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segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

5ª lição do 1º trimestre d 2022: COMO LER AS ESCRITURAS SAGRADAS



 1º Trimestre/2022


Texto Base: Atos 8:26-30

 

“E, correndo Filipe, ouviu que lia o profeta Isaías e disse: Entendes tu o que lês?” (Atos 8:30).

Atos 8:

26.E o anjo do Senhor falou a Filipe, dizendo: Levanta-te e vai para a banda do Sul, ao caminho que desce de Jerusalém para Gaza, que está deserto.

27.E levantou-se e foi. E eis que um homem etíope, eunuco, mordomo-mor de Candace, rainha dos etíopes, o qual era superintendente de todos os seus tesouros e tinha ido a Jerusalém para adoração,

28.regressava e, assentado no seu carro, lia o profeta Isaías.

29.E disse o Espírito a Filipe: Chega-te e ajunta-te a esse carro.

30.E, correndo Filipe, ouviu que lia o profeta Isaías e disse: Entendes tu o que lês?

INTRODUÇÃO

Nesta Aula trataremos do tema: “Como ler as Escrituras Sagradas”. O objetivo é mostrar que a leitura e o estudo da Bíblia são fundamentais para conhecermos o Deus da Bíblia, e para crescermos espiritualmente. Há uma imperiosa necessidade de se ler a Palavra de Deus, foi por isso que Deus a mandou escrever. Deus tudo faz com propósito (Ec.3:1) e, portanto, Deus não mandaria seus servos escreverem a Palavra se isto não fosse necessário. Ora, algo que é escrito somente tem valor quando é lido, pois, se não for lido, será como se não existisse. Deste modo, o simples fato de termos a Bíblia Sagrada, de temos uma Escritura revelada por Deus é o suficiente para que entendamos que a leitura devocional da Palavra de Deus é imprescindível para o nosso relacionamento com o Senhor. Todos os cristãos, sejam leigos, sejam clérigos, têm o dever de estudar a Bíblia e buscar o seu conhecimento adequando de acordo com as normas de interpretação tecnicamente reconhecidas.

Um cristão só adquire a maturidade cristã através da leitura e estudo da Palavra de Deus. Como filhos de Deus não podemos afastar-nos jamais das Sagradas Escrituras, pois todos dependemos delas vitalmente. Quanto mais as estudarmos, mais íntimos seremos de seu Autor. A oração é necessária para que falemos com Deus, e o estudo das verdades sagradas fará com que Deus fale conosco, comunicando-nos sua vontade e sua Pessoa.

Precisamos ler e estudar a Bíblia, nos alimentar dela para crescermos fortes no Senhor. O que mais se vê nos dias de hoje são crentes que oram em línguas estranhas, profetizam na vida das pessoas, pregam com tanto entusiasmo que impressionam a muitos, mas quando as tempestades vêm, eles não resistem e caem por falta de alimento sólido, por não conhecerem as Escrituras e nem o poder de Deus que é revelado em sua própria Palavra.

I. A BÍBLIA PRECISA SER INTERPRETADA

1. A importância da exegese

Há uma diferença entre Exegese e Eisegese. Na Exegese o leitor extrai da Bíblia o sentido pretendido pelo autor; na Eisegese, o leitor injeta na Bíblia o sentido que ele considera ser o correto. O vocábulo “exegese” significa “exposição, explicação”. O sentido da exegese é extrair, conduzir para fora como um comentário crítico que analisa o texto no contexto original e o seu significado na atualidade; não é simplesmente uma exposição textual. Os princípios da exegese são conhecidos como hermenêutica - a ciência da interpretação. A interpretação correta, por conseguinte, vem de dentro da Bíblia. Ela mesma expõe aquilo que o Espírito Santo pretende dizer no seu contexto original. Dessa forma, para não fazer o texto significar aquilo que Deus não pretendeu, bem como para compreender o real significado das palavras inspiradas, é necessário um minucioso exame das Escrituras (2Tm.2:15), utilizando-se das línguas originais usadas, dos fatos históricos, da cultura e dos recursos usados no texto sagrado.

2. As limitações dos leitores

Alguns cristãos pensam que estudar a Bíblia é apenas tarefa de teólogos e pastores. Não apenas os pastores ou professores e alunos de teologia precisam estudar a Bíblia, Deus espera que todos nós nos utilizemos dos recursos necessários para o conhecimento de Sua Palavra. Todavia, assim como havia com o eunuco de Candace, há uma limitação enorme de inúmeros leitores da Bíblia em fazer uma interpretação correta da Bíblia – “E, correndo Filipe, ouviu que lia o profeta Isaías e disse: Entendes tu o que lês? E ele disse: Como poderei entender, se alguém me não ensinar? E rogou a Filipe que subisse e com ele se assentasse” (Atos 8:30-31). Se Filipe não tivesse resolvido o problema da limitação do eunuco, certamente, ele faria interpretação muito equivocada do texto que estava lendo, como ainda ocorre hoje com os judeus, que se equivocam ao interpretá-lo. Como bem disse o pr. Douglas Baptista, “toda vez que lemos a Bíblia, estamos interpretando, isto porque todos os leitores são também intérpretes, mas nem sempre o ‘entendimento’ daquilo que lemos reproduz a verdadeira ‘intenção do Espírito Santo’”. Em virtude de nossa inclinação ao erro (Rm.8:7), precisamos usar métodos propícios que nos auxiliem na interpretação das Escrituras Sagradas, com a indispensável ajuda do Espírito Santo.

Também, por causa da natureza humana pecaminosa, é comum as pessoas introduzirem sentidos particulares (eisegese) ao conteúdo bíblico ao invés de buscarem o sentido no texto (exegese). As pressuposições humanas, isto é, as visões interesseiras podem influenciar na interpretação do texto. Por isso, não poucas vezes, existem aqueles que se aproximam da Bíblia apenas para comprovar o que já defendem, sem deixar que Deus fale, pelo Seu Espírito, através do texto. Oremos e peçamos ao Senhor que, conforme Ele fez com os discípulos no caminho de Emaús, possamos compreender, interpretar e aplicar a verdade bíblica de acordo com Sua revelação (Lc.24:44-45).

3. A natureza das Escrituras

A natureza das Escrituras Sagradas compreende dois princípios importantes: o divino e o humano.

-A natureza divina da Bíblia. Do lado divino, Deus é o seu autor; logo, ela é inspirada, inerrante e infalível. No seu todo ou em qualquer parte a Bíblia é o conjunto dos documentos de Deus para o homem. Todos esses documentos são testemunhos da vontade de Deus revelada ao longo da história do povo hebreu e do povo cristão. Com efeito, porém, apesar da diversificação de assuntos, as Escrituras são proféticas e se combinam entre si em cada detalhe. Algumas vezes, há diferença no método de apresentação; contudo, o conteúdo plenário é cronológico: cada acontecimento encontra-se perfeitamente em seu lugar. Tudo está onde devia estar. Nada está fora do lugar. De Gênesis ao Apocalipse, há uma só unidade e harmonia de entrelaçamento em cada detalhe das Escrituras. Jamais mentes puramente humanas, sem serem tocadas pelo Espírito de Deus, conseguiriam, partindo de pontos diferentes no tempo e no espaço, convergir para um mesmo lugar e chegar numa mesma conclusão. É realmente o que afirma Pedro em sua segunda Epístola, quando diz: “Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo” (2Pd.1:20,21).

-A natureza humana da Bíblia. Foram cerca de 40 autores da Bíblia, durante um período de 1.500 anos, durante mais de 40 gerações. Os seus autores estavam envolvidos nas mais diferentes atividades - reis, camponeses, filósofos, pescadores, poetas, estadistas, agricultores, boiadeiros, médicos, estudiosos etc. Apesar de tudo e de todos, não houve, nenhuma sequer, contradição nas Escrituras. Tudo se harmoniza de acordo com o pensamento geral e a tese principal. Apesar da diversidade de épocas, autores, gêneros literários e tópicos tratados, há uma surpreendente unidade em seu conteúdo, cujo tema principal é Jesus Cristo, o Filho de Deus que veio a este mundo para salvar os pecadores (1Tm.1:15). Ele aparece através de figuras, profecias por todo o Antigo Testamento. Aonde quer que abramos a Bíblia, ali Ele está; seja no texto presente ou no imediato e, como realidade histórica, no Novo Testamento, consolidando todas as predições que falavam a Seu respeito no Antigo Testamento.

