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quarta-feira, 28 de junho de 2017

1ª Lição do 3º trimestre de 2017: INSPIRAÇÃO DIVINA E AUTORIDADE DA BÍBLIA





Texto Base: 2Timóteo 3:14-17 

"Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo" (2Pd.1:21).

 INTRODUÇÃO

Mais um trimestre letivo se inicia. Estudaremos as principais doutrinas da fé cristã. E nesta primeira Aula, trataremos da inspiração divina e autoridade das Escrituras Sagradas, que são a verdade, a expressão do próprio Deus. As Escrituras Sagradas não são fruto da lucubração humana, mas da revelação divina. Elas não provêm da descoberta humana, mas do sopro divino. Toda a autoridade das Escrituras depende exclusivamente da sua origem divina. As Esculturas surgiram na mente de Deus e foram comunicadas pela boca de Deus, pelo sopro de Deus ou pelo seu Espirito Santo. As Escrituras são, pois, no verdadeiro sentido do termo, a Palavra de Deus, porque Deus as disse. É como os profetas costumavam anunciar: “a boca do Senhor o disse” (Is.1:20).

A Bíblia é a Palavra de Deus. Ela mesma assim se define e o cumprimento exato de tudo quanto nela está desde os primórdios da história da humanidade é a prova irrefutável de que ela é, sem sombra de dúvida, a Palavra de Deus, a revelação de Deus aos homens. Muitos têm tentado, ao longo dos séculos, levantar-se contra essa Palavra, mas todos têm fracassado em seu intento de calá-la ou desacreditá-la, precisamente porque não se trata de uma obra feita pela mente, vontade ou imaginação humana, mas tem sua origem, sua concepção e o zelo pelo seu cumprimento diretamente em Deus. Sua inspiração divina e sua soberania como única regra de fé e prática para a nossa vida constituem a doutrina basilar da fé cristã.

I. REVELAÇÃO E INSPIRAÇÃO

A Bíblia foi dada por Deus através de inspiração e revelação, à medida que o Espírito Santo operou em homens escolhidos, revelando a eles os pensamentos de Deus e capacitando-os a usar as palavras adequadas para comunicar a verdade divina sem erros.

1. Revelação. Um dos princípios da Teologia é o fato de Deus não nos ter criado e deixado largados para viver em um mundo sujeito às regras do pecado, mas ter nos confiado um manual que revela a sua vontade, a Bíblia. Daí advém o que chamamos de revelação, o ato de tornar conhecido o que antes não o era. Esta Revelação, a Bíblia Sagrada, nos foi entregue, a fim de que reconheçamos a Deus como o ser Supremo por excelência e a seu Filho Unigênito como o nosso Salvador.

2. Inspiração. É o registro dessa revelação sob a influência do Espírito Santo, que penetra até as profundezas de Deus (1Co.2:10-13). Os 66 Livros da Bíblia são divinamente inspirados. Os escritores do Antigo Testamento estavam conscientes de que o que disseram ao povo e o que escreveram é a Palavra de Deus (ver Dt.18:18; 2Sm.23:2; 2Pd.1:21). Repetidamente os profetas iniciavam suas mensagens com a expressão: “Assim diz o Senhor”. Esta expressão ocorre mais de 2.600 vezes. O Espírito Santo falou por intermédio dos autores - “O Espírito do Senhor falou por mim, e a sua palavra esteve em minha boca” (2Sm.23:2). Jesus também ensinou que a Escritura é a inspirada Palavra de Deus até em seus mínimos detalhes (Mt.5:18). Afirmou, também, que tudo quanto Ele disse foi recebido da parte do Pai e é verdadeiro (João 5:19, 30,31; 7:16; 8:26).

É bom fazer uma distinção entre o texto inspirado e o registro inspirado. Assim, declarações mentirosas como as de Ananias e Safira, as declarações de Satanás não foram inspiradas por Deus, mas sim o seu registro. Tais textos foram incluídos na Bíblia, para que conheçamos os ardis de Satanás, os pensamentos dos ímpios. Sabemos que uma das características da Bíblia é a sua imparcialidade, assim, ela não omite as mentiras, as falsidades ditas por alguém.

3. A forma de comunicação. Existem duas formas principais de comunicação entre Deus e o homem: verbal e escrita. Verbal até Moisés e depois, segundo alguns teólogos, usando a instrumentalidade do homem mais manso da terra passou a ser escrita.

a) A transmissão verbal. As palavras do Criador para a humanidade foram passadas no início de forma falada. Deus em contato pessoal com o homem colocava as suas leis e este era o responsável em passá-la para a posteridade. Com o passar dos anos a corrupção generalizou-se na sociedade pré-noêmica e as distorções fatalmente seriam inseridas na história se não fosse o dilúvio que levou à morte toda aquela geração, excetuando-se a família do patriarca Noé que, pela Graça de Deus, conservou a história para ser outra vez disseminada entre seus descendentes.

Com o aparecimento das línguas (Gn.11:7) e a dispersão do povo (Gn.11:8), a história corria sério risco de ser perdida, então Deus chama a Abraão e põe nele a sua Palavra de forma mais clara e objetiva. Nesse ponto o patriarca tem a história passada pelos seus ancestrais juntamente com as palavras de orientação e proféticas do Todo-Poderoso. A Palavra de Deus continuou sendo transmitida oralmente até Moisés.

b) A transmissão escrita. Embora seja a Palavra de Deus, a Bíblia foi escrita e redigida por seres humanos (2Pd.1:21) que, para escrevê-la, usaram de todos os materiais que tinham à sua disposição para tanto, lembrando-se, aliás, que, no tempo da formação dos escritos sagrados, não havia o papel, material que o Oriente Médio e o Ocidente somente conheceram num tempo posterior à elaboração das Escrituras, elaboração esta, aliás, que durou mais de mil e quinhentos anos, que é o tempo que vai de Moisés ou Jó, apontados como os autores do livro de Jó, que é o livro mais antigo das Escrituras, até a redação dos livros do apóstolo João, que são considerados os últimos escritos inspirados da Bíblia Sagrada.

É interessante notar que Deus não escreveu parte nenhuma da Bíblia. As Escrituras registram que Deus havia escrito as primeiras tábuas da Lei (Ex.32:15), mas foram quebradas por Moisés, indignado por causa da corrupção do povo no episódio do bezerro de ouro (Ex.32:19). As segundas tábuas, embora lavradas por Moisés, foram também escritas por Deus (Dt.10:1-4), mas estas tábuas foram colocadas na arca, ou seja, não puderam ser lidas pelo povo. Moisés escreveu o seu teor, nesta oportunidade, naquilo que viria a ser o Pentateuco (Ex.34:27), numa comprovação de que parte alguma das Escrituras foi feita pelo dedo de Deus.

