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segunda-feira, 24 de julho de 2017

5 LIÇÃO DO 3º TRIMESTRE DE 2017: A IDENTIFICAÇÃO DO ESPÍRITO SANTO


Texto Base: João 14:15-18,26

"Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?" (1Co.3:16).

INTRODUÇÃO

Na continuidade do estudo da Declaração de Fé das Assembleias de Deus, estudaremos nesta Aula a nossa crença no Espírito Santo, uma das Pessoas da Trindade, ou seja, uma das Pessoas que formam o Único e Soberano Deus. Ao estudarmos sobre este sublime assunto devemos ter plena reverência, santo temor e oração, tendo em mente que se trata de um assunto bastante difícil, haja vista que o Espírito Santo nada fala de si mesmo (João 16:3). O eterno Deus, o Pai, revela muito de si mesmo nas páginas Sagradas; de igual modo, o Filho; mas, o divino Espírito Santo, não. Daí tratar-se este assunto de um insondável mistério, do qual devemos nos acercar primeiramente pela fé em Cristo (Rm.3:27).

I. O ESPÍRITO SANTO

O Espírito Santo é a Terceira Pessoa da Triunidade Divina. Ele aparece, literalmente, em toda a Bíblia desde o Gênesis, na criação (Gn.1:2), até o Apocalipse (22:17). Ele é Eterno, e se Eterno Ele é Deus. Sendo Deus, Ele sempre esteve presente em todas as ações divinas em relação ao ser humano, a começar da sua criação. Como vemos na declaração divina de Gn.1:27, ou seja, na criação do homem, toda a Trindade esteve envolvida - “Façamos o homem conforme à Nossa imagem, conforme à Nossa semelhança". Aqui, há o emprego do verbo no plural ao mostrar que o Deus que decidiu a criação do homem era um único Deus, mas dotado de uma pluralidade de Pessoas. O Espírito Santo é uma Pessoa; veja essa verdade como mais detalhe a seguir, no tópico IV desta Aula.

O Espírito Santo da atual dispensação é o mesmo que atuou no Antigo Testamento. Qual a diferença, então? No Antigo Testamento, se usufruía apenas individualmente (1Sm.10:6; 16:13); agora, temos o Espírito Santo (1Co.12:13; 1Co.7:40; Gl.3:5; 1João 4:13; 1Ts.4:8). No Antigo Testamento, o Espírito habitava no meio do povo (Ag.2:5), ou estava sobre alguém (Nm.11:17; Is.59:21); agora, está dentro de ou em nós (Ez.36:27; João 14:17). No Antigo Testamento, Ele usava indivíduos, como Saul, Davi, etc.; agora, ele usa um povo (1Co.6:19; Ef.2:22; Ap.3:6). No Antigo Testamento, era temporário (Nm.11:25); agora, em caráter permanente (João 16:7).

Há vários exemplos específicos da atividade do Espírito Santo concedendo poder aos primeiros cristãos para operar milagres à medida que eles proclamavam o evangelho. Veja o exemplo de Estevão em At 6:5,8; e de Paulo em Romanos 15:19 e 1Corintios 2:4. O Espírito Santo deu grande poder à pregação da igreja primitiva de modo que, quando os discípulos eram cheios do Espírito Santo, proclamavam a Palavra com grande coragem e poder (cf. At.4:8,31; 6:10; 1Ts.1:5; 1Pd.1:12). Em geral, podemos dizer que o Espírito Santo fala por meio da mensagem do evangelho à medida que ela é proclamada de maneira eficaz ao coração das pessoas. Assim como aconteceu no início da Igreja, o Espírito Santo continua a capacitar os seus servos na atualidade. Isso ocorrerá até o dia do arrebatamento da Igreja.

O Novo Testamento termina com um convite do Espírito Santo e da igreja, que juntos chamam as pessoas à salvação – “E o Espírito e a esposa dizem: Vem! E quem ouve diga: Vem! E quem tem sede venha; e quem quiser tome de graça da água da vida” (Ap.22:17).

II. A DIVINDADE DO ESPÍRITO SANTO À LUZ DA BÍBLIA

1. A divindade declarada. O Espírito Santo é uma das Pessoas da Trindade, ou seja, é uma das Pessoas que formam o Único e Soberano Deus. Portanto, o Espírito Santo é Deus e, como tal, é uma Pessoa, jamais uma força ou influência. O texto mais explícito a respeito da divindade do Espírito Santo está em At.5:3,4, quando o texto sagrado nos conta a respeito do episódio que envolveu Ananias e Safira na igreja de Jerusalém. Indagado por Pedro a respeito do valor da venda da propriedade, Ananias mentiu, dizendo que o valor depositado ao pé dos apóstolos era o efetivo valor da venda. Diz o texto sagrado: "Por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, e retivesses parte do preço da herdade? [...] Não mentiste aos homens, mas a Deus". Diante desta mentira, Pedro diz que Ananias havia mentido ao Espírito Santo e, por isso, havia mentido não aos homens, mas a Deus. Temos, portanto, explicitamente reconhecida a divindade do Espírito Santo, uma prova que os apóstolos reconheciam o Espírito Santo como Deus, ou seja, que a doutrina da divindade do Espírito Santo é a genuína e autêntica doutrina da Igreja Primitiva. A propósito, se Ananias mentiu ao Espírito Santo, temos uma prova, dentre de tantas outras que veremos a seguir, de que o Espírito Santo não é uma força, pois não se pode mentir senão a uma Pessoa. Na verdade, neste episódio é declarada a divindade do Espírito Santo, ou seja, Deus e o Espírito Santo são uma mesma divindade. O apóstolo Paulo também emprega esse tipo de linguagem: "Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?" (1Co.3:16).

A Bíblia diz que quem desobedece ao Espírito Santo, peca (Mt.12:31,32; Mc.3:29; Lc.12:10; Hb.10:29) – “Qualquer, porém, que blasfemar contra o Espírito Santo, nunca obterá perdão, mas será réu do eterno juízo” (Mc.3:29). Ora, se toda desobediência ou resistência ao Espírito Santo é chamada de pecado, temos que somente se pode pecar contra Deus. As Escrituras, ao considerarem que é pecador quem se levanta contra o Espírito Santo, chamando mesmo de “blasfêmia”, que é “enunciado ou palavra que insulta a divindade”, tem-se, claramente, que o texto sagrado considera o Espírito Santo como Deus.

Mas, além disto, temos o próprio testemunho de Jesus. Quando Jesus revelou que subiria para o Pai, disse aos discípulos que não os deixaria órfãos, pois pediria ao Pai um “outro” Consolador (João 14:16). Este texto, no original, significa “outro da mesma natureza”. Assim, quando o texto sagrado nos fala do “outro” Consolador, está a dizer que seria enviado alguém que tivesse a mesma natureza de Cristo, ou seja, a natureza divina. Tanto assim é que o Senhor disse que este “outro” Consolador ficaria com os discípulos “para sempre”, ou seja, tem-se aqui mais um indicativo da natureza divina deste Consolador, a saber, a “eternidade”. Como, então, diante de tantas evidências, não reconhecer que o Espírito Santo é Deus?