Tendo em vista que as Escrituras Sagradas possuem particularidades que não podem ser ignoradas, como, por exemplo, as narrativas, as poesias, as crônicas, as profecias e as parábolas, é preciso que elas sejam interpretadas, sob a orientação do Espirito Santo, observando as regras gramaticais e o contexto histórico e literário de quando foram escritos.

II. PRESSUPOSTOS PENTECOSTAIS PARA LER A BÍBLIA

1. Autoridade da Bíblia

Para nós adeptos do movimento pentecostal clássico, a Bíblia Sagrada é a Palavra de Deus; ela é o produto final da causalidade divina e da agência profética. Portanto, a Bíblia é o Livro imbuído de autoridade divina. Deus moveu os profetas de tal modo que seus escritos fossem por ele expirados. Em outras palavras, Deus falou pelos profetas e está falando em seus escritos. Haja vista a sua origem divina, ao ler a Bíblia temos como pressuposto sua inerrância, infalibilidade e confiabilidade, e tudo o que está narrado em suas páginas sagradas é útil para o nosso ensino, edificação e maturidade espiritual, conforme afirma o apóstolo Paulo – “Porque tudo que dantes foi escrito para nosso ensino foi escrito...” (Rm.15:4). Portanto, a Bíblia sagrada é nossa autoridade final em questões de fé e prática; acatamos suas doutrinas, que desde o princípio da Igreja são praticadas, dentre elas o Batismo no Espírito Santo e o exercício dos dons espirituais. Como afirma o apóstolo Paulo, “toda Escritura divinamente inspirada é proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça” (2Tm.3:16).

2. A iluminação do Espírito Santo

Para compreensão das Escrituras Sagradas é imprescindível a iluminação do Espírito Santo. Iluminação é a atuação do Espírito na vida da pessoa, que o capacita a discernir as verdades da Palavra de Deus. O ser humano toma conhecimento da salvação por meio das Escrituras, mas somente o estudo racional não é suficiente para o entendimento da revelação escrita de Deus, é imprescindível que haja a iluminação do coração e da mente pelo Espírito Santo. Sem a atuação do Espírito Santo na vida dos apóstolos, certamente, não teríamos as Escrituras do Novo Testamento. Por isso, Jesus prometeu enviá-lo – “o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito” (João 14:26).

O apóstolo Paulo argumenta que “o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo; nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele; nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor e glória da sua graça; temos a redenção pelo sangue de Jesus, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça (Ef.1:3-7); enfim, temos o Céu, temos a vida eterna, a felicidade plena (João 14:2,3; Fp.3:20). Mas para o crente compreender toda esta riqueza espiritual, um estudo racional não é suficiente; todas estas bênçãos só são perceptíveis na vida do crente quando ele está sob o sobrenatural de Deus, quando ele tem a iluminação do Espírito Santo para enxergar com os olhos da fé todas estas maravilhas de Deus. Portanto, é preciso iluminação espiritual, advinda do Espírito Santo da graça, para que enxerguemos esta realidade. Devemos, pois, pedir a Deus que abra o nosso entendimento a fim de que saibamos que somos o povo mais abençoado e o mais feliz da terra, pois temos uma gloriosa e viva esperança que não deve ser abalada pelas circunstâncias adversas.

À medida que lemos e estudamos a Bíblia, o Espírito nos concede a compreensão dos ensinos sagrados. Mas é bom conscientizarmos de que a iluminação não aumenta e nem altera o conteúdo sagrado; apenas elucida o que já foi revelado pelo Espírito Santo. Não há nova verdade a ser acrescentada sobre o texto bíblico; há, sim, nova iluminação, ou seja, são-nos mostrados novos aspectos da verdade que são relevantes para a nossa situação atual. A verdade é apenas uma, as aplicações dessa verdade é que são diversas. Somos incumbidos de entender a verdade e, sob a unção do Espírito de Cristo, aplicá-la. Não fomos chamados para descobrir novas verdades, mas para ensinar as velhas e maravilhosas verdades de forma nova, pois elas são atemporais e sempre necessárias em nossa geração.

3. O valor da experiência

A chave para que tenhamos experiências com Deus é a qualidade do relacionamento que mantemos com Ele. Deus quer manifestar-se de maneira pessoal a cada um de nós. Ele deseja que nós tenhamos uma experiência própria e pessoal com Ele. O Deus do universo, de toda a terra e da Igreja, almeja ser o nosso Deus também, o nosso Pastor e Rei. Para isto, precisamos conhecê-lo, ter um relacionamento e experiências pessoais com Ele.

No movimento pentecostal várias experiências espirituais são manifestadas como, por exemplo, o batismo no Espírito Santo e o exercício dos dons espirituais. Através de uma pesquisa analítico-bibliográfica, constata-se que essas experiências têm como propósitos a divulgação do Evangelho, assumido como missão da Igreja, bem como a realização de milagres, tais como aconteciam no princípio da Igreja.

Alguns segmentos evangélicos interpretam mal o valor dessas experiências. Com frequência, os pentecostais são injustamente acusados de colocar a experiência acima da autoridade da Palavra de Deus. Porém, como bem diz o pr. Douglas, um dos princípios hermenêuticos ensina o crente a “interpretar a experiência pessoal à luz das Escrituras, e não a Escritura à luz da experiência pessoal”. Significa que, por mais importante que seja a experiência pessoal, ela não é a autoridade final da nossa fé. As experiências precisam do aval das Escrituras para ser validadas. Toda e qualquer experiência que contraria os preceitos bíblicos deve ser desconsiderada. Paulo asseverou que, se um anjo do céu vos anunciar outro evangelho, tal experiência deve ser rejeitada (Gl.1:8).

O apóstolo Paulo afirma que “toda Escritura divinamente inspirada é proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça, para que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente instruído para toda boa obra” (2Tm.3:16,17). Aqui, o apóstolo mostra que “toda Escritura” é útil para o nosso ensino; isto demonstra que a Bíblia deve ser aplicada ao nosso viver diário. Explicando melhor:

ü  A Palavra de Deus é “útil para repreensão”. Quando a lemos, ela nos fala claramente de coisas em nossa vida que desagradam a Deus. Ela também é proveitosa par refutar erros e responder ao tentador.

ü  A Palavra também é “útil para a correção”. Ela não apenas destaca o errado, mas apresenta como pode ser corrigido. Por exemplo, o texto bíblico não afirma apenas: “aquele que furtava não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom para que tenha com que acudir ao necessitado” (Ef.4:28). A primeira parte do versículo é para repreender, e a segunda, para corrigir.

ü  Enfim, a Bíblia é útil “para instruir em justiça”. A graça de Deus nos ensina a viver uma vida piedosa, mas a Palavra de Deus descreve em detalhes o que constitui uma vida piedosa. Por meio da Palavra, “o homem de Deus” pode ser “perfeito” ou experiente. Ele é plenamente preparado ou equipado com tudo o que precisa para produzir toda boa obra (2Tm3:17), que é o objetivo de sua salvação (Ef.2:8-10).

Portanto, a Bíblia sagrada é a autoridade máxima da Igreja no aspecto doutrinário e para a devida disciplina. Somente ela é que pode autenticar, e até mesmo corrigir, a experiência ou a prática da Igreja, caso seja necessário (2Tm.2:42). Logo, nem a experiência nem a tradição da Igreja podem estar acima da autoridade da Palavra de Deus.

III. REGRAS BÁSICAS DE INTERPRETAÇÃO

1. A Escritura é sua própria intérprete

Dentre as seis regras de interpretação da Bíblia, estudadas na hermenêutica, a primeira é: a Bíblia interpreta a própria Bíblia; ou seja, a Bíblia explica a si mesma. Sempre que encontramos um determinado pensamento ou conceito num determinado texto bíblico, devemos confrontá-lo com a própria Bíblia, a fim de que não sejamos induzidos a erro. É por isso que um texto isolado, solitário, jamais poderá oferecer base para uma doutrina bíblica como, por exemplo, o texto de Juízes 7:8 que fala dos trezentos homens de Gideão. Por que haveremos de passar por uma “corrente de trezentos pastores” para obter uma bênção? A simples leitura do texto em que se fala dos trezentos homens de Gedeão é suficiente para nos mostrar quais os ensinos bíblicos que se fazem a respeito e que nada têm que ver com “correntes” ou coisa parecida. Os triunfalistas sempre dão às suas pregações materialistas e megalomaníacas uma roupagem bíblica. Assim, não faltam imagens e narrativas bíblicas para ilustrarem as suas “campanhas” e os seus “movimentos”. Um dia é a “campanha da derrubada das muralhas de Jericó”; outro dia o “jejum de Moisés”; depois vem “os trezentos de Gedeão”, e não esqueçamos dos “trinta valentes de Davi”.