O mesmo devemos dizer a respeito do Filho de Deus, ou seja, Jesus nada deixou escrito, mas tudo que transmitiu o fez oralmente, teor este que foi, posteriormente, lembrado pelo Espírito Santo para que pudesse ser reduzido a escrito (1Co.11:23; 2Pd.1:18-21; 1João 1:1,3). Vemos, pois, que, embora seja a Palavra de Deus, a Bíblia não foi escrita, em momento algum, por Deus, que delegou, pois, tal tarefa para o homem. A Bíblia foi inspirada por Deus; a palavra grega “theopneustos” significa literalmente “soprada por Deus”, porém, isso não quer dizer que Deus anulou a personalidade, o estilo ou a preparação de seus escritores, uma vez que esses homens santos “falaram movidos pelo Espirito Santo” (2Pd.1:21).

Deus quis, portanto, que a Bíblia fosse escrita pelos homens, embora se tratasse da própria Palavra do Senhor, para que as Escrituras fossem, elas mesmas, a demonstração da comunhão que se pretendeu restabelecer entre Deus e o homem. Esta comunhão, que, em Jesus, estava evidenciada pela dupla natureza, é um dos aspectos pelos quais as Escrituras são consideradas testemunhas do próprio Verbo Divino (João 5:39). Assim, pois, como Jesus é homem e é Deus, as Escrituras também são Palavra de Deus, mas escrita pelos homens.

4. Inspiração, Revelação e Iluminação. Toda a Bíblia foi inspirada por Deus, mas nem tudo nela é produto de revelação. A revelação implica em Deus mostrar fatos desconhecidos ao escritor sacro enquanto que na inspiração isto não se faz necessário. Por exemplo: Moisés recebeu os primeiros capítulos de Gênesis por revelação enquanto outros não foram necessário produto de revelação. Lucas foi inspirado a reunir vários documentos cristãos precedentes para confeccionar seus dois livros, o Evangelho e o livro de Atos (Lc.1:1-4). Paulo que não andou com Cristo e nem recebeu instrução apostólica deixou-nos um tesouro teológico de inestimável grandeza em suas epistolas. Enquanto Lucas foi inspirado a escrever, a Paulo foi revelado o que escrever.

Quanto à Iluminação, tem a ver com a compreensão da mensagem revelada. Em 1Pd.1:10-12 está um ótimo exemplo do que significa a iluminação: "Desta salvação inquiriram e indagaram diligentemente os profetas que profetizaram da graça que vos era destinada, indagando qual o tempo ou qual a ocasião que o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava, ao dar de antemão testemunho sobre os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e sobre as glórias que os seguiriam. Aos quais foi revelado que não para si mesmos, mas para vós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho. Coisas para as quais até os anjos desejam atentar".

Portanto, a Inspiração tem a ver com a recepção e o registro da verdade; a Revelação tem a ver com a transmissão e; a Iluminação é a compreensão desta mesma mensagem. Neste caso, os profetas recebiam a Revelação e a Inspiração, mas muitas delas não eram acompanhadas de Iluminação.

II. A INSPIRAÇÃO DIVINA E AUTORIDADE DA BÍBLIA

1. A inspiração divina. “Inspiração” vem do latim, que significa “respirar para dentro” (in e spiro) e de uma forma grega que significa “expirado por Deus” (theopneustos). Deus colocou o Espírito Santo nos escritores da Bíblia e, através dEle, os guiou na redação da Bíblia. Por isso, a “inspiração” pode ser definida como o processo pelo qual Deus expirou o Seu Espírito em homens, capacitando-os a receber e comunicar a verdade divina sem erro. A Bíblia é Deus falando. Os escritores da Bíblia escreveram sobre fatos que eles conheciam tanto quanto sobre fatos que eles não conheceriam sem a inspiração. Os fatos conhecidos sobre os quais eles escreveram chegaram a eles por observação pessoal, documentos existentes ou tradição oral. Muito do que foi escrito por esses homens chegou ao conhecimento deles pela primeira vez através da revelação de Deus. Quer estivessem escrevendo fatos conhecidos, quer revelação, a inspiração os guiou a informarem somente a verdade, sem erros de comunicação (Hugo Mccord).

Mattew Henry, um dos maiores expositores das Sagradas Escrituras, é categórico ao referir-se à inspiração da Bíblia: “As palavras das Escrituras devem ser consideradas palavras do Espírito Santo”. Como não concordar com Henry? Basta ler a Bíblia para sentir, logo em suas palavras iniciais, a presença do Espírito Santo. Paulo afirma: “Toda Escritura divinamente inspirada é proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça, para que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente instruído para toda boa obra” (2Tm.3:16,17). Aqui, o termo “Escritura” refere-se principalmente aos escritos do Antigo Testamento (2Tm.3:15). Mas é importante destacar que toda a Escritura, e não apenas parte dela, é inspirada por Deus. Tanto o Antigo quanto o Novo Testamento compõem as Escrituras (cf. 2Tm.3:14; 2Tm.5:18; 1Co.2:13; 2Co.2:17; 13:3; Gl.4:14; Cl.4:16; 1Ts.2:13; 5:27; 2Pd.3:16).

Muitos liberais aproximam-se das Escrituras carregados de ceticismo e contestando toda inspiração, inerrância e infalibilidade. Há aqueles que, enganosamente, afirmam que as Escrituras apenas contêm a Palavra de Deus, mas não são a Palavra de Deus. Outros negam sua historicidade e tentam, jeitosamente, explicar seus registros históricos e seus milagres de forma metafórica. Todavia, permanece a verdade inabalável de que toda a Escritura é inspirada por Deus, é a própria Palavra de Deus.

2. Autoridade da Bíblia. A Bíblia é a Palavra de Deus, porque tem origem em Deus; seu conteúdo foi comunicado por Deus aos homens santos escolhidos pelo Senhor para reduzi-la a escrito. O selo dessa autoridade aparece em expressões como "assim diz o SENHOR" (Êx.5:1; Is.7:7); "veio a palavra do SENHOR" (Jr.1:2); "está escrito" (Mc.1:2). Ante tais considerações, não temos como deixar de reconhecer que a Bíblia Sagrada é dotada de autoridade absoluta, ou seja, deve ser aceita pelo homem como única regra de fé e de prática, ou seja, o ser humano, se quiser ser fiel e obediente ao seu Criador, deve crer no que a Bíblia diz e fazer exatamente o que a Bíblia determina.

