na carne, debaixo da lei, prisioneiro no pecado, condenados, destinados à morte, ou vivemos no Espirito, na liberdade que ele nos dá na vitória sobre o pecado, e frutificando para Deus e, finalmente, obtendo a vida eterna.

Às vezes olhando de fora não sabemos quem está na carne ou no Espírito, porque pecadores não regenerados ainda tem uma semente de religião: eles oram, eles cantam, eles contribuem, eles vão a igreja, mas nunca foram regenerados. E às vezes alguém que de fato foi regenerado, que já saiu dessa vida debaixo da lei e do domino do pecado, tem uma recaída, pois ninguém é perfeito, pode ser que alguém tropece. Assim, olhando numa primeira vista, numa primeira análise, não dá para dizer de cara quem é quem. Mas como disse o senhor Jesus: pelos frutos os conhecereis (Mt 7:16,20). O tempo acaba revelando a verdade da vida de cada um. Os frutos se mostram com clareza. É apenas uma questão de tempo.

Em Rm 7:24 Paulo expressa o seu lamento: “Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?”. Dá a impressão que Paulo carrega em suas costas um corpo em decomposição. Esse corpo é, certamente, a velha natureza com toda a sua corrupção. Em sua aflição, o apóstolo reconhece a incapacidade de se livrar dessa escravidão repulsiva. Ele precisa de ajuda externa. Mas, do vale do desespero e da derrota, o apóstolo se eleva com um grito de triunfo: Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8:1). Não há nenhuma condenação divina no tocante aos nossos pecados, pois estamos em Cristo. Enquanto estávamos em Adão, nosso primeiro representante, havia condenação. Agora estamos em Cristo e, portanto, livres da condenação.

Romanos 8:2 explica o porquê de não haver mais nenhuma condenação: “Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus” nos “livrou da lei do pecado e da morte”. Vemos aqui duas leis ou princípios opostos. O princípio característico do Espírito Santo é dar poder aos cristãos para a vida de santidade. O princípio característico do pecado é arrastar a pessoa para a morte. É como a lei da gravidade. Quando lançamos uma bola para o alto, ela volta, pois é mais pesada que o ar que desloca. Um pássaro também é mais pesado que o ar, mas pode voar. A lei da vida no pássaro supera a lei da gravidade. Assim também o Espírito Santo provê a vida ressurreta do Senhor Jesus e liberta o cristão da lei do pecado e da morte. A lei nunca foi capaz de fazer as pessoas cumprirem suas exigências santas, mas onde a lei falhou, a graça foi bem-sucedida.

Compreendendo melhor...

A Lei não podia produzir uma vida de santidade porque estava enferma pela carne. O problema não era a Lei, mas a natureza humana decaída. A Lei foi dada a homens que já eram pecadores e não tinham forças para obedecer. Mas, Deus interveio enviando o seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa (cf Rm 8:3). É importante observar que o Senhor Jesus não veio em carne pecaminosa, mas em “semelhança de carne pecaminosa”. Ele não pecou (1Pd 2:22), não conheceu o pecado (2Co 5:21) e nele não existia pecado (1João 3:5). Porém, quando veio ao mundo em forma humana assemelhou-se à natureza humana pecaminosa. No sacrifício de Cristo, “condenou Deus, na carne, o pecado” (Rm 8:3). Cristo morreu não apenas pelos pecados que cometemos (1Pd 3:18), mas também por nossa natureza pecaminosa. Em outras palavras, além de morrer por aquilo que fizemos, Ele também morreu por aquilo que somos e, desse modo, “condenou [...], na carne, o pecado” (Rm 8:3). Não é dito em momento algum que nossa natureza pecaminosa foi perdoada; pelo contrário, ela foi condenada. O perdão é aplicado aos pecados que cometemos.

Agora, o preceito da Lei se cumpriu em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Rm 8:4). Ao entregarmos o controle de nossa vida ao Espírito Santo, Ele nos capacita a amar a Deus e ao nosso próximo, o que constitui, afinal, o preceito da Lei (Mt 22:38-40).