2. A divindade revelada. A Bíblia não se limita a mostrar que o Espírito Santo é uma Pessoa, mas também nos revela que é uma Pessoa Divina, ou seja, é uma das Pessoas que compõem este mistério que é a Santíssima Trindade, este Deus que é Triúno, ou seja, um Único Deus que está em três Pessoas. O relacionamento do Espirito Santo como o Pai e o Filho está claro nas instruções tripartidas do Novo Testamento (Mt.28:19;1Co.12:4-6;2Co.13:13; Ef.4:4-6; 1Pd.1:2). Nestas passagens há a expressa revelação da Trindade Divina e nos quais sempre o Espírito Santo está presente.

a) na fórmula do batismo (Mt.28:19) – “Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. Esta expressão demonstra que há uma igualdade entre estas três Pessoas, de forma que é, assim, expressamente reconhecida a Deidade do Espírito Santo, bem assim a própria unidade divina, já que se fala no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e não “nos nomes”, o que permitiria dizer que os cristãos seriam “triteístas”(isto é, que acreditariam em “três deuses”), como acusam, falsamente, tanto judeus quanto muçulmanos e que, como vemos, não é, em absoluto, o ensino do Senhor Jesus à Sua Igreja.

b) na bênção apostólica - “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo seja com todos vós. Amém” (2Co.13:13). Aqui, também, o apóstolo indica a igualdade que existe entre as três Pessoas divinas, a ponto de invocar-lhes por igual no instante da súplica da bênção. Embora distintas, porém, como vemos no texto da bênção, trata-se de uma única bênção, contribuindo cada Pessoa com uma determinada função, a demonstrar, uma vez mais, a triunidade divina. O Espírito Santo contribui com a comunhão, que é precisamente o Seu trabalho na presente dispensação: o de nos fazer um com o Pai e o Filho.

c) no texto de Ef.4:4-6 - “Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação; um só SENHOR, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos e em todos vós”. Paulo, ao dissertar sobre o mistério da Igreja, que é o tema central da sua carta aos efésios, deixa bem claro que há um só Espírito, um só Senhor e um só Deus e Pai de todos, mostrando, assim, claramente que Deus é único, mas três são as Pessoas - o Pai, o Filho (o Senhor) e o Espírito Santo. A estes (“um só”), o apóstolo contrasta com os “todos”, que somos nós, a Igreja, que, apesar de sermos todos, formamos uma “unidade” em virtude da fé, da esperança da vocação e do batismo.

E mais: Em relação ao Pai, o Espírito Santo é chamado de "Espírito de Deus" (Gn.1:2) e de "o Espírito que provém de Deus" (1Co.2:12); concernente ao Filho, Ele é chamado por Jesus de "outro Consolador" (João 14:16). Aqui, o termo grego para "Consolador" é parácleto, que significa "ajudador, advogado", termo que é aplicado ao Senhor Jesus, conforme João 2:1. Também, Ele é chamado de "Espírito de Jesus" (At.16:7), "Espírito de Cristo" (Rm.8:9) e ainda "Espírito de seu Filho" (Gl.4:6) – “E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai”.

3. Obras divinas. A divindade do Espírito Santo é vista não apenas na declaração direta das Escrituras, nem somente pelo relacionamento dEle com o Pai e o Filho, mas também nas obras de Deus. Ao Espírito são atribuídas obras que somente Deus pode realizar: a) Criou o Universo e os seres humanos (Gn.1:2; Jó 26:13; 33:4; Sl.104:30); b) Inspiração (2Pd.1:21); c) Gerou Jesus Cristo em Sua encarnação (Lc.1:35); d) Convence o homem do pecado, e da justiça, e do juízo (João 16:8); e) Regenera o homem (João 3:5,6; Tt.3:5); f) Intercede (Rm.8:26,27); g) Santifica (2Ts.2:13).

III. OS ATRIBUTOS DA DIVINDADE

As Escrituras Sagradas indicam a deidade do Espírito Santo mediante um conjunto de textos implícitos, ou seja, textos que ao conferirem certos atributos e qualidades ao Espírito Santo, dizem que Ele é Deus, vez que somente Deus pode ter as características indicadas nestes textos e atribuídas ao Espírito. Vejamos alguns atributos da Terceira Pessoa da Trindade, o Espírito Santo.

1. Alguns atributos incomunicáveis. Os atributos incomunicáveis são aqueles exclusivos de Deus. Apenas Ele tem essas qualidades e elas não foram transmitidas (comunicadas) a nenhum ser criado.

a) O Espírito Santo é Onisciente, ou seja, sabe todas as coisas. Ser onisciente significa ter pleno e total conhecimento de tudo que existe e acontece em toda a parte. Em 1Co.2:10,11 Paulo afirmou: “Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito; porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus. Porque qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus”. Aqui, o apóstolo Paulo ensina-nos que só quem sabe as coisas que Deus sabe é o Espírito Santo. Ora, Deus sabe todas as coisas e, portanto, o Espírito Santo, se sabe o que Deus sabe, também sabe todas as coisas. Se o Espírito sabe todas as coisas é Onisciente, e só Deus é Onisciente. O que o texto está a nos dizer é que o Espírito Santo é Deus.

b) O Espírito Santo é Onipresente. Assim como Deus Pai, o Espírito Santo possui o atributo da onipresença, que é a condição de encontrar-se simultaneamente em cada lugar e em todo o tempo, sem jamais deixar de estar presente em algum desses locais. O rei Davi, o escritor do Salmo 139, recebeu do Senhor uma grande inspiração e produziu esse belíssimo texto, do qual reproduzimos um trecho abaixo:

“Para onde me irei do teu Espírito ou para onde fugirei da tua face? Se subir ao céu, tu aí estás; se fizer no Seol a minha cama, eis que tu ali estás também; se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar, até ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá” (Sl.139:7-10).

O salmista diz-nos que não há como fugir da presença do Espírito do Senhor, pois Ele está em todos os lugares, ou seja, Ele é Onipresente. Ora, só Deus pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo, pois isto é um atributo que lhe é exclusivo. Se o Espírito Santo está presente em todos os lugares, como diz o salmista, esta é uma outra maneira de as Escrituras nos revelarem que o Espírito Santo é Deus.

c) O Espírito Santo é Onipotente. O Espírito Santo é, conforme Deus Pai, também detentor de todo o poder. A onipotência constitui a capacidade que alguém tem de realizar tudo e não apresentar nenhuma espécie de impedimento, pois é Todo-Poderoso. No Evangelho de Lucas 1:35,37, o anjo do Senhor aparece falando para Maria:

“E, respondendo o anjo, disse-lhe: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; pelo que também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus. Porque para Deus nada é impossível”.

Aqui é dito que o Espírito Santo faz coisas impossíveis ao homem, pois nada lhe é impossível, como também que Ele opera todas as coisas, conforme a Sua vontade (1Co.12:11). Portanto, não há limite para a operação do Espírito Santo, que pode fazer tudo o que quiser. Ora, isto nada mais é que onipotência, que é outro atributo exclusivo da divindade. Assim sendo, temos que o Espírito Santo é Deus.

d) O Espírito Santo é Eterno (Hb.9:14) - “quanto mais o sangue de Cristo, que, pelo Espírito eterno, se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus, purificará a vossa consciência das obras mortas, para servirdes ao Deus vivo?”. Eterno é o Ser que não tem princípio nem fim. Todas as criaturas têm, pelo menos, um início (Gn.1:1). Só Deus é eterno, pois só Deus não tem princípio nem fim e, por isso, é o princípio e o fim (Ap.1:8; 22:13). Se é dito que o Espírito é eterno, temos que Ele é Deus. A propósito, a Bíblia assim O indica já no livro do Gênesis, quando é dito que Deus criou os céus e a terra no princípio, a revelar que as criaturas todas têm, pelo menos, um início, também afirma que o Espírito de Deus Se movia sobre a face das águas(Gn.1:2), ou seja, o Espírito não era algo que tenha tido um início, embora ali já estivesse, o que se constitui em mais uma demonstração da Sua eternidade e, por isso mesmo, da Sua deidade.

e) O Espírito Santo é Fonte de vida (Rm.8:2) – “Porque a lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte”. O Espírito Santo é Fonte de vida, tanto que fez gerar o Filho no ventre de Maria (Lc.1:35), a demonstrar, portanto, que o Espírito Santo é Criador. A propósito, fez Jesus tornar à vida, ressuscitando-O dentre os mortos (Rm.8:11). Ele não só produz vida física, como também vida espiritual (2Co.3:6). Só Deus pode realizar estas coisas, pois só Ele é o Criador da vida. Assim, se o texto sagrado diz que o Espírito faz tais coisas, é porque está a dizer que Ele é Deus.