Sendo a Palavra de Deus e a fiel comunicação da vontade divina aos homens, não há, mesmo, como deixar de observar o que é prescrito pelas Escrituras, nem deixar de crer naquilo que ela nos diz. No entanto, apesar disto, não têm sido poucas as tentativas, ao longo da história, e no meio do povo que se diz de Deus, para descaracterizar esta autoridade absoluta e prioritária que deve ter a Bíblia Sagrada na vida de um servo do Senhor. Ao longo da história de Israel, todos quantos procuraram se rebelar contra a autoridade das Escrituras foram apresentados como pessoas que se fizeram inimigas da vontade de Deus, demonstrando, claramente, que a desconsideração da autoridade das Escrituras é atentado contra o próprio Deus. São diversos os exemplos, mas citemos apenas alguns a título de ilustração:

a) Saul, o primeiro rei de Israel, foi rejeitado por Deus porque preferiu sacrificar a obedecer à Palavra do Senhor (1Sm.13:8-14).

b) Davi, mesmo sendo um homem segundo o coração de Deus, viu transformar-se em tragédia uma festividade que realizou para levar a arca de Deus para Jerusalém, por não ter atentado à lei do Senhor (2Sm.6:3-9; 2Cr.15:1-3).

c) O povo do reino de Israel, o reino das dez tribos do Norte, perdeu a sua terra e a sua identidade, até o dia de hoje, porque rejeitou o conhecimento de Deus, ou seja, a observância da Sua Palavra (2Rs.17:7-23).

d) O povo do reino de Judá, o reino das duas tribos do Sul, perdeu a sua terra, que descansou durante setenta anos, por não ter cumprido a determinação do ano sabático (2Cr.36:21,22).

e) Os saduceus são apontados por Jesus como pessoas que viviam erradamente sob o ponto-de-vista espiritual por não conhecerem as Escrituras, ou seja, não a observarem, erro este que levou à total destruição deste partido judeu quando da destruição do templo de Jerusalém no ano 70 d.C. e a derrota definitiva para os romanos no ano 135 d.C. (Mt.22:29; Mc.12:24; Mc.12:27).

Apesar destes exemplos bíblicos, não foram nem são poucos os que se encontram na mesma e triste lamentável situação dos saduceus, errando por não conhecerem as Escrituras e lhes negando autoridade, embora se digam, como o faziam os saduceus, “defensores intransigentes das Escrituras” e isto porque, assim como os saduceus, embora afirmem prestigiar o texto sagrado e reconhecer-lhe a autoridade, diminuíam-no na prática de seus atos. Os saduceus, por exemplo, somente criam nos cinco livros da lei, desprezando todas as demais Escrituras, como se elas não fossem igualmente inspiradas por Deus. De igual modo, os “modernos saduceus” promovem muitos erros porque não aceitam a autoridade da Bíblia Sagrada.

III. INSPIRAÇÃO PLENA E VERBAL

A correta doutrina bíblica a respeito da inspiração é: inspiração verbal e plenária. Pedro enfatiza que as Escrituras são provenientes de Deus, e não de seres humanos; são divinamente inspiradas. Os escritores bíblicos não redigiram uma combinação de suas próprias ideias; o texto resultante não é proveniente de imaginação, discernimento ou especulação humana. O apóstolo Pedro, em sua segunda Epístola assim afirmou: “sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação; porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo”(2Pd.1:21). Na verdade, homens santos de Deus falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo. Apesar de não compreendermos plenamente como se deu o processo, Deus dirigiu cada palavra que esses homens escreveram. Ao mesmo tempo, contudo, Deus não destruiu a individualidade ou o estilo dos escritores. Em tempos como os nossos, nos quais tantas pessoas negam a autoridade da Bíblia Sagrada, é importante termos convicção da inspiração verbal e plenária das Escrituras Sagradas.

1. Inspiração verbal. A inspiração verbal indica que as palavras redigidas por pelo menos quarenta escritores humanos foram inspiradas por Deus – “As quais também falamos, não com palavras de sabedoria humana, mas com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais” (cf.1Co.2:13). O mesmo se refere ao texto bíblico do Antigo Testamento – “E Moisés escreveu todas as palavras do SENHOR, e levantou-se pela manhã de madrugada, e edificou um altar ao pé do monte e doze monumentos, segundo as doze tribos de Israel” (Ex.24:4). Deus não deu um esboço geral ou algumas ideias básicas e depois permitiu que os escritores as expressassem como lhes parecesse melhor. As próprias palavras que usaram foram dadas pelo Espírito Santo.

Não resta dúvida de que muitos escritores da Bíblia reduziram a escrito mensagens que lhes foram dadas verbalmente por Deus, como é exemplo os Dez Mandamentos e boa parte daquilo que foi escrito por Moisés na lei. No entanto, temos de entender que Deus opera além de quaisquer limites humanos ou que nossa compreensão possa atingir, de forma que temos de, neste ponto, fazer coro ao seguinte pensamento de R.N. Champlin, que reproduzimos: “…a inspiração, normalmente, é verbal, visto que diz respeito à comunicação da verdade em linguagem humana. Isso não significa, entretanto, que consiste em mero ditado de palavras, mas significa que os diversos processos que jazem por detrás da questão, envolvendo aspectos como a individualidade dos escritores, o meio ambiente, o treinamento, as experiências deles, além de outros fatores, foram de tal modo manipulados por Deus que o resultado foi que as palavras registradas não são apenas do homem, mas são plenamente de Deus…” (CHAMPLIN, R.N. Escrituras. In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.2, p.475).

2. Inspiração plenária. A inspiração plenária indica que a Bíblia toda foi igualmente inspirada por Deus, desde Gênesis até Apocalipse. O apóstolo Paulo afirmou: “Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça” (2Tm3:16). Toda Escritura é divinamente inspirada se refere à Bíblia completa, aos 66livros do Antigo e Novo Testamento. Até os mínimos detalhes foram colocados na Bíblia sob inspiração divina - “Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei sem que tudo seja cumprido” (Mt.5:16).

Em 2Pd.1:20,21 está escrito: “sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade dos homens, mas os homens da parte de Deus falaram movidos pelo Espírito Santo”. Pedro aqui atesta que as Escrituras não podem ser de “particular interpretação”, ou seja, que os textos bíblicos não podem ser entendidos isoladamente, mas como parte de um conjunto, pois, embora tenham sido escritos por homens de diferentes culturas, de diferentes épocas, de diferentes classes sociais, de diferentes graus de instrução, o resultado não é fruto da cultura, da história, da época, da posição social nem tampouco da erudição de cada um dos escritores, mas tão somente obra do Espírito Santo, que é o mesmo a ter agido na vida de cada um destes “homens santos de Deus”. Portanto, a Bíblia toda, sem qualquer exceção, foi inspirada pelo Espírito Santo, ou seja, as Escrituras foram geradas pelo próprio Deus que deu a mensagem a cada um dos escritores, que, fielmente, reduziram a escrito a mensagem recebida.