Uma noção ainda que superficial das regras da chamada “hermenêutica”, ou seja, da ciência da interpretação da Bíblia, é suficiente para desbaratar e desmontar todas estes besteiróis criados pelos triunfalistas, e que têm enganado a muitos. O problema é que a grande maioria dos crentes não lê a Bíblia e os poucos que a leem não têm a mesma prudência demonstrada no diálogo entre Filipe e o eunuco (At.8:26-40). Neste texto, verifica-se que, de um lado, o evangelista Filipe tinha a preocupação não só de anunciar a Palavra de Deus, mas de fazê-la entendida por quem a ouvisse, enquanto do outro lado, o eunuco também era um leitor atento, alguém que, além de querer ler, queria entender o que estava lendo e estava disposto a ouvir a explicação a respeito do que está escrito.

Meditar na Palavra de Deus, envolve, portanto, dois pontos: a leitura e o entendimento. Ora, a leitura só caminha até o entendimento se houver a explicação. Foi, por isso, que os apóstolos se dedicaram, com prioridade, ao ministério da Palavra (At.6:2,4), e que Jesus constituiu mestres para o aperfeiçoamento dos santos (Ef.4:11,12). Somente se cada crente for ensinado convenientemente na Palavra, de modo a ter uma vida devocional diária de meditação nas Escrituras, como também motivado a participar das reuniões de ensino da Igreja Local, é que poderemos escapar da armadilha do triunfalismo, como, de resto, de toda e qualquer falsa doutrina.

2. Princípios de interpretação bíblica

Do mesmo jeito que há quem defenda que o estudo da Bíblia é apenas para teólogos, há quem argumente que a Bíblia não carece de interpretação. Esse é um equívoco, pois, na verdade, todos nós interpretamos a Bíblia quando a lemos; ainda que seja uma leitura superficial, tenderemos a atribuir algum sentido ao texto. Um problema a esse respeito é que, em algumas ocasiões, não atentamos para o texto e nem para o contexto, mas apenas para versículos isolados, descontextualizados. Isso faz toda diferença no processo interpretativo e pode conduzir a falácias em relação ao texto bíblico.

Um dos grandes desafios da interpretação é cultural. A Bíblia foi escrita para pessoas de outro tempo. Quando, por exemplo, o apóstolo Paulo sentou-se para escrever a sua Carta aos efésios, ele não estava pensando nos cristãos brasileiros. Sua atenção estava voltada para pessoas do século 1, que viviam dentro da cultura greco-romana-judaica. O mesmo podemos dizer do autor do Apocalipse; quando João escreveu este Livro sagrado, utilizou uma linguagem simbólica que era comum principalmente aos cristãos judeus de seu tempo. Em sua época, eram comuns os escritos apocalípticos, que buscavam transmitir mensagens de reforço na fé em linguagem cheia de imagens e significados ocultos. Hoje, quando lemos a Epístola aos Efésios ou o Apocalipse, ficamos às vezes com dificuldades de compreender algumas expressões, mesmo utilizando dos métodos clássicos de interpretação. Daí podemos inferir que a primeira tarefa do intérprete bíblico é entender o que as Escrituras significaram para os seus primeiros destinatários. A partir desse ponto, é que podemos estabelecer qual a aplicação para hoje.

Serão válidos para hoje o ósculo santo, o véu no rosto para a oração (1Co.11:13, 16:20)? Para respondermos isso precisamos primeiro saber "o que significava o ósculo e o véu na sociedade daquele tempo". Somente a partir daí é que poderemos transpor essa barreira cultural, e fazer das Escrituras algo vivo para o homem do século vinte um. Para isso existem vários instrumentos disponíveis já em língua portuguesa: dicionários e manuais, comentários bíblicos, livros dedicados a reconstruir os tempos bíblicos e atlas que permitem-nos visualizar o arranjo político-geográfico dos tempos do Antigo e Novo Testamentos.

Ao interpretarmos um texto, fujamos da interpretação alegórica. O texto normalmente significa aquilo que está escrito mesmo. Em algumas ocasiões iremos nos defrontar com figuras de linguagem. Por exemplo, quando Jesus Cristo afirmou que é "a porta" (João 10:7), o bom senso nos diz que cabe aqui uma interpretação simbólica. Outro exemplo: “Tomai, comei, isto é o meu corpo” (Mt.26:26); este texto, proferido por Cristo, mostra que o “corpo” não está no sentido literal, mas no figurado.

Em outras situações, porém, devemos cuidar para não alegorizar aquilo que é literal. Certa feita um pregador afirmou o seguinte sobre o casamento de Isaque relatado em Genesis 24. O pregador disse que o servo de Abraão era um "tipo" do Espírito Santo, e que Rebeca é um símbolo da Igreja. Se formos utilizar tais artifícios em nossa interpretação, poderemos transformar o texto bíblico naquilo que quisermos. Devemos levar a Bíblia a sério. Os casos em que não estiver clara uma figura de linguagem, ou onde o estilo de literatura não for claramente figurativo, tais como nos Salmos e no Apocalipse, devemos sempre interpretar literalmente. O bom senso e a liderança do Espírito Santo nos garantirão bom resultado nessa empreitada. Portanto, para a interpretação do texto, devemos estar atentos à voz do Espírito Santo, e, em oração, buscar ouvir o que o Senhor tem a dizer e a obedecê-lo (Ap.2:11,17).

Outro princípio refere-se ao contexto, isto é, analisar os versículos que precedem e seguem o texto que se estuda. Quando desconsideramos o contexto, estamos sujeitos a errar a nossa interpretação. Um exemplo clássico é Ap.3:20: "Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e cearei com ele e ele comigo". Muitos mestres e pregadores usam essa passagem como uma espécie de apelo evangelístico. O convite do Senhor, no entanto, neste caso, não é dirigido aos pecadores para que eles se arrependam e creiam no evangelho. O convite de Cristo aqui dirige-se aos crentes orgulhosos; o versículo em questão faz parte da carta de Jesus à Igreja de Laodiceia (Ap.3:14).

A interpretação deve levar em conta toda a estrutura textual. Devemos levar em consideração o contexto imediato e o remoto. Chamamos de contexto imediato tudo aquilo que está próximo ao texto estudado (parágrafo e capítulo). Chamamos de contexto remoto tudo aquilo que está distante, mas ao mesmo tempo abrange o texto estudado (seção, divisões maiores da obra e o livro como um todo). Devemos sempre perguntar ao texto: qual o contexto próximo? O parágrafo está tratando de que tema? E o capítulo? E a seção? Aqui estabeleceremos uma relação entre os elementos textuais, e estaremos mais aptos a discernir o significado da passagem. Todo texto deve ser interpretado dentro do seu contexto. Como diz um ditado da interpretação bíblica, "texto tirado de contexto é pretexto". Muitos usam textos deslocados para provar as suas doutrinas preferidas. Não caiamos nesse ardil, pois a Bíblia precisa ser interpretada no seu todo, ou seja, nenhuma doutrina pode basear-se em um único texto ou em hipóteses particulares (2Pd.1:20).

É bom enfatizar que todo o trabalho de interpretação bíblica deve começar com a oração. O verdadeiro entendimento da Palavra advém, em primeiro lugar, desse contato íntimo e frequente entre o intérprete e o Deus que inspirou as Escrituras. É necessário que nos cubramos com a proteção de Deus e convidemos o Espírito Santo a ser o nosso Mestre. O Espírito Santo tem uma tarefa de ensinar-nos acerca de Cristo (João 16:13,14). Do mesmo modo, é Ele quem nos mostra as profundas revelações de Deus: "Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito, porque o Espírito a todas as cousas perscruta, até mesmo as profundezas de Deus... Ora, nós não temos recebido o espírito do mundo, e sim, o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente" (1Co.2:10, 12). Em outro lugar a Escritura afirma que nosso conhecimento advém do fato de possuir a unção do Espírito: "E vós possuís unção que vem do Santo, e todos tendes conhecimento" (1João 2:20).