2. Alguns atributos comunicáveis. É nos atributos comunicáveis que o Espírito Santo se posiciona como Ser moral, consciente, inteligente e livre, como Ser pessoal no mais elevado sentido da palavra. Quem é salvo pela graça de Deus é participante da natureza divina quanto aos atributos comunicáveis da deidade (2Pd.1:4-9), e essa natureza clama por santidade (cf. Gl.5:22; Cl.3:1-17).

a) O Espírito Santo é Santo (Ef.1:13). O termo "santo" é aplicado ao Espírito como consequência direta de sua natureza e não como resultado de uma fonte externa. Ele é santo em si mesmo; assim, não precisa ser santificado, pois é Ele quem santifica (Rm.15:16; 1Co.6:11).

b) O Espírito Santo é Amor (Rm.5:5; 15:30). Ele derrama este amor nos nossos corações. Ora, se o Espírito tem amor e o amor que derrama em nós é o amor de Deus, tem-se, evidentemente, que o Espírito Santo é Deus, até porque Deus é amor (1João 4:8,16).

c) O Espírito Santo é a Verdade (1João 5:6) – “...E o Espírito é o que testifica, porque o Espírito é a verdade”. Este texto é explícito ao dizer que o Espírito Santo é a Verdade. O próprio Jesus disse que o Espírito Santo é o Espírito de verdade (João 16:13). Ora, só quem pode ser a verdade é o próprio Deus (Dt.32:4; Jr.10:10), e uma das demonstrações de deidade de Jesus é precisamente o fato de Ele ter Se identificado com a Verdade (João 14:6). Portanto, quando as Escrituras dizem, expressamente, que o Espírito Santo é a Verdade, estão a afirmar, mais uma vez, a divindade do Espírito Santo.

3. O Espírito Santo e a Trindade. O Espírito Santo é uma Pessoa distinta do Pai e do Filho. Devemos observar que o Novo Testamento ensina a unicidade da divindade (1Co.8:4; Tg.2:19) e, no entanto, revela a distinção de pessoas na divindade: o Pai é Deus (Mt.11:25; João 17:3; Rm.15:6; Ef.4:6); o Filho é Deus (João 1:1,18; 20:28; Rm.9:5; Hb.1:8; Cl.2:9; Fp.2:6; 2Pd.2:11); o Espírito Santo é Deus (At.5:3,4; 1Co.2:10,11; Ef.2:22). O Pai, o Filho e o Espírito Santo são claramente distinguidos um dos outros na Bíblia (João 15:26; 16:13-15; Mt.3:16,17; 1Co.13:13), de tal forma que as três Pessoas não se confundem umas com as outras. São três benditas e santíssimas Pessoas que compõem apenas uma divindade. Portanto, na unidade da divindade há uma Trindade de Pessoas, da qual o Espírito Santo é o Executivo.

Conquanto estas evidências bíblicas sejam irrefutáveis, ainda insurge no meio dos crentes sutis ensinamentos que buscam confundir os incautos de que, embora o Espírito Santo seja uma Pessoa Divina, Ele se confunde ou com o Pai, ou com o Filho. Assim, o Espírito Santo seria ou o Pai ou o Filho, mas não uma “terceira” Pessoa. Tal ensinamento, tanto quanto os que negam a personalidade e/ou a divindade do Espírito Santo, não pode ser aceito pelos servos de Deus. O Espírito Santo, embora seja um com o Pai e com o Filho, é uma Pessoa distinta, que não Se confunde com nenhuma das outras duas.

O texto da Bíblia que é mais utilizado pelos falsos mestres para demonstrar suas teorias falsas é o de João 14:18, que diz: ”Não vos deixarei órfãos; voltarei para vós”. Dizem eles que, segundo este texto o Espírito Santo nada mais seria do que o próprio Jesus que teria retornado para conviver com a Igreja, ainda que de forma invisível e incorpórea. Afinal de contas, dizem estes falsos mestres, o Senhor disse que não nos deixaria órfãos, mas “voltaria para nós”. Entretanto, esta expressão nada tem a ver com uma volta da Pessoa de Cristo para o convívio da Igreja, como durante o ministério terreno, mas, sim, com o Seu retorno por intermédio do Espírito Santo. O Espírito tornaria Jesus presente, fazendo-nos lembrar dos Seus ensinos, do Seu exemplo, levando-nos à comunhão com o Pai e o Filho, por meio de uma vida de santificação, de oração e de meditação na Palavra do Senhor. Assim, por meio do Espírito, sentimos a presença de Jesus, enquanto não chega o dia do arrebatamento, quando aí, sim, passaremos a ter a presença pessoal do Filho, semelhante e até mais profunda que a que havia entre Jesus e Seus discípulos durante o Seu ministério terreno.

Os falsos mestres procuram forçar o texto supracitado para confundir Jesus com o Espírito Santo e dizer que o Espírito Santo, quando “desceu” no dia de Pentecostes, seria o próprio Jesus, só que em forma incorpórea. Mas, isto é facilmente refutado pelo Bíblia Sagrada:Primeiro, no batismo de Jesus (Mt.3:16,17). Neste acontecimento, temos as três Pessoas Divinas, a mostrar que são distintas e não Se confundem umas com as outras: O Filho, que feito carne (João 1:14), era batizado por João Batista; enquanto que o Pai, do céu, dava testemunho do Filho e; o Espírito Santo, em forma de pomba, descia sobre Cristo. Como dizer, então, que as Pessoas Se confundem?

Segundo, o Espírito Santo não foi recebido pelos discípulos no dia de Pentecostes, como argumentam estes falsos mestres, o que explicaria a “volta de Cristo” como Espírito Santo. Os discípulos receberam o Espírito Santo antes da ascensão de Cristo, quando ainda estavam no cenáculo, como nos dá conta o texto de João 20:22: ” E, havendo dito isto, assoprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo”. Quando Jesus assoprou sobre os discípulos, disse que haviam recebido o Espírito Santo. No dia de Pentecostes, eles foram revestidos de poder (Lc.24:49), o que é outra coisa bem diferente, mostrando-nos a coexistência entre Jesus e o Espírito Santo. Aliás, esta coexistência foi uma característica durante todo o ministério terreno de Jesus. A partir do batismo, vemos Jesus sendo ungido pelo Espírito Santo, para cumprir a obra do Pai (At.10:38). Jesus orou ao Pai, alegrando-se no Espírito Santo (Lc.10:21), a provar que as Pessoas são distintas e não Se confundem.

Como dizer, ainda, que Jesus é o Espírito Santo, se o próprio Jesus disse que o Espírito não falaria de Si mesmo, mas, sim, de Jesus; que não glorificaria a Si mesmo, mas, sim, a Jesus (Jo.16:13,14)?  Por fim, como dizer que Jesus é o Espírito Santo se o Espírito e a Igreja estão a pedir a volta de Jesus (Ap.22:17)?

Mas, ainda, alguém poderá argumentar: se o Espírito Santo não se confunde com o Filho, não poderia ser ele o Pai? A resposta também é negativa. Jesus disse que o Espírito Santo seria enviado pelo Pai (João 14:16); desta feita, se o Pai enviaria o Espírito Santo, então o Pai não se confunde com o Espírito. Além do mais, o Espírito clama ao Pai (Gl.4:6), de sorte que também não pode haver confusão entre estas duas Pessoas.

Temos, portanto, que o ensino bíblico, a revelação divina através das Escrituras Sagradas, mostra-nos, com clareza, que o Espírito Santo é uma Pessoa divina, Pessoa que não se confunde nem com o Pai nem com o Filho.

IV. PERSONALIDADE DO ESPÍRITO SANTO

A personalidade do Espírito Santo está presente em toda a Bíblia de maneira abundante e inconfundível e tem sido crença da Igreja desde o princípio. A crença na personalidade do Espírito Santo é uma das características da fé cristã. Esta crença deriva do exame preciso e cuidadoso de passagens bíblicas, e contrasta com a noção explicada por muitas seitas. Algumas seitas apresentam o Espírito Santo como sendo uma influência impessoal, uma força ou uma energia. Entretanto, a Palavra de Deus nos revela que o Espírito Santo é uma Pessoa, pois menciona atitudes e ações do Espírito que somente uma pessoa pode ter. Ele possui uma mente, vontade e emoções, que são características de uma pessoa e não de uma influência ou força.  Vejamos algumas provas bíblicas:

1. O Espírito Santo se entristece (Ef.4:30) - "E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção". Somos admoestados a não entristecer o Espírito Santo, mostrando, portanto, que Ele possui as emoções de uma pessoa. Ele sofre quando pecamos e se entristece com as manifestações do nosso pecado.