Negar a inspiração plenária das Sagradas Escrituras, portanto, é desprezar o testemunho fundamental de Jesus Cristo (Mt.5:18; 15:3-6; Lc.16:17; 24:25-27, 44,45; João 10:35), do Espírito Santo (João 15:26; 16:13; 1Co.2:12-13; 1Tm.4:1) e dos apóstolos (2Pd.1:20,21).

IV. ÚNICA REGRA INFALÍVEL DE FÉ E PRÁTICA

1. Proveitosa para ensinar. “Toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar...” (2Tm.3:16,17). As Escrituras Sagradas são essencialmente o manual da salvação, pois elas "podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus" (2Tm.3:15). As Escrituras são ensinos espirituais que não se encontram em nenhum lugar do mundo. Seu propósito mais alto não é ensinar fatos da ciência que o homem pode descobrir por sua investigação experimental, mas ensinar fatos da salvação que nenhuma exploração humana pode descobrir e somente Deus pode revelar. As Escrituras falam sobre a criação e a queda. Ensinam sobre o juízo de Deus e também de seu amor redentor. Alguém disse que a Escritura é pastoralmente útil para o ensino, isto é, como fonte positiva de doutrina cristã; para repreensão, isto é, para refutar o erro e para repreender o pecado; para a correção, isto é, para convencer os mal-orientados dos seus erros e colocá-los no caminho certo outra vez; e para a educação na justiça, isto é, para a educação construtiva na vida cristã. Como bem diz o Pr. Esequias Soares, a Bíblia revela os mistérios do passado como a criação, os do futuro como a vinda de Jesus, os decretos eternos de Deus, os segredos do coração humano e as coisas profundas de Deus (Gn.2:1-4; Is.46:10; Lc.21:25-28).

2. A conduta humana. Como Criador, Deus nos concedeu uma espécie de "manual do fabricante", que é a Sua Palavra. Está escrito que “toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para...redarguir, para corrigir, para instruir em justiça, para que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente preparado para toda boa obra” (2Tm.3:16,17). A Palavra de Deus é aplicável na vida diária, na família, na igreja, no trabalho e na sociedade. Somente Deus, o nosso Criador, nos conhece e sabe o que é bom para suas criaturas. Suas orientações estão na Bíblia, o "manual do fabricante". Portanto, não devemos tomar a Bíblia como um livro comum, apenas para trazer-nos algum conhecimento em nossa mente, mas devemos tomá-la, como um Livro de vida, contatando o Senhor Jesus, através da oração, para que Ele nos conceda algo vivo em sua palavra, ou seja, algo que traga uma lição prática para o nosso viver no dia a dia.

3. As traduções da Bíblia. Temos de entender que a inerrância e a infalibilidade estão relacionadas diretamente com a inspiração das Escrituras e, portanto, dizem respeito à mensagem originariamente transmitida aos homens inspirados pelo Espírito Santo e que foram sendo copiadas e transmitidas geração após geração. Não nos esqueçamos de que a cópia de um texto é algo feito pelo homem, e um homem que não está sob a inspiração verbal plenária, e que, por isso mesmo, neste ato de copiar não estão envolvidos os conceitos de inerrância nem de infalibilidade.

Com relação à tradução bíblica, também, é outro fator que não está sob o império da inerrância e da infalibilidade da Bíblia. Aqui, também, não temos a atuação da “inspiração verbal plenária” e, portanto, tais atividades podem ter erros ou equívocos, como também necessitam, de tempos em tempos, de revisões e atualizações, pois são ações humanas e, como tal, sujeitas ao tempo e ao espaço. A primeira versão da Bíblia Sagrada em língua portuguesa a ser levada para a imprensa, a de João Ferreira de Almeida, que continha o Novo Testamento, ainda antes de ter sido lançada, teve, pelo próprio tradutor apontados cerca de 1.000 erros de tradução. Aliás, é por isso que esta Versão, após terem sido feitas as correções, é conhecida como Almeida Revista e Corrigida, ou seja, foi objeto de uma correção e, se foi corrigida, é porque continha erros. Na década de 1940, a Sociedade Bíblica do Brasil efetuou uma atualização desta Versão que, feita no século XVII, se encontrava extremamente defasada e era de difícil compreensão da população da metade do século XX, surgindo, então, a Versão Almeida Revista e Atualizada. Tudo isto é possível e até necessário porque versões e traduções são obras humanas, feitas segundo a vontade de Deus, no sentido da tarefa da Igreja, mas sem a “inerrância e infalibilidade”.

É bom enfatizar que a autoridade e as instruções das Escrituras valem para todas as línguas em que elas forem traduzidas. É vontade de Deus que todos os povos, tribos, línguas e nações conheçam sua Palavra (Mt.28:19; At.1:8).

CONCLUSÃO

A Bíblia é inspirada por Deus e fornece evidências plausíveis desse fato para aqueles que estão dispostos a investigar; é a única revelação escrita de Deus para toda a humanidade. Ela sobreviveu para contar sua mensagem de Cristo e da salvação de geração a geração. Não esqueçamos que a Palavra de Deus é: (a) leite que nutre – “desejai ardentemente, como crianças recém-nascidas, o genuíno leite espiritual, para que, por ele, vos seja dado crescimento para salvação” (I Pedro 2:2); (b) água que limpa – “tendo-a purificado por meio da lavagem e da água pela palavra” (Ef.5:26); (c) espada para as lutas – “Tomai também o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus” (Ef.6:17); (d) mel que deleita – “os juízos do Senhor são verdadeiros e igualmente justos,... são mais doces do que o mel e o destilar dos favos” (Salmo 19:10); (e) fogo e martelo – “Não é a minha palavra fogo, diz o Senhor, e martelo que esmiúça a penha?” (Jr.23:29); (f) restaura a alma - “a lei do Senhor é perfeita e restaura a alma; o testemunho do Senhor é fiel e dá sabedoria aos símplices. Os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração; o mandamento do Senhor é puro e ilumina os olhos” (Salmo 19:7,8).

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Fonte: Luciano de Paula Lourenço

segunda-feira, 5 de junho de 2017

11ª lição do 2º trimestre de 2017: MARIA, MÃE DE JESUS - UMA SERVA HUMILDE


 2º Trimestre/2017


Texto Base: Lucas 1:46-49


 "Disse, então, Maria: Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra. E o anjo ausentou-se dela"(Lc.1:38).


INTRODUÇÃO


Na sequência do estudo de personagens bíblicas que nos ensinam o caráter do cristão, estudaremos Maria, a mulher designada por Deus, para gerar, pelo Espírito Santo, o Filho de Deus, o Messias, aquele que veio ao mundo para salvar a humanidade perdida. Ela era muito jovem quando recebeu tão nobre missão, porém ela se colocou submissa à vontade divina, mostrando o quanto confiava e amava o Senhor. Ela não arrazoou o que poderia acontecer com sua reputação, haja vista que estava desposada com José, mas se entregou totalmente ao plano de Deus Pai. Foi uma mãe exemplar, desde a concepção até a morte de Jesus Cristo. Sua missão foi ímpar e singular na história das mulheres. O seu caráter humilde e submisso tem muito a ensinar o povo de Deus da Nova Aliança.