Portanto, no capítulo 5:12-21, Paulo discorre sobre Adão e Cristo como nossos representantes; em Rm 8:1, ele mostra como a condenação que herdamos de nossa identificação com Adão é removida com nossa identificação com Cristo. Nos capítulos 6 e 7, o apóstolo Paulo tratou do problema atroz da natureza humana pecaminosa; em Romanos 8:1-4, ele anuncia, triunfantemente, que a lei do Espírito da vida em Cristo Jesus nos liberta da lei do pecado e da morte. O capítulo 7, trata da Lei; no capítulo 8, descobrimos que a vida controlada pelo Espírito Santo cumpre as exigências da Lei.

II. A VIDA NO ESPÍRITO PRESSUPÕE OPOSIÇÃO À NATUREZA ADÂMICA (Rm 8:5-17)

Duas forças antagônicas operam no homem: a natureza carnal e o Espírito Santo. Esta tensão entre “carne” e Espírito nos faz lembrar Gálatas 5:16-26, onde os dois se encontram em conflito irreconciliável um com o outro. Em Romanos 8:5-17, o apóstolo Paulo mostra o contraste entre o Espírito Santo e a natureza adâmica (a carne). A velha natureza perversa e corrompida só nos causou dissabores. Nunca trouxe nada de bom. Se Cristo não tivesse nos resgatados, a natureza adâmica teria nos arrastado para os lugares mais profundos, escuros e quentes do inferno. Os que vivem segundo a velha natureza (a carne) caminham, necessariamente, para a morte, não apenas física, mas também eterna. Como Rm 8:4,5 deixa claro, viver segundo a carne significa não ter salvação.

1. A velha inclinação (Rm 8:5-8). “Porque os que são segundo a carne inclinam-se para as coisas da carne” (Rm 8:5a). Paulo diz que aqueles que se inclinam para a carne, ou seja, os inconversos, se preocupam com as coisas da carne e obedecem aos impulsos da carne; vivem para realizar os desejos da natureza corrompida; cuidam apenas das coisas do corpo que, em pouco tempo, voltará ao pó. É bom deixar claro que, quando Paulo fala em “carne”, não está se referindo ao tecido muscular mole e macio que cobre o nosso esqueleto, nem aos instintos e apetites do nosso corpo, mas sim ao todo que compõe a nossa natureza humana, vista como corrupta e irredimida, nossa natureza humana caída e egocêntrica, ou o ego dominado pelo pecado (John Stott).

“A inclinação da carne é morte” (Rm 8:6). Ou seja, a inclinação de quem é dominado pela carne já é voltada para a morte espiritual e conduz inevitavelmente à morte eterna, pois ela aliena tais pessoas de Deus, impossibilitando a comunhão com Ele, seja neste mundo, seja no próximo. Segundo William Macdonald, o pendor da carne dá para a morte porque é inimizade contra Deus (Rm 8:7). O pecador vive em estado de rebeldia e hostilidade ativa contra Ele; a crucificação do Senhor Jesus Cristo foi prova clara dessa realidade. “O pendor da carne [...] não está sujeito à lei de Deus”. Deseja fazer a própria vontade, e não a vontade de Deus. Deseja ser seu senhor, e não se curvar à soberania divina. 

Além da inclinação, falta também o poder para obedecer. Portanto, não surpreende que os que estão na carne não podem agradar a Deus. Não há nada que uma pessoa não-salva possa fazer para agradar a Deus: nem boas obras, nem devoção religiosa, tampouco serviço sacrificial. Antes de tudo, essa pessoa precisa reconhecer sua condição de pecador e receber Cristo por um ato decisivo de fé. Somente então poderá receber a aprovação de Deus.

Paulo diz mais: “porque, se viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se pelo espírito mortificardes as obras do corpo, vivereis” (Rm 8:13). O “viver segundo a carne” se revela através do corpo. Portanto, devemos nos afastar da carne (natureza pecaminosa) e das suas iníquas atitudes, das suas práticas e suas habituais respostas. Este é um ato que deve ser realizado e uma atitude que deve ser tomada; devemos todos os dias nos afastar dos desejos que nos levam para longe de Deus.