3. Os perigos da hermenêutica pós-moderna

A hermenêutica pós-moderna é caracterizada pelo subjetivismo no processo de interpretação do texto bíblico. Ela nega que existe um sentido absoluto para a verdade bíblica, e, portanto, busca rever ou ressignificar a verdade revelada na Palavra de Deus. O maior perigo das correntes subjetivas é a falta de compromisso com critérios objetivos que orientem e deem consistência ao processo interpretativo. A interpretação pós-moderna, de modo geral, exagera a distância cultural entre o autor e o leitor, e dissocia de modo injustificável o autor do seu texto. A obra iluminadora do Espírito Santo, revelada nas próprias Escrituras, é desconsiderada. A dificuldade de interpretação se transforma em impossibilidade de interpretação.

Nenhum segmento evangélico está livre da influência da hermenêutica pós-moderna. Ela afeta não apenas a interpretação bíblica, também a prática eclesial; a vida cristã comunal e pessoal são áreas afetadas; a doutrina, a teologia, a pregação, o ensino, a música, o culto, a evangelização, a ética e a moral cristã, tudo é afetado. Portanto, concordo com o argumento do pr. Douglas, quando afirma:

Nossa ortodoxia refuta todo e qualquer método que nega a inspiração verbal e plenária da Bíblia e sua consequente autoridade (2Pd.1.21). Assim sendo, o intérprete não pode criar outro cânon dentro do cânon bíblico, ou seja, não cabe ao estudante fragmentar ou relativizar os textos inspirados. Não se pode empregar métodos subjetivos focados no leitor em prejuízo do texto e do autor bíblico. Ratificamos que as experiências devem ser submetidas ao crivo das Escrituras Sagradas (At.17:11). Por fim, reconhecemos que as técnicas hermenêuticas não são infalíveis. Durante o processo de aplicação dos métodos interpretativos necessitamos da iluminação do Espírito Santo (1Co.2:12).

Argumenta com sabedoria o Pr. Alair Germano:

No desejo de nos tornarmos aceitáveis pela erudição acadêmica universitária contemporânea, corremos o risco de nos tornarmos acríticos e seduzidos pelos aplausos da academia pós-modernizada. A busca por relevância entre os leitores e ouvintes contemporâneos, embora legítima, não pode comprometer a verdade. A ênfase exagerada nos aspectos subjetivos da interpretação bíblica (experiência, êxtase, intuição etc.), em detrimento dos aspectos objetivos histórico-gramaticais do texto, precisa ser considerada com muita prudência, inteligência e coerência. A sabedoria que vem do alto, a humildade, o temor reverente, a oração e a dependência do Espírito devem continuar fundamentando e norteando todo o nosso pensar e fazer hermenêutico (Hermenêutica Pós-Moderna: Uma Breve Introdução aos Novos Rumos e Riscos na Interpretação Bíblica Contemporânea).

CONCLUSÃO

Prezado irmão em Cristo, leia e estudo a Palavra de Deus; não seja um bebê o tempo todo. Não fique satisfeito com um simples correr de olhos pelas páginas da Bíblia. Examine-a, leia e releia as passagens para que se aproveite a verdade que se esconde nas páginas. Examine-a, faça perguntas e procure as respostas: o que isto significa para mim? Só tem isso? Procure entendimento pelas palavras diferentes que notar. Pese cada uma. Verifique outros versículos que têm a mesma palavra. Você pode atingir o significado. Forme o seu próprio pensamento sobre o assunto.

Estude a Bíblia como um viajante que deseja obter um conhecimento completo e experimental de outro país. Vá pelos vastos campos da verdade; desça a seus vales; suba suas montanhas de percepção; siga suas correntes de inspiração; visite suas maravilhosas galerias de obras de arte.

Estude a Palavra como um garimpeiro escava a terra em busca de ouro, ou como um mergulhador desce às profundezas do mar em busca de pérolas. A maioria das grandes verdades não está na superfície, e por isso só podem ser trazidas à luz mediante trabalho paciente. Trate de entender as coisas profundas de Deus.

Lembre-se: a Bíblia Sagrada é a nossa regra de fé e prática; é o mapa do viajor; é a espada do soldado e o mapa do cristão. Leia-a para ser sábio, creia nela para estar seguro e pra­tique o que nela está escrito, para ser santo. Ela contém luz para dirigi-lo, alimento para sustê-lo, e consolo para animá-lo.

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Luciano de Paula Lourenço – EBD/IEADTC

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

2ª lição do 1º trimestre de 2022: A INSPIRAÇÃO DIVINA DA BÍBLIA


 

Texto Base: 2Timóteo 3:14-17; 2Pedro 1:19-21


“Toda Escritura divinamente inspirada é proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça” (2Tm.3:16).

 

2Timóteo 3:

14.Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido.

15.E que, desde a tua meninice, sabes as sagradas letras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus.

16.Toda Escritura divinamente inspirada é proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça,

17.para que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente instruído para toda boa obra.

2Pedro 1:

19.E temos, mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia esclareça, e a estrela da alva apareça em vosso coração,

20.sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação;

21.porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo.

INTRODUÇÃO

Nesta Aula trataremos da Inspiração divina da Bíblia. A Bíblia foi dada por Deus através de inspiração e revelação, à medida que o Espírito Santo operou em homens escolhidos, revelando a eles a mensagem de Deus e capacitando-os a usar as palavras adequadas para comunicar a verdade divina sem erros. Disse Pedro: "Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo" (2Pd.1:21). Disse Paulo: “Toda Escritura divinamente inspirada é proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça”.

I. A DOUTRINA DA INSPIRAÇÃO BÍBLICA

1. A Inspiração da Bíblia é divina

O que diferencia a Bíblia de todos os demais livros do mundo é a sua inspiração divina (Jó 32:8; 2Tm.3:16; 2Pd.1:21). É devido à inspiração divina que ela é chamada Palavra de Deus. Em 2Tm.3:16 Paulo expressou: “Toda Escritura divinamente inspirada é proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça”. Este é um dos versículos mais importantes da Bíblia sobre a sua inspiração. Ele ensina que as Escrituras são o sopro de Deus. De modo miraculoso, Deus comunicou sua Palavra aos homens e os guiou para escrevê-las para a eternidade. O que eles escreveram é a própria Palavra de Deus, inspirada e infalível. Assim como é verdade que o estilo literário individual dos escritores não foi anulado, também é incontestável que as palavras usadas por eles foram concedidas pelo Espírito Santo.

Os escritores da Bíblia não deram as próprias interpretações pessoais, mas escreveram a mensagem que lhes foi dada por Deus (2Pd.1:20,21). Em 2Pd.1:21 está escrito que “homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo". Apesar de não compreendermos plenamente como se deu o processo, Deus dirigiu cada palavra que esses homens escreveram. Ao mesmo tempo, contudo, Deus não destruiu a individualidade ou o estilo dos escritores. Em tempos como os nossos, nos quais tantas pessoas negam a autoridade das Escrituras Sagradas, é importante termos convicção da inspiração verbal, plenária e inerrância da Bíblia.

Mas, o que vem a ser Inspiração Divina? Segundo o teólogo Antônio Gilberto, inspiração, “no sentido fisiológico, é a inspiração do ar para dentro dos pulmões. É pela inspiração do ar que temos fôlego para falar; daí o ditado: ’falar é folego’. Quando estamos falando, o ar é expelido dos pulmões: é o que chamamos de expiração. Pois bem, Deus, para falar a sua Palavra através dos escritores da Bíblia, inspirou neles o seu Espírito. Portanto, inspiração divina é a influência sobrenatural do Espírito Santo como um sopro, sobre os escritores da Bíblia, capacitando-os a receber e transmitir a mensagem divina sem mistura de erro. A própria Bíblia reivindica para si a inspiração de Deus, pois a expressão ‘assim diz o Senhor’, como carimbo de autenticidade divina, ocorre mais de 2.600 vezes nos seus 66 livros; isso, além de outras expressões equivalentes” (GILBERTO, Antônio. A Bíblia através dos séculos. CPAD).