I. MARIA, A MÃE DE JESUS


1. Quem era Maria. Maria, a bem-aventurada entre as mulheres (Lc.1:28). Ela, ainda muito jovem, virgem e desposada com José, foi escolhida para ser a mãe do Filho de Deus. Ser a mãe do Messias era o desejo de qualquer mulher israelita. O povo esperava um Messias da linhagem de Davi, e Maria era da linhagem de Davi, porém um Messias ditatorial, guerreiro, libertador, déspota, invencível, mas nunca jamais imaginaram vir o Messias de uma família pobre de Nazaré. O povo de Jerusalém desdenhava os judeus da Galiléia e dizia que eles não eram puros em virtude do seu contato com os gentios. Eles desprezavam os habitantes de Nazaré (João 1:45,46), mas Deus, em sua graça, escolheu uma jovem pobre, da pequena cidade de Nazaré, na pobre região da Galiléia, para ser a mãe do Messias prometido. Essa escolha teve sua origem na graça de Deus e não em qualquer mérito dela. Deus não chama as pessoas porque são especiais, mas elas se tornam especiais porque Deus as chama.


2. Suas qualidades e seu caráter. Por decisão divina, Maria foi escolhida para ser a mãe do Salvador, mas, também, foi escolhida por causa de suas qualidades morais e espirituais.


a) Maria era virgem (Lc.1:26,27). Isaias, setecentos anos antes de Cristo nascer, assim profetizou: “Eis que uma virgem conceberá, e dará à luz um filho, e será o seu nome Emanuel” (Is.7:14). Maria concebeu, sem que conhecesse varão. Diz a Bíblia que o anjo Gabriel foi o enviado especial da parte de Deus à cidade de Nazaré, "a uma virgem", cujo nome era "Maria" (Lc.1:26,27). Naqueles tempos, a virgindade física de uma jovem era um valor de grande significado espiritual e moral (Is.62:5).


O Deus Filho tornou-se humano por meio de uma concepção milagrosa, operada pelo Espírito Santo no ventre de Maria. Dentre muitas jovens ricas daquela época e de famílias que moravam em Jerusalém, Deus escolheu uma humilde e simples jovens da mais humilde e desprezível cidade dos termos de Israel, “porque o Senhor não vê como vê o homem, pois o homem olha para o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração” (1Sm 16:7).


Observemos bem que Jesus foi concebido em uma virgem, mas Maria não ficou virgem para sempre. A virgindade dela cessou com o nascimento de Jesus, assim como também a sua abstinência sexual em relação a seu marido, José. A Bíblia diz que José não a conheceu até que Jesus nasceu (Mt.1:25), sendo certo, também, que José e Maria tiveram filhos, como o dizem os moradores de Nazaré, a cidade onde Jesus foi criado (Mt.13:55; Mc.6:3).


Para que o nosso Redentor pudesse expiar os nossos pecados e assim nos salvar, Ele teria que ser numa só Pessoa tanto Deus como Homem impecável. O apóstolo João falando sobre a deidade de Jesus, diz: “e sabemos que já o Filho de Deus é vindo e nos deu entendimento para conhecermos o que é verdadeiro; e no que é verdadeiro estamos, isto é, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna” (1João 5:20). O apóstolo Paulo falando sobre a humanidade impecável de Jesus, diz: “porque nos convinha tal sumo sacerdote, santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores e feito mais sublime do que os céus” (Hb.7:26). O nascimento virginal de Jesus, portanto, satisfaz estas duas exigências: deidade e Homem impecável. Todavia, a única maneira de Ele nascer como homem era nascer de uma mulher; a única maneira de ele ser Homem impecável era ser concebido pelo Espírito Santo (Mt.1:20; cf. Hb.4:15) e; a única maneira de Ele ser deidade era ter Deus como seu Pai.


Jesus Cristo, portanto, nos é revelado como uma só Pessoa com duas naturezas: divina e humana, mas inculpável. Como humano, Jesus se compadece das fraquezas do ser humano (Hb.4:15,16); como o divino Filho de Deus, Ele tem poder para libertar o ser humano da escravidão do pecado e do poder de satanás (At.26:18; Cl.2:15; Hb.2:14,15; 7:25); como Ser Divino e também Homem impecável, Ele preenche os requisitos como sacrifício pelos pecados de cada um de nós; como Sumo Sacerdote, preenche os requisitos para interceder por todos os que por ele aproximam-se de Deus (Hb.2:9-18; 5:1-9;7:24-28;10:4-12).


Portanto, a concepção virginal de Jesus teve o propósito de fazê-lo entrar no mundo do mesmo modo que Adão, numa natureza sem pecado, ainda que humana, a fim de que pudesse vencer o mundo e o pecado, e, por conseguinte, garantir a salvação de toda aquele que nele crer(João 3:16).


b) Maria era agraciada. Quando o anjo apareceu a Maria, pela primeira vez, quando da escolha para ser a mãe do Salvador, ele disse: “...Salve, agraciada; o Senhor é contigo” (Lc.1:28). Agraciada significa favorecida, não merecedora, pois graça significa favor não merecido. Observe, também, que a mensagem do anjo estava na criança, e não em Maria. O Filho seria grande, não ela (Lc.1:31-33). O nome da criança resumia o propósito do seu nascimento: Ele seria o Salvador do mundo (Lc.1:31; Mt.1:21). O anjo revela a Maria que a concepção seria um milagre. Disse-lhe o anjo: “Virá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso o que há de nascer será chamado santo, Filho de Deus”(Lc.1:35).


c) Maria tinha a presença do Senhor. Em sua mensagem, que foi diretamente da parte de Deus, o anjo disse: “[...] o Senhor é contigo [...]" (Lc.1:28b). Não temos dúvida de que Maria era uma jovem dedicada a Deus; cremos que ela estava em comunhão com o Senhor e desenvolvia uma vida devocional intensa e amorosa. Ao dizer que o Senhor era com ela, o anjo declarou o que talvez ela não tivesse consciência de forma tão clara. Deus estava do seu lado. Deus estava com ela. Maria tinha a presença do Senhor. Essa expressão foi usada por Deus para outras pessoas escolhidas por Ele, tais como a Josué (Js.1:9); a Gideão (Jz.6:12); a Israel - "Não temas, porque eu sou contigo [...]" (Is.41:10a). Por sua condição de pertencer a uma família humilde, num lugar de pouca expressão em Israel, Maria não deve ter sido notada por nenhuma pessoa importante, no entanto, Deus "dá graça aos humildes" (Tg.4:6; 1Pd.5:5); Ele "eleva os humildes" (Sl.147:6).


d) Maria era bendita entre as mulheres. O anjo declarou a Maria: "[...] bendita és tu entre as mulheres" (Lc.1:28). Observe que o anjo não disse que ela era bendita acima das mulheres, mas que era abençoada entre as mulheres. Sem dúvida nenhuma, no meio de tantos milhares de mulheres, em Israel, ser alcançada por tão grande deferência da parte de Deus era algo acima de qualquer pensamento humano.