2. A nova inclinação (Rm 8:5b,9). “Mas os que são segundo o Espírito, para as coisas do Espírito” (Rm 8:5b); “Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8:9).

Depois de nascer de novo, a pessoa não está mais na carne, mas no Espírito. Ela passa a viver em um novo âmbito. Assim como o peixe vive na água e o homem vive na superfície terrestre, o cristão vive no Espírito. Não apenas ele vive no Espírito, como também o Espirito vive nele. Na verdade, se o Espírito de Cristo não habita dentro dele, ele não pertence a Cristo. Portanto, os que se inclinam para o Espírito, ou seja, os verdadeiros cristãos, transcendem a carne e o sangue e vivem para as coisas eternas. O Espírito inclina nossa mente para desejá-lo. Essa inclinação é um pendor, um desejo forte que nos impulsiona e nos arrasta. Os que são dominados pela carne buscam agradar a carne e praticar suas obras (Gl 5:19-21), mas os que se inclinam para o Espírito, cogitam das coisas do Espirito; ocupam-se da Palavra de Deus, da oração, da adoração e do serviço cristão.

3. A nova filiação (Rm 8:14-17). “Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus. Porque não recebestes o espírito de escravidão, para, outra vez, estardes em temor, mas recebestes o espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai”.

Os judeus se consideravam filhos de Deus por causa da sua herança, mas Paulo explica que agora esse termo tem um novo significado. Os verdadeiros filhos de Deus são aqueles que são guiados pelo Espírito de Deus como ficou provado no seu estilo de vida. Os crentes não têm apenas o Espirito (Rm 8:9), eles também são guiados por Ele. Este privilégio, que tornou possível ao crente ser orientado ou guiado pelo Espirito aconteceu porque Deus nos deu a adoção de filhos – “... recebestes o espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai” (Rm 8:15). “Aba” é a palavra aramaica usada pelos judeus (e até hoje pelas famílias que falam o hebraico) como o termo familiar com o qual os filhos se dirigem ao seu pai. Pertencemos agora à família de Deus. Temos intimidade com Deus.

O Espírito Santo é testemunha da nossa filiação - “O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8:16). Portanto, não basta saber que somos filhos de Deus por adoção, precisamos estar conscientes desse auspicioso privilégio. O Espírito Santo testifica com nosso espirito que somos filhos de Deus. Então, não precisamos viver cabisbaixos, derrotados e envergonhados. Somos agora filhos do Altíssimo, membros da família de Deus. Isso não é sugestão humana, mas testemunho fiel do Espírito Santo que habita em nós. Glórias sejam dadas a Deus!

Os membros da família de Deus desfrutam privilégios extraordinários. Todos os filhos de Deus são herdeiros de Deus. Mais cedo ou mais tarde, o herdeiro recebe os bens de seu pai. O apostolo Paulo confirma isso dizendo: “E, se nós somos filhos, somos, logo, herdeiros também, herdeiros de Deus e coerdeiros de Cristo” (Rm 8:17).  Portanto, tudo que o Pai possui é nosso. Ainda não estamos desfrutando tudo isso, mas certamente o faremos no futuro bem próximo. E somos coerdeiros com Cristo; em seu Reino, teremos parte com Ele em todas as riquezas do Pai.

Todavia, Paulo nos faz lembrar de que a vida vitoriosa no Espírito Santo não é nenhum caminho fácil – “se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados” (Rm 8:17b). Jesus sofreu, e nós que o seguimos sofreremos também. Esse sofrimento é considerado um sofrimento em conjunto com Ele (cf. 2Co 1:5; Fp 3:10; Cl 1:24; 2Tm 2:11,12) e advém do nosso relacionamento com Deus como seus filhos, da nossa identificação com Cristo, do nosso testemunho dele e da nossa recusa de nos conformar com o mundo (cf. Rm 12:1,2).