Segundo Norman L. Gleisler, Deus é o iniciador por excelência da inspiração: ‘nenhuma profecia jamais foi produzida por um ato de vontade humana, mas homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo’ (2Pd.1:21). Em outras palavras, Deus moveu, e o profeta falou as verdades; Deus revelou, e o homem registrou sua Palavra. A Bíblia é a Palavra de Deus no sentido de que se origina com Ele e é autorizada por Ele, embora seja articulada pelo homem. Deus fala em seus registros escritos.

2. A Inspiração da Bíblia é verbal

A inspiração “Verbal” indica que as palavras redigidas por pelo menos quarenta escritores humanos foram inspiradas por Deus (cf.1Co.2:13). Mas como o Espírito Santo inspirou os escritores do texto sagrado? Esta é uma discussão que se faz, pois entendem alguns que o Espírito ditou as palavras aos escritores, assim como, por exemplo, Pedro teria feito, em relação a sua Carta, com relação a Silvano (1Pd.5:12) ou como Paulo, em relação a Tércio, no que toca à Epístola aos romanos (Rm.16:22). Este pensamento é conhecido como o da “inspiração verbal” e se baseia, entre outros textos, em Êx.34:27 e Dt.31:24. Deus não deu um esboço geral ou algumas ideias básicas e depois permitiu que os escritores as expressassem como lhes parecesse melhor. As próprias palavras que usaram foram dadas pelo Espírito Santo (1Pd.1:21).

Não resta dúvida de que muitos escritores da Bíblia reduziram a escrito mensagens que lhes foram dadas verbalmente por Deus, como é exemplo os Dez Mandamentos e boa parte daquilo que foi escrito por Moisés na Lei. No entanto, temos de entender que Deus opera além de quaisquer limites humanos ou que nossa compreensão possa atingir, de forma que temos de, neste ponto, fazer coro ao seguinte pensamento de R.N. Champlin, que reproduzimos:

“…a inspiração, normalmente, é verbal, visto que diz respeito à comunicação da verdade em linguagem humana. Isso não significa, entretanto, que consiste em mero ditado de palavras, mas significa que os diversos processos que jazem por detrás da questão, envolvendo aspectos como a individualidade dos escritores, o meio ambiente, o treinamento, a experiência deles, além de outros fatores, foi de tal modo manipulados por Deus que o resultado foi que as palavras registradas não são apenas do homem, mas são plenamente de Deus…” (CHAMPLIN, R.N. Escrituras. In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.2, p.475).

3. A Inspiração da Bíblia é plenária

A inspiração Plenária indica que a Bíblia toda foi igualmente inspirada por Deus, desde Gênesis até Apocalipse. Paulo afirma que “TODA” a Escritura é inspirada (2Tm.3:16). Quando Paulo fala de “toda a Escritura”, está definitivamente se referindo à integra do Antigo Testamento e partes do Novo Testamento já existentes naquela época. Em 1Timóteo 5:18, ele cita o evangelho de Lucas (10:7) como Escritura. Pedro fala das epístolas de Paulo como Escrituras (2Pd.3:16). Hoje somos autorizados a aplicar o versículo referindo-nos à Bíblia inteira. Portanto, nenhum texto deve ser desprezado. Alguém poderá afirmar: “então a mentira de Ananias e Safira (Atos 5:1-10), bem como a traição de Judas (Lc.22:3-6), bem como o conselho da mãe do rei Lemuel (Pv.31:6,7) são inspirados por Deus?” Claro que não. O próprio contexto informa que não foram inspirados por Deus, mas o seu registro, sim. Paulo afirmou que: “tudo quanto, outrora, foi escrito para o nosso ensino foi escrito” (Rm.15:4). Neste aspecto, pode-se afirmar que a Bíblia não apenas contém ou torna-se a Palavra de Deus, mas sobretudo ela é a inspirada Palavra de Deus em seu sentido pleno.

II. A INSPIRAÇÃO DIVINA E OS AUTORES DA BÍBLIA

1. A Inspiração dos autores

Em 2Pedro 1:21 está escrito: “Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo". Neste texto, o termo “inspirados” significa “movidos”, “trazidos”, “levados por uma força interior”, que nos indicam que, para escrever as Escrituras, estes homens, em primeiro lugar, eram “homens santos de Deus”, ou seja, homens que se encontravam separados do pecado e separados para Deus, que estavam, portanto, em plena comunhão com o Senhor e, por isso, neles habitava o Espírito Santo, com o propósito de fazê-los redigir aquilo que o Senhor lhes revelava. Eram, portanto, levados, por uma força interior, a escrever aquilo que escreveram, prova de que não se tratava de “conteúdo” ou “mensagem” que fossem de suas mentes, mas que vinha diretamente da parte de Deus. É por este motivo que Pedro atesta que as Escrituras não podem ser de “particular interpretação”(2Pd.1:20), ou seja, que os textos bíblicos não podem ser entendidos isoladamente, mas como parte de um conjunto, pois, embora tenham sido escritos por homens de diferentes culturas, de diferentes épocas, de diferentes classes sociais, de diferentes graus de instrução, o resultado não é fruto da cultura, da história, da época, da posição social nem tampouco da erudição de cada um dos escritores, mas tão somente obra do Espírito Santo, que agiu na vida de cada um destes “homens santos de Deus”.

2. As limitações dos autores

Embora seja a Palavra de Deus, a Bíblia foi escrita e redigida por seres humanos que, para escrevê-la, usaram de todos os materiais que tinham à sua disposição para tanto, lembrando-se, aliás, que, no tempo da formação dos escritos sagrados, não havia o papel, material que o Oriente Médio e o Ocidente somente conheceram num tempo posterior à elaboração das Escrituras, elaboração esta, aliás, que durou mais de mil e quinhentos anos, que é o tempo que vai de Moisés ou Jó, apontados como os autores do livro de Jó, que é o livro mais antigo das Escrituras, até a redação dos livros do apóstolo João, que são considerados os últimos escritos inspirados da Bíblia Sagrada.

É interessante notar que Deus não escreveu parte nenhuma da Bíblia. As Escrituras registram que Deus havia escrito as primeiras tábuas da Lei (Ex.32:15), que foram quebradas por Moisés, que estava indignado com a corrupção do povo no episódio do bezerro de ouro (Ex.32:19). As segundas tábuas, embora lavradas por Moisés, foram também escritas por Deus (Dt.10:1-4), mas estas tábuas foram colocadas na Arca, ou seja, não puderam ser lidas pelo povo. Moisés escreveu o seu teor, nesta oportunidade, naquilo que viria a ser o Pentateuco (Ex.34:27), numa comprovação de que parte alguma das Escrituras foi feita pelo dedo de Deus. O mesmo devemos dizer a respeito do Filho de Deus, Jesus; Ele nada deixou escrito, mas tudo que transmitiu o fez oralmente, teor este que foi, posteriormente, lembrado pelo Espírito Santo para que pudesse ser reduzido a escrito (1Co.11:23; 2Pd.2:16-18; 1João1:1,3). Vemos, pois, que, embora seja a Palavra de Deus, a Bíblia não foi escrita, em momento algum, por Deus, que delegou, pois, tal tarefa ao homem, apesar das suas limitações.

Quis Deus, portanto, que a Bíblia fosse escrita pelos homens, embora se tratasse da própria Palavra do Senhor, para que as Escrituras fossem, elas mesmas, a demonstração da comunhão que se pretendeu restabelecer entre Deus e o homem. Esta comunhão, que, em Jesus, estava evidenciada pela dupla natureza, é um dos aspectos pelos quais as Escrituras são consideradas testemunhas do próprio Verbo Divino (João 5:39). Assim, pois, como Jesus é Homem, e é Deus, as Escrituras também são Palavra de Deus, mas escrita pelos homens, apesar de suas limitações.

Mas, como pode o homem, cujos pensamentos estão tão distantes dos de Deus (Is.55:8,9; 1Co.2:9), escrever a Palavra de Deus, reduzir a escrito aquilo que é próprio da Divindade? Somente de uma maneira: através da revelação e da inspiração do Espírito Santo (2Tm.3:16; 2Pd.1:21). Assim como Deus escolheu a jovem virgem Maria para servir de instrumento ao nascimento do seu Filho Jesus, Ele também escolheu homens simples, puros e santos, cujos corações eram segundo o seu coração, para escrever a Bíblia Sagrada. Estes homens surgiram do meio do povo de Israel, com exceção de Lucas, que não era judeu, mas se converteu ao Senhor Jesus. Deus os encheu do Espírito Santo para escrever exatamente aquilo que Ele queria.