Quando Maria foi visitar sua prima Isabel, quando esta estava grávida, há seis meses, de João Batista, ela, cheia do Espírito Santo, saúda Maria com as seguintes palavras: “Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto do teu ventre!” (Lc.1:42). Somente pelo Espírito Santo é que Isabel poderia saudar Maria daquela maneira. E como você pode perceber por essa saudação, Maria já estava grávida. Foi pelo Espírito Santo que Isabel reconheceu que sua prima estava gerando o Redentor da humanidade. É só pelo Espírito Santo que um homem ou uma mulher pode reconhecer que Jesus é Deus e deve ser seu Senhor.


Em Lucas 1:43,44, Isabel continuou falando pelo Espírito Santo, reconhecendo que a criança que estava sendo gerada em Maria era o seu Senhor. Isabel, cheia de fé, também disse que João, em seu ventre, alegrou-se pela presença do Salvador em sua casa. De alguma maneira que nós, humanos, não conseguimos entender como o Espírito Santo produziu alegria na criança que ainda nem tinha nascido.


Lucas 1:45 diz que aquele momento foi muito importante para essas duas servas de Deus. Para Isabel foi marcante, porque ficou cheia do Espírito Santo; para Maria foi importante, porque recebeu o testemunho de uma pessoa que também estava sendo usada de modo especial pelo Espírito Santo. Maria precisava daquele momento, daquele encontro com Isabel. Ela era muito jovem e Isabel já tinha uma idade avançada. Isabel podia ajudar muito a prima numa ocasião como aquela.


II. O QUE A BÍBLIA ENSINA SOBRE MARIA, A MÃE DE JESUS


Adaptado do livro “o papado e o dogma de Maria”, do Rev. Hernandes Dias Lopes.


1. Maria foi uma mulher agraciada por Deus (Lc.1:28) – “...Salve, agraciada; o Senhor é contigo”. Maria não foi escolhida para ser a mãe do Salvador por suas virtudes. Essa escolha teve sua origem na graça de Deus e não em qualquer mérito dela. Deus não chama as pessoas porque elas são especiais, mas elas se tornam especiais porque Deus as chama, como foi dito anteriormente. Maria tinha consciência disso. A ênfase da mensagem do anjo estava na criança, e não em Maria. O Filho seria grande, não ela (Lc.1:31-33). O nome da criança, Jesus, resumia o propósito do seu nascimento: salvar o povo dos seus pecados (Lc.1:31; Mt.1:21).


2. Maria, uma mulher disponível para Deus (Lc.1:38) - Disse então Maria. Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra”. O anjo chamou Maria de “favorecida”, porém, ela preferiu um termo bem mais humilde: serva. Não serva de Gabriel, de José ou de homem algum, mas do próprio Senhor. Essa atitude de Maria resume toda a sua filosofia de vida. Maria se coloca nas mãos de Deus para a realização dos propósitos de Deus. Ela é serva. Ela está pronta. Ela se entrega por completo, sem reservas ao Senhor. Ela está pronta a obedecer e oferecer sua vida, seu ventre, sua alma, seus sonhos ao Senhor. Ela está disponível para Deus. Ela está pronta a sofrer riscos, a desistir dos seus anseios em favor dos propósitos de Deus. Ela diz: “cumpra-se em mim conforme a tua palavra”. Estes termos mostram que ela estava disponível para Deus. De todos os úteros da terra, o seu útero foi escolhido para ser o ninho que ternamente acalentaria o Filho de Deus feito homem. A serva de Deus, Maria, se apresenta, bate continência ao Senhor dos Exércitos e se coloca às suas ordens.


3. Maria, uma mulher disposta a correr riscos para fazer a vontade de Deus (Lc.1:38) - “... cumpra-se em mim segundo a tua palavra”. Para fazer a vontade de Deus há um preço a cumprir. Sempre foi assim ao longo da história da Igreja àqueles que ergueram a bandeira de obediência ao Senhor Deus. Maria arriscou tremendo reveses em sua vida quando se propôs em fazer a vontade de Deus: ser a mãe do Salvador do mundo, o Messias.


a) Risco de ser censurada pelo povo. Ao aparecer grávida na cidade de Nazaré, Maria estava exposta às mais aviltantes censuras, haja vista que o anjo apareceu somente a ela, e não ao povo de um modo geral. Imagine explicar uma gravidez, não explicável, para sua família, para os seus vizinhos! Maria passou um tempo da sua vida sob uma nuvem de suspeita por parte da família e do povo de sua cidade.


b) Risco de ser abandonada pelo seu noivo, José, por não acreditar em sua gravidez milagrosa. Já que assumiu o compromisso de obedecer a Deus, como enfrentar o homem que o amava e lhe dizer que estava grávida, e que ele não seria o pai? Certamente, não foi fácil! Mas ela estava disposta a sofrer o desprezo e a solidão. Na verdade, José não acreditou em Maria, por isso resolveu abandoná-la (Mt.1:19). Mas, o anjo apareceu a ele e lhe contou a verdade e ele creu na mensagem do anjo e nas palavras de Maria (Mt.1:20). A Bíblia não registra nenhuma palavra direta de José. Ele simplesmente obedeceu.


c) Risco de ser apedrejada em público. O risco de Maria ser apedrejada era enorme, pois esse era o castigo para uma mulher adúltera. Como ela já estava comprometida com José (Mt.1:19), ele poderia, com base nos ditames da Lei Mosaica, mandar apedrejá-la. A Lei era enfática: “Se houver moça virgem desposada e um homem a achar na cidade, e se deitar com ela, trareis ambos à porta daquela cidade, e os apedrejareis até que morram: a moça, porquanto não gritou na cidade, e o homem, porquanto humilhou a mulher do seu próximo. Assim exterminarás o mal do meio de ti” (Dt.22:23,24).


Percebe-se, então, que Maria dispôs-se a pagar um alto preço por sua obediência ao projeto de Deus. Maria era uma jovem pobre, agora grávida, com o risco de ser abandonada pelo noivo e apedrejada pelo povo. Mas, ela não abre mão de ir até o fim, de lutar até a morte, de sofrer todas as estigmatizações possíveis para cumprir o projeto de Deus.