2. O Espírito Santo tem ciúmes (Tg.4:4,5) - "Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo, constitui-se inimigo de Deus. Ou supondes que em vão afirma a Escritura: é com ciúme que por nós anseia o Espírito, que Ele fez habitar em nós?". Quando traímos a Deus através dos nossos pecados - contradições, negações da fé, amasiamentos com o mundo -, o Espírito de Deus sente ciúmes, como o marido, quando a mulher adultera e vice-versa. Ele sente ciúmes do adultério moral (impureza), espiritual (idolatria), econômico (amor ao dinheiro) e político (paixão e esperanças políticas mais acentuadas em relação ao programa humano que ao Reino de Deus). O Espírito Santo não é simplesmente alguém que entra em nós e depois sai, Ele vem e fica. Além disso, Ele não está presente para energizar-nos a vida. Não. Ele é uma Pessoa com a qual mantemos relações pessoais.

3. O Espírito Santo pensa (Rm.8:27) - “E aquele que examina os corações sabe qual é a intenção do Espírito; e é ele que segundo Deus intercede pelos santos”. Neste texto, as Escrituras dizem que o Espírito Santo examina os corações. Examinar é raciocinar, é calcular, é emitir juízos. Uma força jamais pode calcular, jamais pode examinar, só uma pessoa pode fazê-lo. Em 1Co.2:13 está escrito que o Espírito Santo compara, ou seja, faz juízos, julgamentos, o que é exclusivo de uma pessoa. Diz o texto: “As quais também falamos, não com palavras de sabedoria humana, mas com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais”.

4. O Espírito Santo tem sentimentos (Rm.15:30) - "Rogo-vos irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo e pelo amor do Espírito...". Neste texto, as Escrituras dizem que o Espírito Santo temamor, ou seja, ama, tem sentimentos. Uma força não pode amar, somente uma pessoa. Mas, em outro trecho, a Bíblia recomenda que o Espírito pode se entristecer (Is.63:10; Ef.4:30). Uma força, um "fluir" nunca pode ficar triste, somente uma pessoa. Mas o Espírito Santo não só Se entristece, também, a Palavra de Deus diz que Ele tem alegria, que Ele se alegra, tanto que faz com que as pessoas sintam a Sua alegria, a começar pelo próprio Senhor Jesus (Lc.10:21) e, depois, dos discípulos (1Ts.1:6). Mas as Escrituras também nos revelam que o Espírito Santo tem ciúmes, ou seja, tem zelo pelos servos do Senhor, outro sentimento impossível para uma mera força – “Ou cuidais vós que em vão diz a Escritura: O Espírito que em nós habita tem ciúmes?” (Tg.4:5).

5. O Espírito Santo determina (1Co.12:11) - ”Mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer”. Neste texto, é dito que o Espírito Santo reparte, como quer, os dons espirituais entre os crentes, ou seja, tem vontade, tem autodeterminação, algo que jamais uma força pode ter, mas tão somente uma pessoa. Em At.2:4, também é dito que os discípulos falavam línguas estranhas conforme a concessão que lhes dava o Espírito Santo, ou seja, quem determinava qual língua e quando deveria ser ela falada era o Espírito, algo que uma força jamais poderia realizar. Diferente não foi no chamado Concílio de Jerusalém, onde o Espírito Santo deu o Seu parecer a respeito da discussão a respeito da observância da lei de Moisés – “Na verdade, pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor mais encargo algum, senão estas coisas necessárias” (At.15:28).

6. O Espírito Santo convence (João 16:8) - ”E, quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, e da justiça e do juízo”. Jesus disse que o Espírito convenceria o mundo do pecado, da morte e do juízo. Uma força não pode convencer, quando muito pode deter ou obrigar uma determinada atitude. Só uma pessoa pode convencer alguém, pode argumentar e obter a anuência, a adesão da vontade de outrem. O convencimento é fruto de uma argumentação, ou seja, de uma operação intelectual, de uma série de raciocínios, de ponderações, de julgamentos. Somente uma pessoa é capaz de fazê-lo e, quando Jesus nos indica que o Espírito Santo o faz, está a dizer-nos que se trata de uma Pessoa.

7. O Espírito Santo glorifica (João16:14) - ”Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu, e vo-lo há de anunciar”. Jesus disse que o Espírito Santo O glorificaria. Ora, uma força não pode dar glória a ninguém, porque glorificar, dar glória, envolve consciência, capacidade de perceber que alguém é divino e que, por isso, merece honra e glória. Somente seres dotados de consciência podem fazer isso. Deste modo, não há como deixar de reconhecer que o Espírito Santo é uma Pessoa.

8. O Espírito Santo fala (Atos 8:29) - "Então disse o Espírito a Filipe: aproxima-te desse carro e acompanha-o...". Aqui, percebemos que o Espírito Santo é um Ser que fala. Ora, uma força não pode falar, mas uma Pessoa, sim. Tanto é certo que o Espírito Santo fala que, em At.13:2, isto é explicitamente mencionado, como também em 1Tm.4:1 e Hb.3:7, bem assim em todas as cartas que Jesus enviou às igrejas da Ásia Menor (Ap.2:7,11,17,29; 3:6,13,22), como num instante em que se fazia a revelação a João das coisas que brevemente hão de acontecer (Ap.14:13).

9. O Espírito Santo ouve (João 16:13) – “Mas, quando vier aquele Espírito da verdade, ele vos guiará em toda a verdade, porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará o que há de vir”. Aqui mostra que o Espírito Santo é um ser, é uma Pessoa, pois tem capacidade de ouvir e não é um simples ouvir, mas um ouvir que retém e que discerne o que se ouve para depois o anunciar.

10. O Espírito Santo ensina (João 14:26) – “Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito”. Só uma Pessoa pode nos ensinar, somente uma Pessoa pode ser Mestre e o Espírito Santo tem como uma de suas principais funções a de ensinar os discípulos do Senhor Jesus enquanto aqui estiverem aguardando o seu Salvador.

11. O Espírito Santo lembra (João 14:26) - “...e vos fará lembrar...”. Quando Jesus diz que o Espírito Santo nos faria lembrar de tudo quanto o Senhor Jesus nos tem dito, está a nos revelar uma face maravilhosa deste Professor e Mestre que é o Espírito Santo. O Espírito Santo não só é um Mestre (algo que uma força não pode ser), como também é um Mestre dedicado, um Professor comprometido com os Seus alunos. Um bom professor é aquele que está preocupado em verificar se os seus alunos aprenderam e, por isso, sempre os faz lembrar daquilo que os ensinou. É exatamente este o papel do Espírito Santo. Quando Ele nos faz lembrar, não é porque seja uma força cega, um “remédio para a memória”, mas, bem ao contrário, é um Professor dedicado, que mostra ser uma Pessoa não só porque ensina, mas também porque ama e quer o melhor para os Seus alunos, quer que Seus alunos efetivamente aprendam o que lhes foi ensinado.

12. O Espírito Santo intercede (Rm.8:26) - ”E da mesma maneira também o Espírito ajuda as nossas fraquezas; porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis”. Ao dizer que o Espírito Santo intercede, ajudando os crentes nas suas fraquezas, o texto sagrado mostra-nos que o Espírito Santo é uma Pessoa, pois só uma Pessoa pode orar.

Ante tantas evidências da Palavra de Deus, como não reconhecer que o Espírito Santo é uma Pessoa?