Todavia, esses homens tinham suas limitações, eles eram pessoas assim como nós, inclinados à mesmas paixões e falhas (Tg.5:17). Moisés, por exemplo, mesmo tendo falado com Deus face a face, e ter recebido diretamente de Deus os Dez mandamentos e a Lei, mesmo assim falhou, a ponto de ser impedido de entrar na Terra Prometida (Dt.32:51,52). Poderíamos ainda falar de Davi, o homem segundo o coração de Deus (Atos 13:22), que escreveu pelo menos 73 salmos, cerca de metade do livro de Salmos, porém cometeu pecados terríveis em sua vida como, por exemplo, a traição contra o seu melhor soldado, Urias; este foi morto de forma cruel e covarde (2Samuel cap.11). Todavia, como bem diz o pr. Douglas, “nenhum texto das Escrituras Sagradas, quanto a sua inspiração e veracidade, está condicionado às limitações de seus autores humanos” (ler 2Co.4:7).

3. Os diferentes gêneros literários e figuras de linguagem

A Bíblia é um livro muito diversificado em gêneros literários e figuras de linguagem. Quando a Bíblia é aberta, a sensação é como se estivesse entrando numa livraria ou em um sebo com suas dezenas de estantes e prateleiras cheias de livros. Em geral, esses locais organizam os livros por gêneros literários - livros de suspense, romance, poesia, história e muito mais. Cada livro das Escrituras Sagradas tem um estilo literário predominante, e saber qual estilo se está lendo ajudará a pessoa compreender melhor a forma que o autor transmite seus ensinos, como ele tece sua argumentação e a intensidade na qual a mensagem foi escrita.

A identificação dos gêneros literários encontrados nos livros da Bíblia, com suas formas próprias, linguajar e estilo literário é de fundamental importância para a compreensão do texto da Palavra de Deus. É na atenciosa leitura do texto que identificamos o gênero literário e como ele se apresenta; assim passamos a amar cada vez mais a Palavra de Deus e a interpretá-la de forma mais completa, transformando inclusive o nosso caráter e a nossa maneira de viver.

Na Bíblia encontramos diversos gêneros literários e muitas figuras de linguagem. Quanto aos gêneros literários podemos mencionar: Evangelhos, Epístolas, Profecias, Parábolas, Apocalipse, Salmos, Narrativas do Antigo Testamento, Leis, Provérbios, Poesia, Atos, dentre outros.

Os gêneros literários do Antigo Testamento

a) Gênero Jurídico. Encontramos este gênero literário em boa parte dos cinco primeiros livros da Bíblia, o Pentateuco. É compreensível este gênero em livros que falam de normas e leis para o povo de Deus. Aparecem dois tipos de leis: Apodíticas e Casuísticas. Nas leis Apodíticas, os mandamentos têm início com um não – exemplo: Os dez mandamentos (Ex.20:3-17). As Casuísticas são leis em situações específicas (Lv.20:9-18,20,21; Dt.15:7-17).

b) Gênero Narrativo. Apresenta a história contada com o intuito de transmitir uma mensagem. Tipos: Epopeia, Épico, Tragédia e Romance.

  • No gênero Epopeia aparecem as narrativas dos feitos de um herói nacional. Por exemplo: Abraão, Gedeão, Davi.
  • No gênero Épico aparecem as narrativas de pessoas com façanhas militares. Por exemplo: a vida dos israelitas no deserto e a conquista de Canaã.
  • No gênero Tragédia aparecem história da decadência de um indivíduo, da fama e honradez ao desastre e a miséria. Exemplos: Sansão, Saul, Salomão.
  • No gênero Romance descreve a vida amorosa entre um homem e uma mulher. Aparece este tipo de gênero nos livros de Rute e de Cânticos dos Cânticos.

c) Gênero Poético. Além da poesia hebraica encontrada nos livros de Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes e Cânticos dos Cânticos o gênero da poesia também aparece no Pentateuco e nos livros proféticos. Na poesia hebraica do Antigo Testamento é usada abundantemente as formas literárias do paralelismo entre as frases. O livro dos provérbios se destaca nesse aspecto; encontramos nele muitos paralelismos.

d) Gênero Profético. O gênero profético é muito encontrado na Bíblia. O gênero profético não significa adivinhação; o profeta manifestava ao povo a vontade de Deus com sermões e palavras duras, com sinais, exortações e oráculos.

e) Gênero Apocalíptico. Este gênero literário se apresenta com abundância de símbolos, imagens, visões e revelações. No Antigo Testamento, essa literatura apareceu com mais frequência em momentos de grande perseguição contra os judeus. Neste gênero literário aparece o confronto entre os justos e os ímpios, com resultados de recompensa. No livro de Daniel e Ezequiel encontramos este tipo de gênero.

f) Gênero Sapiencial. Este gênero mostra a sabedoria dos simples, que é a sabedoria da vida cotidiana – os Provérbios; ou mostra uma sabedoria que reflete a crise de fidelidade a Deus - exemplo: a história de Jó; mostra uma sabedoria que reflete a crise na própria sabedoria - “vaidade das vaidades tudo é vaidade” (Ec.12:8). 

(Extes conceitos foram extraídos do livro “Introdução Geral à Bíblia Sagrada”, de Norman L. Gleisler).

Os gêneros literários do Novo Testamento

a) Gênero do Evangelho. O evangelho é considerado um gênero literário e não pode ser visto simplesmente como uma biografia histórica da vida de Jesus. Isso ficou evidente na conclusão do Evangelho de João: “Há, porém, muitas outras coisas que Jesus fez e que, se fossem escritas uma por uma, creio que o mundo não poderia conter os livros que se escreveriam” (João 21:25). O Evangelho contém material biográfico sobre Cristo, que as comunidades transmitiam oralmente e depois os evangelistas escreveram. Na verdade, no evangelho encontramos a pregação de Jesus e a atividade da comunidade primitiva. No evangelho encontramos ainda: Parábolas, narrativas de milagres, cânticos, provérbios, sentenças do Antigo Testamento encaixadas no texto, genealogias, histórias da infância de Jesus, narrativas etc.

b) Gênero EpistolarEste gênero literário encontramos em grande parte do Novo Testamento. São ao todo 21 Cartas, a maioria de Paulo, mas também de Tiago, Pedro, Judas, João. O uso de cartas para a comunicação entre as pessoas do Império Romano era muito comum e tornou-se depois útil dentro dos objetivos da evangelização. Era um meio muito prático e popular. A obra da evangelização não se omitiu deste tipo de literatura. Em uma Epístola existe uma variante de temas, abordados em forma sistemática, na forma de uma circular dirigida a várias comunidades. Geralmente no final das Cartas aparece a parte parenética, ou exortações à comunidade, como um gênero próprio das Epístolas/Cartas.

c) Gênero narrativoNo livro dos Atos dos Apóstolos, como o nome diz, narra a atividade dos apóstolos, principalmente de Pedro e Paulo nas primeiras comunidades.

d) Gênero das genealogias. Este gênero literário tem um estilo típico, e usa formas esquemáticas rígidas. Por exemplo, as genealogias de Jesus encontrada na abertura do evangelho de Mateus.

e) Gênero Apocalíptico. No Novo Testamento a sua maior ênfase tem destaque no último livro da Bíblia - o Apocalipse. Em outros livros do Novo Testamento também pode ser verificado. Neste estilo literário aparecem símbolos, figuras, visões e revelações.

Figuras de Linguagem

Os autores sagrados também fizeram uso de figuras de linguagem, tais como: o emprego de parábolas e enigmas (Jz.14:14; Ez.17:2); de alegorias (Gl.4:22-24; Hb.9:9; Tg.3:3-5); de hipérboles (João 21:35; Cl.1:23); de metáforas e símiles (Zc.2:8; Tg.3:3-5); de vocabulário simples ou rebuscado a depender do grau de instrução do escritor (2Pd.3:15,16). “O emprego dos recursos literários evidencia a cultura do escritor, mas em hipótese alguma invalida a inspiração da Palavra de Deus (Pv.2:6; Tg.1:17)” (Douglas).