4. Maria, uma mulher que suportou tudo por amor a DeusNada poderia abalar a fé de Maria, nem mesmo as piores crises. Tudo suportou por amor a Deus.


a) suportou a crise do desabrigo. Após andar 130 quilômetros a pé ou de jumento, de Nazaré até Belém, ela dá à luz uma linda criança, o seu primogênito, o Filho do Altíssimo, o Verbo que se fez carne. Conquanto Filho do Altíssimo e da linhagem do rei Davi, não nasceu num berço de ouro. Todos sabemos que ele nasceu numa humilde manjedoura, rodeados de animais, e num local não muito cheiroso. Se ela duvidou de Deus? Não, claro que não! Maria, além de uma mãe exemplar, ela era uma serva do Senhor, plenamente submissa a Ele. Ela não duvidou de Deus, não lamentou, não murmurou, nem se exaltou. Não reivindicou seus direitos, nem exigiu tratamento especial. Ela dá à luz ao seu Filho sem um lugar propício, sem um médico ou parteira. Ela está sozinha com o seu marido, sem luzes, sem holofotes, sem cuidados, sem proteção humana.


b) suportou a crise do desterro. Por força de um intento maligno do rei Herodes em matar o menino Jesus, Maria foge para o Egito. A crise agora foi ainda mais cruenta: era a crise de se sentir sem lugar certo para morar. Maria está enfrentando a crise de sentir-se desterrada, perseguida, ameaçada. Ela, seu marido e o seu Filho, vão para um lugar onde serão ninguém, onde todos os vínculos importantes estarão ausentes. Ela é humilde o bastante para fugir, corajosa o suficiente para enfrentar os perigos do deserto. Ela caminha sintonizada pelas mãos da Providência Divina. Ser mãe do Messias em vez de trazer-lhe status, glória e honra trouxe-lhe solidão, perseguição, desterro. Ela obedece à voz do anjo que imperativamente disse: “...permanece lá até que eu te avise...”(Mt.2:13).


c) suportou a crise da discriminação social. Após o retorno do Egito, Maria foi morar em Nazaré da Galiléia, juntamente com José e Jesus. Nazaré era considerada como subúrbio do fim do mundo. Era um dos maiores covis de ladrões e prostitutas da época. O comentário geral era que de Nazaré não saía nada de bom (João 1:46). Era uma região sem vez, sem voz, sem representatividade. Era um lugar de péssima reputação. Mas é lá, nesse caldeirão de terríveis iniquidades, nessa região da sombra da morte, que o Filho de Deus vai crescer para ser o Salvador do mundo. É como se Deus estivesse armando a sua barraca nas malocas mais perigosas da vida. O Filho de Deus, o Rei dos reis, deveria ser chamado não de cidadão da gloriosa Jerusalém, mas de Nazareno, termo pejorativo, sem prestigio.


5. Maria, uma discípula de Jesus Cristo. Após a ressurreição de Jesus, Maria tornou-se discípula de Jesus. Com certeza, ela e os demais irmãos de Jesus estavam dentre os quinhentos que Jesus aparecera (1Co.15:6). É tanto que Maria e os irmãos de Jesus estavam entre aqueles que aguardavam, em oração, a promessa do derramamento do Espírito Santo, no cenáculo (cf.At.1:14). É a última vez que Maria aparece na Bíblia. Fechou sua passagem pela Bíblia com chave de ouro: recebeu o Batismo com o Espírito Santo e tornou-se uma discípula de Jesus revestida de poder. Observe bem que no cenáculo, Maria tomou o seu lugar com os outros cristãos que aguardavam a promessa do Batismo com o Espírito Santo. Ela não estava separada dos demais e nem acima deles. Ela estava na companhia daqueles que eram seguidores do Senhor Jesus. A Bíblia não diz que Maria recebeu uma porção especial do Espírito. Ela não foi mais cheia que os demais, não. Na verdade, seu lugar doravante foi discreto. Os filhos do seu marido José - Tiago e Judas - são mencionados e escreveram livros da Bíblia, mas Maria não é citada mais, nem pelos apóstolos. O propósito dela não era estar no centro do palco, mas trazer ao mundo Aquele que é a Luz do mundo, o único digno de ser adorado e obedecido.


III. O QUE A BÍBLIA NÃO ENSINA SOBRE MARIA, A MÃE DE JESUS


1. Maria não é mãe de Deus. Ela é mãe de Jesus, e Jesus é Deus, mas ela não é mãe de Deus. Jesus tinha duas naturezas distintas: divino e humana. Como Deus Ele não teve mãe e como homem não teve pai. Como Deus ele sempre existiu, é o Pai da eternidade, o criador de todas as coisas. Como Deus, ele preexiste a todas as coisas, é a origem de todas as coisas. Jesus é eterno (João 1:1). Antes que Abraão existisse, Ele já existia (João 8:58). O filho não pode vir primeiro que a mãe. Se Maria fosse mãe de Deus, José seria padrasto de Deus, Isabel seria tia de Deus e João Batista seria primo de Deus. Portanto, essa ideia de “Maria mãe de Deus” não tem nenhum sentido e nenhum fundamento bíblico.


De onde surgiu essa ideia absurda? Certamente, segundo alguns estudiosos, do concílio de Éfeso, em 431 d.C. Nesse concilio, convocado pelo imperador Teodósio II e presidido pelo patriarca de Alexandria, Cirilo, ocorrido entre junho e setembro de 431, foi definida a unidade pessoal de Cristo (ou seja, Cristo-Deus e Cristo-homem são a mesma pessoa, sem qualquer distinção) e, em consequência disto, foi proclamado que Maria era “theótokos”, ou seja, a “mãe de Deus”. É esta a primeira declaração oficial cristã que dá a Maria um papel diferenciado, quase 130 anos depois de concluído o Novo Testamento, e que seria o primeiro dos documentos que levaria à mariolatria hoje existente. A conclusão do Concílio foi a seguinte: “o filho de Maria é Jesus Cristo, Pessoa divina; Maria é Mãe de Deus”.


A mariolatria nada mais é que a presença de um antigo e primitivo culto pagão da deusa-mãe sob roupagens cristãs. A deusa-mãe era uma figura constante em todas as religiões politeístas antigas. Seja na Grécia, na Índia ou na Babilônia, a figura de uma divindade feminina estava sempre presente, até porque é natural que o mistério da vida e da própria gravidez intrigassem os homens, que, obscurecidos pelo pecado, não tinham senão que divinizar a própria figura materna e entender que haveria uma deusa-mãe a presidir estes fenômenos misteriosos, bem como a demonstrar a afetividade e carinho que são próprios do relacionamento entre a mãe e filhos.