III. A VIDA NO ESPÍRITO PRESSUPÕE OPOSIÇÃO ENTRE A NOVA ORDEM E A ANTIGA (Rm 8:18-39)

O final do versículo 17, do capítulo em epígrafe, termina com uma conexão entre o sofrimento e a glória. Isto nos ensina que a participação na glória de Cristo somente será alcançada depois de uma participação no seu sofrimento (Rm 8:17). Mas, Paulo completa esse pensamento e conclui que nossos atuais sofrimentos “não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada” (Rm 8:18). O sofrimento atual é temporário, enquanto a glória futura é eterna. Paulo escreveu aos Coríntios: “Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui excelente” (2Co 4:17). O sofrimento é parte do processo de partilhar da morte de Cristo e irá culminar na participação da Sua glória. Essa participação da glória de Deus tem proporções cósmicas, pois o glorioso destino dos crentes irá assimilar um novo Dia para toda criação. Aqui ainda há dor e lágrimas; há fraqueza e morte; porém, não caminhamos para um túmulo gelado e frio, mas para a gloriosa ressurreição. Não caminhamos para um destino desconhecido nem para um lugar de tormento, mas para a bem-aventurança eterna. O sofrimento presente não pode ser comparado às glórias futuras. Diante do fulgor da glória que nos espera, os sofrimentos do presente mundo são leves e momentâneos. Aleluia!

1. A manifestação dos filhos de Deus – “A ardente expectativa da criação aguarda a manifestação dos filhos de Deus” (Rm 8:19). Paulo informa enfaticamente que “toda criação geme e suporta angústias até agora” (Rm 8:22). A criação que Paulo se refere é a criação irracional, animada ou inanimada. A queda não atingiu apenas o homem, mas também a natureza.

Vivemos em um mundo que suspira, soluça e sofre. Toda a criação geme e padece dores como as de parto. A criação não se contorce com os gemidos da morte, mas geme como uma mulher prestes a dar à luz (Rm 8:22). Seus gemidos não são de desespero, mas de gloriosa expectativa. Ela não geme por causa de um passado inglório, mas por um futuro glorioso. John Stott diz que “os gemidos da criação são dores inevitáveis no vislumbre de uma Nova Ordem”. A escravidão da decadência dará lugar à liberdade da glória (Rm 8:21). Às dores de parto seguirão as alegrias do nascimento (Rm 8:22). A criação se recorda das condições ideais no Éden e depois vê a destruição causada pela entrada do pecado no mundo. Sempre houve a esperança da volta ao estado bucólico, isto é, de beleza natural, campestre, primaveril, terno e maravilhoso, no qual a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção e poderá desfrutar a liberdade da era dourada na qual os filhos de Deus serão manifestados em glória.

A criação aguarda ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus (Rm 8:19,21). A criação vive como que na ponta dos pés, esticando o pescoço, olhando para esse futuro que virá trazendo em suas asas a restauração de todas as coisas. As palavras “ardente expectativa” (Rm 8:19), no grego, significam esperar de cabeça erguida e com os olhos fixos naquele ponto do horizonte de onde virá o objeto esperado: “a manifestação dos filhos de Deus”. Paulo personifica toda criação aguardando com “ardente expectativa” o tempo em que seremos revelados filhos de Deus diante de um mundo maravilhado. Isso ocorrerá quando o Senhor vier para reinar e nós voltarmos com Ele. Já somos filhos de Deus, mas o mundo não reconhece nem aprecia nossa condição. E, no entanto, o mundo espera por um dia melhor, um dia que virá somente quando o Rei voltar para reinar com todos os seus santos.

2. Provas do grande amor de Deus. “Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes, o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas?” (Rm 8:32).

A maior prova do grande amor de Deus foi a entrega do seu único Filho para morrer, vicária e substitutivamente, em nosso lugar - “nem mesmo a seu próprio Filho poupouantes, o entregou por todos nós”. Aqui, a palavra “poupou” é a mesma para “negar”, usada em Gn 22:12, quando Deus disse a Abraão: “não me negaste o teu filho, o teu único filho”.