As riquezas dos gêneros literários encontrados na Bíblia não se esgotam nestes apresentados acima, existem muitos outros, que juntamente com as formas literárias próprias vão dando forma ao texto bíblico. Descobrir e conhecer esta riqueza que existe no texto sagrado é um fator muito importante que é acrescentado ao estudo exaustivo das Sagradas Escrituras.

4. A linguagem do senso comum

Embora a Bíblia tenha sido gerada e comunicada por Deus ao homem, quem escreveu foi o homem, e esta escrita é a participação humana na elaboração das Escrituras. A escrita dos textos bíblicos é a “forma” do texto, ou seja, o modo como ele foi escrito, a maneira como a mensagem foi redigida. Esta “forma” é humana, tanto que, ao analisarmos os textos bíblicos, notamos que há uma mudança de estilo, de língua e de vocabulário entre os diversos autores da Bíblia.

Quanto à língua original usada pelos autores: o Antigo Testamento foi escrito em hebraico e aramaico; já o Novo Testamento, em grego.

Quanto ao estilo usado: o estilo de um Moisés, criado em toda a ciência do Egito, é bem diferente do estilo de um boiadeiro, como é Amós; sem falarmos que as figuras de linguagem e as palavras utilizadas por Moisés ou pelo autor dos livros de Samuel diferem daqueles empregados pelos escritores do Novo Testamento. Tudo isto nos mostra, claramente, que, embora a mensagem seja de Deus, há a intervenção da individualidade de cada autor; não no “conteúdo”, não na “mensagem”, pois, se assim fosse, não se teria a perfeita e extraordinária harmonia e unidade que a Bíblia apresenta, mesmo havendo mais de um milênio e meio entre o início e o término da sua elaboração, mas na “forma” de cada um.

É por isso, aliás, que, muitas vezes, temos dificuldade de entender visões recebidas pelos escritores bíblicos, notadamente nos textos proféticos, uma vez que, dentro da individualidade e realidade vivida de cada escritor, ele tendia a descrever o que via. Embora seja um registro fiel daquilo que o Senhor lhe mostrava, é algo que, quase sempre, está fora do contexto cultural dos nossos dias, da nossa realidade presente. Esta dificuldade, porém, é mais uma comprovação de que a Bíblia é um Livro único no mundo, pois, além de ser a Palavra de Deus, é resultado da individualidade de cada homem santo inspirado pelo Espírito Santo.

Embora os escritores da Bíblia utilizaram um estilo literário mais conveniente com a cultura de sua época para transmitir a mensagem de Deus, em determinadas situações utilizaram linguagem de senso comum, como bem explica o pr. Douglas Baptista: “na linguagem de fenômenos científicos, por exemplo, os autores sagrados usaram a fraseologia comum e popular. Para citar um dos casos, ao descrever a herança dos rubenitas, também dos gaditas e à meia tribo de Manasses, Josué fez alusão ao “nascer do sol” (Js.1:15); e, na batalha contra os amorreus, ele registrou que o “sol parou” (Js.10:13). Essa linguagem não ignora os fundamentos científicos, nem desacredita a inspiração da Palavra de Deus, apenas busca alcançar a compreensão de todos (1Co.14:9-11)”.

III. O ESPÍRITO SANTO E A BÍBLIA

1. A Inspiração do Antigo Testamento

O Antigo Testamento vindica para si a inspiração divina, com base no fato de se apresentar perante o povo de Deus e ser por esse povo recebido como pronunciamento profético. Os livros escritos pelos profetas de Deus eram conservados em lugar sagrado. Moisés colocara sua lei na Arca de Deus (Dt.10:2). Mais tarde, ela seria mantida no tabernáculo, para ensino das gerações futuras (Dt.6:2). Cada profeta, depois de Moisés, acrescentou seus escritos sagrados à coleção existente. Aliás, o segredo da inspiração do Antigo Testamento está na função profética de seus escritores.

Segundo Norman L. Geisler e Willian E.Nix, os escritores do Antigo Testamento eram profetas. O profeta era o porta-voz de Deus. As funções do profeta ficam esclarecidas nas várias menções que a ele se fazem. O profeta era chamado homem de Deus (1Rs.12:22), o que revela ser ele escolhido por Deus; era chamado servo do Senhor (1Rs.14:18), o que mostra sua ocupação; era chamado de mensageiro do Senhor (Is.42:19), o que assinala sua missão a serviço de Deus; era chamado de vidente (Is.30:10), o que revela a fonte apocalíptica de sua verdade; era chamado de homem do Espírito (Oséias 9:7), o que demonstra quem o levava a falar; era chamado de atalaia (Ez.3:17), o que manifesta sua prontidão em realizar a obra de Deus. Acima de todas estas designações, entretanto, sobressai a de “profeta”, ou seja, o porta-voz de Deus.

Em razão do próprio chamado, o profeta era alguém que se sentia como Amós - “Falou o Senhor Deus, quem não profetizará?” (Am.3:8); ou como outro profeta, que disse: “… eu não poderia desobedecer à ordem do Senhor meu Deus, para fazer coisa pequena ou grande” (Nm.22:18). Assim como Arão havia sido porta-voz de Moisés (Êx.7:1), pois deveria falar “todas as palavras que o Senhor havia dito a Moisés” (Êx.4:30), assim também os profetas de Deus deveriam falar somente aquilo que o Senhor lhes ordenasse. Assim dissera Deus aos profetas: “Porei as minhas palavras na sua boca, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar” (Dt.18:18). Além disse, Deus disse mais: “Nada acrescentareis ao que vos ordeno, e nada diminuireis” (Dt.4:2). Como afirma o profeta Amós, “certamente o Senhor Jeová não fará coisa alguma, sem ter revelado o seu segredo aos seus servos, os profetas” (Amós 3:7). Em suma, profeta era aquele que dava a saber o que Deus lhe havia revelado.

Segundo Norman L. Geisler, todos os autores tradicionais do Antigo Testamento são denominados profetas, seja como título, seja como função. Se alguns não eram profetas por vocação, mas todos possuíam o dom da profecia. Assim confessou Amós, que era boiadeiro: “… eu não era profeta, nem filho de profeta […]. Mas o Senhor […] me disse: Vai, profetiza ao meu povo Israel” (Am.7:14,15). Davi, a quem se atribui a criação de quase metade dos salmos, exercia a função de rei; no entanto, assim testificou esse rei: “O Espírito do Senhor fala por mim, e a sua palavra está na minha boca” (2Sm.23:2). O Novo Testamento acertadamente o denomina profeta (Atos 2:30). De modo semelhante, o rei Salomão, autor dos livros de Cântico dos Cânticos, Provérbios e Eclesiastes, teve visões da parte do Senhor (1Rs.11:9). De acordo com Números 12:6, as visões eram um meio de Deus mostrar ao povo quem eram seus profetas. Embora Daniel fosse estadista, o próprio Senhor Jesus o denominou profeta (Mt.24:15).

Moisés, o grande legislador e libertador de Israel, é denominado profeta (Dt.18:15; Os.12:13). Josué, sucessor de Moisés, era considerado profeta de Deus (Dt.34:9). Samuel, Natã e Gade foram profetas que escreveram (1Cr.29:29), da mesma forma que Isaías, Jeremias, Ezequiel e os doze profetas menores. Samuel fundou uma escola de profetas (1Sm.19:20), cujos alunos mais tarde se chamariam “filhos dos profetas” (2Rs.2:3).

Existem inúmeros testemunhos nos livros das Crônicas segundo os quais os profetas guardavam com cuidado as histórias sagradas e as mensagens de Deus proferidas por eles. A história de Davi havia sido escrita pelos profetas Samuel, Natã e Gade (1Cr.29:29). A história de Salomão foi registrada por Natã, Aías e Ido (2Cr.9:29). O mesmo aconteceu no caso das histórias de Roboão, de Josafá, de Ezequias, de Manasses e de outros reis (cf. 2Cr.9:29; 12:15; 13:22; 20:34; 33:19; 35:27).