Esta ideia do paganismo, que atravessou os séculos, que chegou, inclusive, a influenciar o próprio pensamento de Israel, povo formado pelo próprio Deus para servi-lo, não iria desaparecer tão facilmente do mundo. Aproveitando-se da própria circunstância de que a mãe do Salvador engravidou sendo virgem, procedeu-se a uma indevida assimilação do culto pagão de Astarote e de Tamuz a esta circunstância evangélica, assimilação que gerou a mariolatria.


A partir do século IV, quando há a “conversão” ao cristianismo de milhares, talvez milhões de pessoas, depois que o imperador Constantino deixou de perseguir os cristãos e iniciou uma aproximação com eles, visando, sobretudo, a sobrevivência do Império Romano, que estava combalido e enfraquecido, ouve uma considerável adesão ao movimento que redundaria na absorção por parte de alguns cristãos de práticas pagãs de adoração à deusa-mãe. A concessão de poderes políticos e de privilégios aos bispos cristãos, como uma tentativa de diminuir o enfraquecimento do poder imperial, apresentou-se como um chamariz a muitos pagãos para abraçar a nova fé, com uma inevitável consequência: a de adaptação de crenças, costumes e tradições pagãos ao cristianismo, mediante mera mudança de rótulos e de nomes, sem que tivesse havido mudança de atitudes. Dentro desta linha, a absorção do culto da deusa-mãe pelo cristianismo não seria uma exceção, esta que era uma das ideias mais fortes e cristalizadas do paganismo. Portanto, a ideia de uma deusa-mãe sempre virgem, que tinha tido um filho igualmente divino, foi facilmente assimilada à narrativa evangélica do nascimento virginal de Jesus, Ele próprio Deus.


2. Maria não é imaculada. A tese de que Maria não herdou o pecado original nem tão pouco não cometeu nenhum pecado em toda a sua vida não tem nenhum amparo nas Escrituras. Esse dogma da imaculada conceição foi promulgado pelo papa Pio IX em 08/12/1854. A Bíblia, porém, ensina que todos pecaram (cf. Rm.3:23). Todos herdamos o pecado de nossos pais. Não foi diferente com Maria. Então, por que Jesus nasceu de Maria e nasceu sem o pecado original? Porque Jesus não nasceu de um intercurso entre Maria e José, mas o ente que nela foi gerado, o foi pelo Espírito Santo. Jesus é semente da mulher. Maria se reconhecia pecadora e chamou Deus de seu Salvador (Lc.1:46,47). Ela ofereceu um sacrifício pelo pecado quando foi levar Jesus ao templo aos oito dias de vida (Lc.2:22-24 cf. Lv.12:6-8).


3. Maria não é mediadora ou intercessora. Somente Deus pode ouvir e atender as nossas orações. Somente Ele é digno de receber culto. O culto a Maria e as orações que são feitas a ela estão em desacordo com o ensino da Bíblia. Ela precisaria ter os atributos exclusivos da divindade, como onisciência, onipotência e onipresença para poder ouvir todas as orações e interceder. Nem Pedro, nem Paulo, nem os anjos jamais receberam adoração. Somente Deus é digno de ser adorado. A veneração a Maria como Mãe de Deus, rainha do céu, mãe da igreja está em total desacordo com o ensino da Palavra de Deus. Essa ideia procedeu do entendimento da Idade Média que Jesus era um juiz muito severo e que Maria teria um coração mais terno e compreensivo. Isso é contra a perfeição absoluta de Deus. A doutrina proclamada “tudo por Jesus, nada sem Maria” está em desacordo com o ensino das Escrituras. A Bíblia diz claramente que Jesus é o único Mediador entre Deus e os homens (cf. 1Tm 2:5; João 14:6; 1João 2:1; Rm.8:34; Hb.7:25).


4. Maria não é corredentora. A salvação é obra exclusiva de Deus. Ninguém pode acrescentar nada ao que Deus já fez através do seu Filho. O sacrifício de Cristo foi completo, vicário, pleno, cabal e suficiente. A Bíblia é clara em afirmar: “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” (At.4:12).


5. Maria não foi assunta ao Céu. No dia 01/11/1950 o papa Pio XII promulgou o dogma de que o corpo de Maria ressuscitou da sepultura logo depois que morreu, que o corpo e alma se reuniram e que ela foi elevada e entronizada como rainha do céu, recebendo um trono à direita de seu Filho. Isso é um absurdo, que vai de encontro o que a Bíblia diz. A Bíblia diz que “aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo, depois disso, o juízo” (Hb.9:27). Esta verdade não exclui nenhum ser humano, inclusive Maria. Na verdade, Maria foi sepultada e, agora, aguarda a ressurreição, no dia da Vinda de Jesus (1Ts. 4:16).


6. Maria não é autoridade suprema. A Bíblia diz que somente a Jesus foi dado todo poder no Céu e na Terra (cf. Mt.28:18). Esse ensino que Maria é autoridade suprema a desonra vergonhosamente. Isso só pode ser de origem maligna para confundir as mentes incautas, levando-as à mariolatria.


Maria é digna de Admiração e honra? Claro que sim, tanto quanto outros santos da Bíblia por haverem cumprido com fé, obediência e humildade os encargos que Deus lhes confiou, tais como Noé, Abraão, Jó, Moisés, Elias, Eliseu, dentre muitos outros. Honrar a Maria significa reconhecer que a sua missão aqui na Terra foi uma das mais nobres e importantes, qual seja, a missão de carregar em seu ventre, alimentar com seu sangue, amamentar e criar o nosso Redentor. Todavia, não se deve dispensar a Maria honrarias superiores às que ela merece. Nada podemos fazer para aumentar a sua posição diante de Deus. Como justo juiz, Deus não dará a Maria nada mais nada menos do que ela merece, do que ela conquistou com sua fé, humildade e obediência. E o que ela mais desejou foi a sua salvação, ou seja, viver com Cristo na eternidade. Seguindo seu exemplo, sejamos submissos à Palavra de Deus e à Sua vontade, ainda que isso nos cause algumas dificuldades no meio em que vivemos. Que bom seria se todos dissessem: "Cumpra-se em mim, Senhor, segundo a tua palavra”!


CONCLUSÃO


Honremos a Maria, como um exemplo de mulher que tudo enfrentou para fazer a vontade de Deus. Tenhamos a sua disposição para cumprir, em nós, a vontade de Deus e procuremos servir a Jesus para participarmos daquela reunião em que ela, certamente com os demais salvos, encontrará com o seu Senhor nos ares (1Ts.4:17). Se é para obedecermos ao que Maria disse, sigamos o seu único mandamento registrado na Bíblia Sagrada: “fazei tudo quanto ele vos disser” (João 2:5). Devemos, sim, fazer tudo o que Jesus nos disser, pois “…em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” (At.4:12).


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Fonte: Luciano de Paula Lourenço