CONCLUSÃO

Diante do exposto, podemos dizer que o Espírito Santo não é simplesmente uma influência benéfica ou um poder impessoal; é uma Pessoa, assim como o Pai e o Filho o são. Ele é chamado Deus (At.5:3,4) e Senhor (2Co.3:18). Embora seja um com o Pai e com o Filho, o Espírito Santo é uma Pessoa distinta, que não se confunde com nenhuma das outras duas. Ressalte-se que não há hierarquia entre estas três Pessoas Divinas, porque o Pai, o Filho e o Espírito Santo são um só Deus que subsiste em três Pessoas distintas.

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FONTE:Luciano de Paula Lourenço

terça-feira, 18 de julho de 2017

4ª lição do 3º trimestre de 2017: O SENHOR E SALVADOR JESUS CRISTO



3º Trimestre/2017

Texto Base: João 1:1-14

"Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim" (João 14:6).

INTRODUÇÃO

Dando continuidade ao estudo da “Razão de nossa fé – assim cremos, assim vivemos”, trataremos nesta Aula a respeito da verdadeira identidade do Senhor e Salvador Jesus Cristo, o Filho Unigênito de Deus. Seu nascimento foi e é um marco na história da humanidade, pois dividiu a história em antes e depois de Cristo. Ele veio a este mundo, sendo gerado pelo Espírito Santo, para salvar a humanidade perdida. Ele abriu mão de toda a sua glória para vir ao mundo salvar todos os perdidos e revelar-se aos piedosos. O anjo Gabriel foi enviado à pequena cidade de Nazaré, na Galileia, para anunciar à jovem Maria que ela seria mãe do Salvador do mundo, e que Ele seria gerado pelo Espírito Santo (Lc.1:30,31;34,35). Ao ser concebido, Jesus se fez Verdadeiro Homem e Verdadeiro Deus. Cremos que Jesus é o Filho Unigênito de Deus, plenamente Deus e plenamente homem.

I. O FILHO UNIGÊNITO DE DEUS

1. O Filho de Deus. Sem ter deixado jamais de ser Deus, Jesus foi apresentado ao mundo, publicamente, como Filho de Deus. Veja o que Paulo diz: “Declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos - Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm.1:4). De fato, se Jesus tivesse feito milagres, mas não houvesse ressuscitado, ninguém poderia crer que fosse o divino Filho de Deus; seria como Buda, Maomé, Krishna, etc.

Ao se apresentar como o Filho, Jesus mostra que é amado do Pai (Mt.3:17;17:5; João 5:20; 10:17;15:9) e que o Pai ama o homem, tanto que enviou o Filho (João 3:16) e, por meio dEle, ama a todos quantos O recebem (João 8:42; 14:21,23; 16:27). Por ser Filho de Deus, Jesus nos mostra seu grande amor, ao dar a sua vida por nós (João 10:17; 13:1; Rm.5:8).

O Filho de Deus é eterno, é desde a eternidade. Ele já era chamado Filho mesmo antes da sua encarnação, como vemos em 1João 4:9: “Deus enviou seu Filho Unigênito ao mundo, para que por ele vivamos”. Diz também o escritor aos Hebreus: “Havendo Deus, antigamente, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos, nestes últimos dias, pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo” (Hb.1:1,2). Portanto, o ensino de que o Verbo tornou-se Filho a partir da sua encarnação não tem apoio entre os teólogos realmente bíblicos, piedosos e conservadores. Segundo o apóstolo João, o Filho foi gerado desde a eternidade – “E, agora, glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse; Pai [...] tu me hás amado antes da criação do mundo” (João 17:5,24). O Filho transcende a criação, conforme afirma Paulo em Cl.1:17 – “E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele”.

2. O significado do título “Filho de Deus”. A expressão “Filho de Deus” nem de longe indica que Jesus tenha sido criado por Deus, como defendem alguns ensinos inautênticos. Muito pelo contrário, a expressão se apresenta nas Escrituras como mais uma declaração de que Jesus é Deus, portador da mesma natureza do Pai.

As Escrituras mostram que Jesus é o Filho de Deus e que ser “Filho de Deus” é dizer que Jesus é Deus e, mais do que isto, que é uma das Pessoas divinas, pois vemos claramente que há uma distinção entre Pai e Filho. Embora ambos sejam um (João 10:30), as Escrituras esclarecem que se tratam de Pessoas distintas, visto que nos diz que o Pai ama o Filho (João 3:35), envia o Filho (João 5:23,37), tem uma vontade (João 5:30), não deixava o Filho sozinho (João 8:29), agrada-se do que faz o Filho (João 8:29), glorifica o Filho (João 8:54; 12:28), entre outras passagens. Há uma perfeita sintonia entre Pai e Filho, porque ambos são Deus, têm a mesma natureza (João 5:17-21,26; 8:18; 12:50; 14:9,10; 16:15), são o único e verdadeiro Deus.

Como Filho, Jesus é o Enviado, a Pessoa que se humanizou para que Deus se revelasse à humanidade, o Emanuel, o Deus conosco (Mt.1:23). O Filho, que estava no seio do Pai, teve a missão de fazer o Pai conhecido dos homens (João 1:18; 8:19,26,27,38; 10:32; 12:49; 14:7-10; 16:15). Isto nos mostra que Deus é um ser relacional, ou seja, um ser que quer se relacionar com o homem. Enquanto Verbo, Logos, Deus quer se comunicar com o homem. Quando aprendemos que Jesus é o Filho, entendemos que Deus é um ser que se relaciona, um ser único que, porém, é uma pluralidade de Pessoas que se relacionam, sendo esse relacionamento efetivado pelo Filho ao homem, a indicar que há um Pai e que tal relacionamento é um relacionamento de amor.

3. Todas as criaturas reconheceram que Jesus é o Filho de Deus. Diz-nos a lei de Moisés que o testemunho de dois ou três é verdadeiro (Dt.17:6; 19:15; Mt.18:16; 2Co.13:1; 1Tm.5:19; Hb.10:28). Pois bem, há muito mais que duas ou três testemunhas a mostrar, na Bíblia Sagrada, que Jesus é o Filho de Deus. Senão vejamos:

a) No anúncio da concepção de Jesus - ”Respondeu-lhe o anjo: Virá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso o que há de nascer será chamado santo, Filho de Deus”(Lc.1:35). Aqui Jesus é apresentado pelo anjo Gabriel como Filho de Deus.

b) O Testemunho do próprio Jesus - “Respondeu-lhes ele: Por que me procuráveis? Não sabíeis que eu devia estar na casa de meu Pai?”(Lc.2:49). Ainda adolescente, Jesus se apresentou aos seus “pais social-biológicos” como o Filho de Deus. Ao longo do seu ministério terreno, Jesus sempre se declarou Filho de Deus, tendo sido este, aliás, o motivo de toda a oposição que enfrentou (e até hoje enfrenta) por parte dos judeus (Mt.27:43; João 5:18; Lc.22:70; João 9:35-37; 10:36; 11:4; 19:7).

c) O próprio Pai. Para que o testemunho de Jesus não ficasse sem a devida confirmação (João 8:16,18), o Pai declarou, também, mais de uma vez, que Jesus é o Filho de Deus:

Ø No momento do Batismo - “Batizado que foi Jesus, saiu logo da água; e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito Santo de Deus descendo como uma pomba e vindo sobre ele; e eis que uma voz dos céus dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”(Mt.3:17).

Ø No momento da transfiguração - “Estando ele ainda a falar, eis que uma nuvem luminosa os cobriu; e dela saiu uma voz que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi”(Mt.17:5).