Quando a humanidade perdida precisou ser salva por um substituto sem pecado, o Deus do universo não reteve o tesouro mais precioso do seu coração; antes, entregou-o a uma morte vergonhosa em nosso lugar -“o entregou por todos nós...” (Rm 8:32). Cristo é o Dom inefável de Deus, e a cruz é o gesto mais profundo do seu amor. Cristo não morreu como um mártir; foi entregue, e Ele mesmo se entregou por toda a humanidade. Quem entregou Jesus à morte não foi Judas, por dinheiro; não foi Pilatos, por medo; não foram os judeus, por inveja; mas o Pai, por amor.

Diante deste inefável amor, o apóstolo Paulo descreve uma lógica irresistível: “... como nos não dará também com ele todas as coisas?” (Rm 8:32). Se Deus já nos deu a maior de todas as dádivas, acaso reterá alguma dádiva de menor valor? Se Ele já pagou o mais alto preço, acaso hesitará em pagar algum preço menor? Se Ele não mediu esforços para obter nossa salvação, acaso nos abandonará?  Porventura, “não nos dará também com Ele todas as coisas?”.

3. Deus é conosco. “Que diremos, pois, a estas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8:31).

Satanás e todos que estão sob o seu poder são contra nós, mas Deus promete que, no final, sairemos vitoriosos. Observe que o apóstolo Paulo não pergunta: "Quem é contra nós?", pois, se assim o fizesse, o inferno inteiro se levantaria, vociferando seu ódio incontido. A pergunta é: "Se Deus está do nosso lado, quem poderá deter-nos ou resistir a nós?". Se o Rei e Senhor do universo está do nosso lado, se ele nos amou, nos chamou, nos justificou e já decretou a nossa glorificação, então somos vitoriosos e invencíveis. Ainda que o inferno inteiro se levante contra nós, certamente triunfaremos.

John Stott corretamente afirma: "O mundo, a carne, e o diabo podem continuar alistando-se contra nós, porém nunca nos poderão vencer, se Deus é por nós”.

O Rev. Hernandes Dias Lopes, citando Warren Wiersbe, diz que Deus é por nós e provou isto dando-nos seu Filho (Rm 8:32). O Filho é por nós e prova isto intercedendo por nós junto ao Pai (Rm 8:34). O Espírito Santo é por nós, assistindo-nos em nossa fraqueza e intercedendo por nós com gemidos inexprimíveis (Rm 8:26). Deus trabalha para que todas as coisas contribuam para o nosso bem (Rm 8:28). Em sua pessoa e em sua providência, Deus é por nós. Por vezes, lamentamos como Jacó: "Todas estas coisas me sobrevêm" (Gn 42:36), quando, na verdade, tudo está trabalhando em nosso favor. Deus é conosco, sempre!

CONCLUSÃO

Conquanto as provas, as tribulações, as vicissitudes, sejam brutais e impiedosas, o crente, que tem sua vida segundo o Espírito Santo de Deus, está seguro em Cristo. Se está seguro em Cristo é porque está em Cristo. E “nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8:1); “nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor!” (Rm 8:38,39). “Em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou” (Rm 8:37).

Portanto, o fim do nosso caminho não é o sepulcro coberto de lágrimas, mas o hino triunfal da gloriosa ressurreição. Nossa jornada não terminará com o corpo surrado pela doença, enrugado pelo peso dos anos, coberto de pó na sepultura, mas receberemos um corpo de gloria, semelhante ao de Cristo (Fp 3:21). Nosso corpo resplandecerá como o fulgor do firmamento e como as estrelas, sempre e eternamente (Dn 12:3). Nosso choro cessará, nossas lágrimas serão estancadas. Não haverá mais luto, nem pranto, nem dor (Ap 21:4). Esta é uma promessa inexorável a todos aqueles que têm sua vinda segundo o Espírito de Deus. Aleluia!

Fonte: ebdweb - Luciano de Paula Lourenço

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