Ø Em algum momento em que explicava por que veio morrer - “Pai, glorifica o teu nome. Veio, então, do céu esta voz: Já o tenho glorificado, e outra vez o glorificarei”(João 12:28).

d) Pessoas que conviveram com o Senhor Jesus. Muitos, ao longo de seu ministério, O declaram ser Ele o Filho de Deus: “Então os que estavam no barco adoraram-no, dizendo: Verdadeiramente tu és Filho de Deus”(Mt.14:33); ”Respondeu-lhe Simão Pedro: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”(Mt.16:16); ”Respondeu-lhe Natanael: Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és rei de Israel”(João 1:49); “Respondeu-lhe Marta: Sim, Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo”(João 11:27).

e) O Espírito Santo. Vemos, em primeiro lugar, que João Batista, cheio que era do Espírito, testificou que Jesus é o Filho de Deus (João 1:32-34). Posteriormente, observamos que os apóstolos, possuidores e revestidos do Espírito Santo (João 14:17; 20:22; At.2:4), ousadamente pregavam que Jesus é o Filho de Deus (At.9:20; 2Co.1:19; 1Jo.4:15), o que não é surpreendente, visto que o trabalho do Espírito de Deus é, precisamente, lembrar aquilo que o Senhor Jesus disse e ensinou (João 14:26; 15:26).

f) O próprio Diabo. Ainda que querendo lançar Jesus na dúvida, o diabo admitiu que Jesus é o Filho de Deus – “Chegando, então, o tentador, disse-lhe: Se tu és Filho de Deus manda que estas pedras se tornem em pães”(Mt.4:3,6; Lc.4:3,9)

g) Os anjos do diabo: “E eis que gritaram, dizendo: Que temos nós contigo, Filho de Deus? Vieste aqui atormentar-nos antes do tempo?”(Mt.8:29); “E os espíritos imundos, quando o viam, prostravam-se diante dele e clamavam, dizendo: Tu és o Filho de Deus”(Mc.3:11); “Também de muitos saíam demônios, gritando e dizendo: Tu és o Filho de Deus. Ele, porém, os repreendia, e não os deixava falar; pois sabiam que ele era o Cristo”(Lc.4:41).

h) A própria natureza. Quando Jesus foi crucificado a própria natureza declarou a todos os presentes que Jesus Cristo é o Filho de Deus, o que fez com que o centurião romano O reconhecesse assim, ante tamanha alteração da natureza – “ora, o centurião e os que com ele guardavam Jesus, vendo o terremoto e as coisas que aconteciam, tiveram grande temor, e disseram: Verdadeiramente este era Filho de Deus”(Mt.27:45,51,54). Pode-se ver, também, essa declaração do centurião em Mc.15:38,39 e Lc.23:44-47.

Ante tantas testemunhas e tantos testemunhos, como podemos rejeitar esta verdade bíblica? Eis o motivo pelo qual todos quantos a rejeitarem, ante a extrema dureza de seus corações, acabarão por sofrerem a morte eterna, já que não receberam o Filho e, por não terem o Filho, não têm a vida (1João 5:12). Quem crê no Filho de Deus, em si mesmo, tem o testemunho e quem a Deus não crê mentiroso O fez, porquanto não creu no testemunho que Deus de seu Filho deu (1João 5:10). Portanto, não haverá como alegar ignorância naquele Dia, que para quem não tem a vida, será fatídico e trágico (Ap.20:14,15). Que creiamos que Jesus é o Filho de Deus e tenhamos, assim, a vida eterna (1João 5:20).

4. Significado de "Unigênito" (João 1:14b) – “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade”. 

O termo “Unigênito” aparece cinco vezes nos escritos joaninos, a saber: “Unigênito do Pai” (João 1:14) ou “Filho Unigênito”(João 1:18; 3:16; 1João 4:9) ou, ainda, “Unigênito Filho de Deus” (João 3:18). São todas expressões cunhadas pelo apóstolo João para se referir ao Senhor Jesus.

“Unigênito” quer dizer “único” e, neste sentido, vemos que Jesus é Único, o Filho Único: Aquele que é Filho por natureza, porque é Deus, que é tão eterno quanto o Pai, que é igual ao Pai, que é Um por natureza com o Pai; Aquele que é antes de todas as coisas (Cl.1:17); Aquele que estava com Deus e é Deus (João 1:1). Não é por outro motivo que o próprio Jesus, já ressurreto, se distingue dos demais “filhos de Deus”, ao falar em “Meu Pai e vosso Pai, Meu Deus e vosso Deus” (João 20:17).

Quando se vê que Jesus é o “Filho Unigênito”, cai por terra toda e qualquer argumentação de que seja Ele uma “primeira criatura”, “o mais excelente ou o maior de todos os homens”. Ele é único e, deste modo, não há ninguém igual a Ele. Não pode, pois, ser confundido com os anjos, pois eles são muitos, milhares de milhares, milhões de milhões (Sl.68:17; Hb.12:22; Ap.5:11), nem tampouco ser confundido com os seres humanos, embora se tenha feito carne (Lc.12:1; Jd.14). Assim, não se pode dizer que Jesus seja algum dos anjos (como Miguel, Gabriel ou qualquer outro), nem que seja tão somente um ser humano como qualquer outro.

Mas, é interessante observar que o fato de ser “Unigênito” não significa que se é exclusivo. O texto de Hb.11:17 esclarece isso, onde é dito que Isaque era “unigênito”, quando sabemos, pela Bíblia, que ele tinha vários irmãos por parte de Pai, como Ismael de Agar (Gn.16:15) e vários com a segunda mulher de Abrão chamada Cetura (Gn.25:2,5). Apesar de tantos irmãos, Isaque não deixou de ser chamado de “único filho” (Gn.22:2), uma vez que só ele era o “herdeiro da promessa” (Gn.17:15-21; Rm.9:8; Gl.4:22). Assim, também, embora haja outros filhos de Deus, Jesus é chamado de “Unigênito”, de “Único”, pois só Ele é o “herdeiro da promessa”, a promessa feita no Éden para a humanidade, a “semente da mulher” (Gn.3:15) ou, como preferiu traduzir a Versão Almeida Revista e Atualizada e a Nova Versão Internacional, o “descendente da mulher” bem como a “posteridade de Abraão” (Gl.3:16). Neste passo, vemos quão maravilhoso é o amor de Deus para conosco (1João 3:1). Enquanto Isaque era o “unigênito” e, deste modo, Ismael e os filhos de Cetura não herdaram a promessa, Jesus, embora se mantenha Unigênito, fez-nos herdeiros da promessa (Rm.9:8; Gl.4:28,31). Por isso, somos herdeiros de Deus e coerdeiros de Cristo (Rm.8:16,17).

Jesus é Unigênito porque é o Filho de Deus (Mt.8:29; 27:35; Lc.1:35; 22:70; João 1:34; 2Co.1:19; Gl.2:20; Hb.4:14; 1João 4:15; Ap.2:18), enquanto que os que nEle creem foram feitos filhos de Deus (João 1:12; Gl.3:26), foram chamados para ser filhos de Deus (Mt.5:9; 1João 3:1), filhos de Deus que ainda não assumiram, em toda a sua plenitude, tal condição (Rm.8:19,21; 1João 3:2). Assim, só Jesus é Filho de Deus desde sempre; é o Único, o Unigênito.

II. A DEIDADE DO FILHO DE DEUS

No Evangelho segundo escreveu Lucas, Jesus aparece como o “Filho de Deus” (Lc.1:35) e “Filho do Homem” (Lc.5:24). Estas são expressões messiânicas que revelam a deidade de Jesus. A primeira expressão mostra Jesus como verdadeiro Deus, enquanto a segunda expressão mostra-o como verdadeiro homem. Ele é o Filho do Homem, o Homem Perfeito. Ao usar o título “Filho do Homem” para si mesmo, Jesus evita ser confundido com o Messias político esperado pelos judeus. Ele era consciente de Sua natureza divina (cf. Lc.2:48,49).

1. O Verbo de Deus (João 1:1) – “No princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. João inicia seu evangelho com esta solene verdade. Diz mais: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (João 1:14). João deixa claro que o Filho de Deus, que se encontrava no seio do Pai, foi concebido pelo Espírito Santo para habitar entre nós (Sl.2:7; Is.7:14; João 1:18;3:16).

Por que João denomina-o “Verbo de Deus”? Sendo Cristo o executivo do Pai, todas as coisas vieram à existência por intermédio dEle; sem Ele, nada do que é existiria. A expressão “no princípio” transporta-nos a Gêneses 1:1. Na criação, Jesus já atuava: “Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (João 1:3).

O evangelista João aponta o “Verbo”, como alguém que já existia desde a eternidade; não foi criado, mas gerado. Jesus “é imagem do Deus invisível o primogênito de toda a criação” (Cl.1:15). Notai que ele diz Ele é; não eraou será, nem muito menos que Ele tornou-se aimagem de Deus; é o presente eterno - "Jesus Cristo, o mesmo ontem, hoje e eternamente" (Hb.13:8). Jesus assumiu sua humanidade para revelar-nos Deus e sermos conduzidos ao Pai.

- “O Verbo estava com Deus”. Isto declara que Ele, o Verbo, desde o início era Deus, indicando a deidade de Jesus. Essa deidade é descrita “porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse” (Cl.1:19). Era do desejo do Pai que Jesus tivesse toda a plenitude da divindade; Ele não é um deus menor. Jesus é a expressão da vontade divina; é o agente na Criação: “Todas as coisas foram feitas por ele, e sem Ele nada do que foi feito se fez” (João 1:3); “Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele” (Cl.1:16). Todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades; tudo foi criado por ele e para ele. Isto quer dizer que nada do que se fez, se fez sem Jesus Cristo. Ele tem o controle sobre tudo e até mesmo Satanás que antes era Lúcifer, o querubim ungido para adoração de Deus, também foi criado por Deus, através de sua Palavra viva que é Jesus.

- “E o Verbo era Deus". Isto aponta para o Filho de Deus. Segundo o pr. Esequias Soares, não se trata de acréscimo de mais um Deus aqui, posto que ao apóstolo foi revelado, pelo Espírito Santo, que o Verbo divino está incluído na essência una e indivisível da Deidade, embora seja Ele distinto do Pai (João 8:17,18; 2João 3). Da mesma forma, o apóstolo Paulo transmitiu essa verdade, ao dizer que "para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele" (1Co.8:6). Trata-se do monoteísmo cristão.

2. Reações à divindade de Jesus – “porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl.2:9). A Igreja do primeiro século não hesitou em declarar, com ousadia e abertamente, a deidade absoluta de Jesus (cf. João 20:28; Rm.9:5; Cl.2:9; Tt.2:13; 1João 5:20), porém, os judeus, de forma explicita, a rejeitava, conforme vemos em João 5:18; 8:58,59; 10:30-33.

Não há como negar a divindade de Jesus. Ela está exposta em toda a Bíblia, que afirma textualmente e com todas as letras que Jesus é o verdadeiro Deus, o mesmo Deus Javé de Israel. Senão vejamos:

O Filho é chamado "Deus Forte" (Is.9:6); Javé, "Justiça Nossa" ou "O SENHOR. Justiça Nossa” (Jr.23:6); "e o Verbo era Deus" (João 1:1); "Tomé respondeu, e disse-lhe: Senhor meu, e Deus meu!" (João 20:28); "e dos quais é Cristo, segundo a carne, o qual é sobre todos. Deus bendito eternamente Amém" (Rm.9:5); "Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser Igual a Deus" (Fp.2:6); "enriquecidos da plenitude da inteligência, para conhecimento do mistério de Deus Cristo” (Cl.2:2); "Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade" (Cl.2:9); "Aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Senhor Jesus Cristo” (Tt.2:13); "Mas, do Filho diz: Ó Deus, o teu trono subsiste pelos séculos dos séculos, cetro de equidade é o cetro de teu reino" (Hb.1:8); “Simão Pedro, servo e apostolo de Jesus Cristo, aos que conosco alcançaram fé igualmente preciosa pela justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo" (2Pd.1:1); "E sabemos que já o Filho de Deus é vindo, e nos deu entendimento para conhecermos o que é verdadeiro; e no que é verdadeiro estamos, isto é, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna" (1João 5:20); "Eis que vem com as nuvens, e todo o olho o verá, até os mesmos que traspassaram; e todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. Sim. Amém. Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, diz o Senhor, que é, e que era, e que há de vir, o Todo-Poderoso (Ap.1:7,8).

Assim como os apóstolos, cremos na deidade do Filho de Deus, Jesus Cristo, o Senhor.

3. O relacionamento entre o Pai e o Filho. Jesus destaca, de forma profunda, sua relação com o Pai, deixando claro, aos olhos dos incrédulos judeus, sua inegável divindade. Ele é o Filho de Deus, e isso pode ser provado pela sua natureza, em João 10:30, que diz: ”Eu e o Pai somos um”. Ao afirmar isso, Jesus não quis dizer que Ele e o Pai são a mesma Pessoa, mas que são da mesma essência. Jesus é o Verbo eterno, pessoal e divino que se fez carne. Jesus é luz de luz, Deus de Deus, coigual, coeterno e consubstancial com o Pai. William Hendriksen está correto ao afirmar: “Essas duas Pessoas nunca se tornaram uma Pessoa. Daí Jesus não dizer: “Nós somos uma Pessoa”, porém diz: “Nós somos uma substância”. Embora duas Pessoas, as duas são uma substancia ou essência”.

Observe a expressão de 2Timóteo 4:1: “Conjuro-te, pois, diante de Deus e do Senhor Jesus Cristo, que há de julgar os vivos e os mortos, na sua vinda e no seu Reino”. A construção bipartida - “Deus”; “Senhor Jesus Cristo” - identifica a mesma deidade no Pai e no Filho. O Pai e o Filho aparecem no mesmo nível de divindade. Mostra que o Pai e o Filho são o mesmo Deus, possuindo a mesma substância, mas são diferentes na forma e na função, não em poder e majestade.

Os primeiros cristãos compreendiam facilmente a divindade de Jesus em declarações como as de Paulo no início de suas Epístolas, tais como esta: “Graça e paz de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo" (Rm.1:7); também como esta de Pedro: “Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo, aos que conosco alcançaram fé igualmente preciosa pela justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo” (2Pd.1:1).

Não há como ver o Pai sem que veja ao Filho, pois Ele é a expressa imagem da pessoa do Pai (Hb.1:3), é a extensão do ser divino que, por ser o Verbo, põe-nos em contato com Deus. Ninguém pode ter acesso a Deus a não ser por Cristo, pois Ele é o Verbo, o canal de comunicação entre Deus e os homens, o acesso do ser humano à Trindade. O mundo foi feito pelo Verbo e pelo Verbo se mantém, de maneira que não há como conceber que se tenha acesso, em sendo criatura, ao Criador a não ser por este meio pelo qual a criação se fez, pela Palavra, pelo Verbo Divino.

III. A HUMANIDADE DO FILHO DE DEUS

1. "E o Verbo se fez carne" (João 1:14a). O prólogo do Evangelho de João começa com a divindade de Jesus e conclui com a sua humanidade. O Senhor Jesus Cristo é o verdadeiro Deus e o verdadeiro homem. Quando o Verbo se fez carne, as duas naturezas - divina e humana - se uniram inconfundivelmente, imutável, indivisível e inseparavelmente. Vemos, portanto, a presença de Deus entre os seres humanos. O Verbo eterno, pessoal, divino, autoexistente e criador esvaziou-se de sua glória, desceu até nós e vestiu pele humana. A carne de Jesus Cristo tornou-se a nova localização da presença de Deus na terra. Jesus substituiu o antigo tabernáculo. Fez-se um de nós, em tudo semelhante a nós, exceto no pecado (cf. Hb.4:15). Isto é o grande mistério da encarnação (1Tm.3:16). O Verbo, portanto, se fez carne, mas permaneceu sendo o Verbo de Deus (João 1:1,18). A segunda Pessoa da Trindade assume a natureza humana sem deixar de lado a natureza divina. Nele as duas naturezas, divina e humana, estão presentes.

2. Características humanas. Há indicações claras na Bíblia que Jesus era uma Pessoa plenamente humana, sujeito a todas as limitações comuns à raça humana, mas sem pecado. Ele nasceu como todo ser humano nasce. Embora sua concepção tenha sido diferente, uma vez que não houve a participação de um pai biológico, todos os outros estágios de crescimento foram idênticos ao de qualquer ser humano normal, tanto física como intelectual e emocional. Também no sentido psicológico era genuinamente humano, pois pensava, raciocinava, se emocionava, como todo ser humano normal. Há abundantes e incontestáveis provas de sua humanidade, ou seja, de que Ele nasceu, cresceu e viveu entre nós. Cito algumas:

Ø Seu nascimento (Lc.2:6,7). Jesus nasceu de uma mulher humana, passando por todas as fases que uma criança normal passa. Seu nascimento é contado com detalhes nos dois primeiros capítulos de Mateus e de Lucas.

Ø Seu crescimento (Lc.2:52). Cresceu como toda criança normal cresce, sendo alimentada por comida e água. Seu corpo não era sobre-humano e não tinha características especiais, diferentes de qualquer ser humano normal.

Ø Suas limitações físicas. Foram idênticas as de um ser humano:

  • Sentia fome (Mt.4:2; Mc.11:12).
  • Sentia sede (João 19:28).
  • Ficava cansado (João 4:6).
  • Sofria dor (João 18:22; 19:2,3).

Ø Era uma Pessoa real, não um espírito (1João 1:1; Mt.9:20-22; 26:12; João 20:25,27). Jesus de fato foi visto e tocado pelas pessoas à sua volta. Não era um espírito com a forma humana, nem um fantasma, mas um Homem real, a ponto de Tomé só acreditar em sua ressurreição após tocá-lo. O testemunho do Espírito de Deus afirma que Jesus tomou plenamente a forma humana (1João 4:2,3a).

Ø Sua morte (Lc.23:46; João 19:33,34). Sua morte não foi aparente, mas verdadeira – “Mas, vindo a Jesus e vendo-o já morto, não lhe quebraram as pernas” (João 19:33). Seu corpo sucumbiu aos sofrimentos infligidos e de fato expirou à semelhança de todos os homens. Esta é talvez a suprema identificação de Jesus com a humanidade, pois sendo Deus não deveria morrer, mas ao assumir plenamente a humanidade torna-se sujeito a possibilidade da morte. Eis uma verdade tremenda e profunda!

Portanto, Jesus Cristo não somente era pleno Deus, como pleno ser humano. Ele exibia um conjunto pleno tanto de qualidades divinas quanto de qualidades humanas, numa mesma Pessoa, de tal modo que essas qualidades não interferiram uma na outra.

3. Necessidade da encarnação do Verbo. A encarnação de Cristo é o maior evento da história humana, o dia em que o divino se uniu ao humano com o propósito de salvar o ser humano. Com o ato da encarnação Deus mostrou que os sistemas humanos estavam e estão falidos, filosofia ou religião não podem fazer nada pelo ser humano. Deus mostrou que todo tipo de obra ou ritual religioso que o homem cumpra é inoperante para salvá-lo, e só Ele poderia mudar a situação. Observe alguns porquês da encarnação de Cristo e entenda esta necessidade.

a) Porque o ser humano nasce morto em pecado. Todos nascem em pecado, e assim em débito com Deus (Rm.3:23; 5:12; Ef.2:1-3), merecendo com isso o castigo pelo pecado, a morte eterna, que é o pagamento desta dívida (Rm.6:23a).

b) Porque não se pode ser salvo cumprindo rituais religiosos. Os esforços pessoais do ser humano de nada valem. Paulo passou boa parte de sua vida ensinando que a salvação não poderia ser alcançada cumprindo-se regras religiosas como a Lei de Moisés, por exemplo (Gl.cap.3 e 4). Por ter uma natureza pecaminosa (carnal) o ser humano não atinge as exigências de Deus (Rm.7:12-24;8:7,8).

c)  Porque não se pode ser salvo praticando boas obras. Obras de pessoas pecadoras, mortas espiritualmente, são mortas também (Is.64:6). Só a graça de Deus proporciona a salvação (Ef.2:8-10), e esta graça veio com a encarnação de Cristo (João 1:17,18).

d) Porque há necessidade de justiça. A encarnação foi o meio de Deus proporcionar ao ser humano a justiça que ele não tinha. Paulo em Rm.3:21-26 explica que no tempo da graça (de Cristo) se manifestou a justiça de Deus. Esta justiça os profetas do Antigo Testamento já anunciavam, e agora ela havia chegado não para os que cumpriam a Lei, ou praticavam boas obras, mas para os que tinham fé em Jesus Cristo. Ele se encarnou para ser a propiciação pelos pecados. Pagou a pena de morte que o homem devia à Lei por não tê-la cumprido, mas ressuscitou porque era sem pecado. A justiça que Ele ganhou sendo justo não serve para Ele, porque Ele já é santo, mas é depositada (imputada) para todo aquele que tem fé nEle, que aceita o Seu sacrifício como substituto na cruz.

e) Porque Deus é amor. A encarnação de Cristo para morrer como inocente no lugar de criaturas pecadoras demonstra o grande amor de Deus. Este foi o motivo maior pelo qual Ele enviou Cristo ao mundo (João 3:16; Rm.8:39; 1Joao 4:19). Foi apenas por amor que Deus veio a terra, em Cristo se fez Emanuel (Deus conosco) (Mt.1:23). Na cruz foi concretizado esse amor.

Diante de tudo isso podemos afirmar e acreditar quão importante foi a encarnação do Verbo de Deus. A salvação só foi realizada porque Cristo veio em carne (Ef.2:15: Cl.1:22; 1Pd.3:18;4:1). O caminho à presença de Deus foi aberto pela Sua carne (Hb.10:22). Foi por se encarnar que Ele pôde ser o Mediador entre Deus e os homens (1Tm.2:5).

No início da Igreja, à época da João, muitos falsos mestres enganavam os cristãos verdadeiros que Jesus não veio em carne. Naqueles dias surgiram na grande cidade de Éfeso e em toda a região da Ásia, onde estavam instaladas as sete igrejas, muitos enganadores que, através de falas doutrinas, intentavam induzir os crentes ao erro fatal. Surgiram “anticristos” (1João 2:18), mentirosos (1João 2:22) e falsos profetas (1João 4:1). João escreveu acerca dos falsos mestres para advertir os cristãos novos na fé - “Estas coisas vos escrevo a respeito daqueles que vos querem enganar”(1João 2:26).

A situação da igreja inspirava cuidados. Notamos isso pelo que se lê nas cartas às sete igrejas da Ásia (Ap.cap.2 e 3). As heresias grassavam em muitas comunidades. O gnosticismo, sistema que mistura ideias filosóficas, crenças judaicas e cristãs, era uma das principais fontes de heresias da época. Assim, muitos cristãos se tornaram gnósticos. Criam em Jesus, mas negavam a realidade de sua encarnação e morte. Os hereges (os gnósticos) enganadores ensinavam que Jesus era apenas um homem, filho natural de José e Maria. Em outras palavras, eles não criam em Cristo como o Deus encarnado. Afirmavam que o mal residia na matéria; portanto, negavam que Deus pudesse se encarnar. Todavia, em relação a Cristo, João escreveu: "nós ouvimos, vimos, contemplamos, nossas mãos tocaram..." (1João 1:1-3). Ou seja, o apóstolo estava afirmando firmemente que o corpo de Cristo era matéria, pois poderia ser tocado, como de fato o foi. Não se tratava de um espírito, uma aparição, como os gnósticos afirmavam (1João 4:2; 5.6).

João foi contundente contra esses hereges, quando diz: “Amados, não creiais em todo espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo. Nisto conhecereis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que está já no mundo”(1João 4:1-3).

Portanto, não conhecer a encarnação de Cristo é negar as profecias do Antigo Testamento e a mensagem do seu cumprimento em o Novo Testamento (ver Is.7:14;9:6; João 1:1,14). “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (João 1:14).

CONCLUSÃO

Quando tomamos consciência de que Jesus é o Verbo Divino, vemos que não há outro meio para nos reconciliarmos com Deus; que não há outro caminho; que só em Cristo está a verdade; só nEle temos vida; que não há como ir ao Pai a não ser por Ele (Jo.14:6). Temos tido esta consciência?

Fonte: Luciano de Paula Lourenço