Na época do exílio babilônico, no século VI a.C., Daniel se referiu à compilação de escritos proféticos dando-lhe o nome de “livros” (Dn.9:2). De acordo com Ezequiel (Ez.13:9), havia um registro oficial dos verdadeiros profetas de Deus. Todo aquele que transmitisse profecias falsas era excluído do rol oficial. Só os verdadeiros profetas de Deus eram oficialmente reconhecidos, e só os escritos desses profetas eram guardados ao lado dos escritos inspirados. Desde os tempos mais remotos de que temos registro, todos os 39 livros do Antigo Testamento já compunham esse acervo de escritos proféticos.

Em suma, quase todos os livros do Antigo Testamento oferecem alguma vindicação de inspiração divina. Às vezes se trata de autoridade implícita, mas em geral há uma declaração explícita do tipo “assim diz o Senhor”. Do início ao fim, a doutrina da inspiração do Antigo Testamento está solidamente instalada em numerosos trechos, os quais sustentam sua origem e inspiração divina.

2. A Inspiração do Novo Testamento

Os apóstolos e profetas do Novo Testamento não hesitaram em classificar seus escritos como inspirados, ao lado do Antigo Testamento. Seus livros eram respeitados, colecionados e circulava no princípio da Igreja como Escrituras Sagradas.

Segundo Norman L. Geisler, há dois movimentos básicos na compreensão das reivindicações do Novo Testamento a respeito de sua inspiração. Primeiramente temos a promessa de Cristo de que o Espírito Santo guiaria os discípulos no ensino de suas verdades, que constituem o fundamento da Igreja. Em segundo lugar, há o cumprimento aclamado disso no ensino apostólico e nos escritos do Novo Testamento.

Os discípulos de Cristo não se esqueceram da promessa do Senhor. Eles pediram-lhe que seu ensino tivesse exatamente o que Jesus lhes havia prometido: a autoridade de Deus. E eles o fizeram de várias maneiras: dedicando-se ao que sabiam ser a continuação do ministério de ensino de Cristo, crendo fervorosamente que seus ensinos teriam a mesma autoridade e poder do Antigo Testamento e afirmando de modo específico em seus escritos que eles tinham a autoridade de Deus.

Lucas afirma ter apresentado um relato exato de “tudo o que Jesus começou não só a fazer, mas também a ensinar” em seu evangelho. Ele dá a entender que Atos dos apóstolos registra o que Jesus continuou a fazer e a ensinar mediante seus apóstolos (Atos 1:1; cf. Lc.1:3,4). Na realidade, segundo consta, a primeira Igreja se caracterizava pela devoção ao “ensino dos apóstolos” (Atos 2:42). Até mesmo os ensinos de Paulo, que se baseavam nas revelações diretas de Deus (Gl.1:11,12), estavam sujeitos à aprovação dos apóstolos (Atos 15). A própria Igreja do Novo Testamento, como se sabe, foi edificada “sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas [do Novo Testamento]” (Ef.2:20; cf. 3:5).

É verdade que as declarações orais dos apóstolos que viviam na época tinham a mesma autoridade de seus escritos (1Ts.2:15), e também é verdade que os livros do Novo Testamento são o único registro autêntico do ensino apostólico de que dispomos hoje. A restrição de que todo membro dos doze apóstolos devia ser testemunha ocular do ministério e da ressurreição de Jesus Cristo (Atos 1:21,22) elimina a sucessão apostólica que não passaria do século I. E o fato de não existir ensino apostólico autêntico além do encontrado no Novo Testamento, limita tudo quanto os apóstolos ensinaram ao que se encontra no Novo Testamento, isto é, aos seus 27 Livros. Ao lado do Antigo Testamento, esses Livros são considerados inspirados, dotados de autoridade divina, visto que só eles são verdadeiramente apostólicos ou proféticos.

Em suma, Cristo prometeu que todo o ensino apostólico seria dirigido pelo Espírito Santo. Os Livros do Novo Testamento são o único registro autêntico que temos do ensino apostólico. Daí decorre que só o Novo Testamento pode reivindicar para si o título de registro autorizado dos ensinos de Cristo.

A inspiração do Novo Testamento, portanto, baseia-se na promessa de Cristo de que seus discípulos seriam dirigidos pelo Espírito Santo em seus ensinos a respeito do Senhor Jesus. Os discípulos creram nessa promessa e a assimilaram, havendo claros indícios de que os próprios autores do Novo Testamento, bem como os de sua época, reconheceram o cumprimento dessas promessas. Criam em que o Novo Testamento havia sido divinamente inspirado, pelo que, desde os primórdios do início dos registros cristãos, tem havido apoio unânime à doutrina da inspiração do Novo Testamento, em igualdade de condições com o Antigo Testamento.

3. A obra da regeneração e a iluminação

A Palavra de Deus afirma que o homem no pecado está morto; foi o que afirmou Paulo: ”E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados” (Ef.2:1). Morte significa separação. No sentido espiritual, o homem no pecado está separado de Deus. A única maneira desse homem voltar a ter comunhão com Deus é recebendo uma nova vida, através do nascer de novo, ou seja, da regeneração. Quando Nicodemos se encontrou com Jesus, Este não se sentiu lisonjeado com as belas palavras proferidas por aquele, mas foi direto ao seu verdadeiro problema. Nicodemos embora fosse um homem rico, culto, de grande projeção social e, também, religioso, espiritualmente estava morto e seu maior problema era a Salvação – “Jesus respondeu e disse-lhe: na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode entrar no Reino de Deus” (João 3:3).

Nascer de Novo é a primeira condição para todo aquele que quiser receber a Salvação. Nicodemos não entendeu e pensou como ainda pensam os espíritas: pensou que o nascer de novo significava tornar a nascer do ventre da mãe. Assim, para que não pairasse qualquer dúvida sobre a reencarnação como sendo o “nascer de novo”, o Senhor Jesus explicou que se fosse possível tornar a nascer, no sentido físico, quantas vezes a pessoa pudesse nascer, em nada iria mudar, ou seja, nasceria sempre com a velha natureza carnal. Assim, o Senhor Jesus lhe disse: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” (João 3:6).

No processo da Regeneração, o Espírito Santo testifica de Cristo e convence a pessoa do pecado, da justiça e do juízo (João 15:26; 16:8-11). Assim, o Espírito Santo produz a fé regeneradora (Ef.2:8) na pessoa, que vem pelo ouvir a Palavra de Deus (Rm.10:17). Segundo o pr. Douglas Baptista, “sem o mover do Espírito Santo não é possível nem aceitar e nem entender a Palavra de Deus (Mt.13:15; 1Co.2:14). Essa ação em conduzir o pecador a compreender as verdades bíblicas chama-se iluminação (Ef.1:18). Porém, ressalta-se que o Espírito Santo ilumina o que Ele já tem inspirado, não se tata de nenhuma nova revelação (Gl.1:8,9)”.

Portanto, é somente o Espírito Santo quem pode operar no homem o milagre do Novo Nascimento ou Regeneração. Foi o que afirmou Paulo: “Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas, segundo a sua misericórdia nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo” (Tito 3:5). Portanto, a Regeneração não significa retornar a velha natureza, mas significa transformar o velho homem numa nova criatura. Foi isso o que Paulo queria dizer quando declarou: “Assim, que, se alguém está em Cristo, nova criatura é: as coisas velhas já se passaram; eis que tudo se fez novo” (2Co.5:17).

Através deste nascer de novo o homem se torna participante da natureza de Deus, recebendo a adoção de filho. Sem o novo nascimento o homem será sempre criatura de Deus, não filho. Foi por isto que o apóstolo João, quando escreveu aos crentes que já haviam passado pela experiência do Novo Nascimento, disse: ”Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não manifestou o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos” (1João 2:2).

CONCLUSÃO

A Bíblia é inspirada por Deus e fornece evidências plausíveis desse fato para aqueles que estão dispostos a investigar; é a única revelação escrita de Deus para toda a humanidade. Ela sobreviveu para contar sua mensagem de Cristo e da salvação de geração a geração. Mattew Henry, um dos maiores expositores das Sagradas Escrituras, é categórico ao referir-se à inspiração da Bíblia: “As palavras das Escrituras devem ser consideradas palavras do Espírito Santo”. Como não concordar com Henry? Basta ler a Bíblia para sentir, logo em suas palavras iniciais, a presença do Espírito Santo. Paulo afirma: “Toda Escritura divinamente inspirada é proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça, para que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente instruído para toda boa obra” (2Tm.3:16,17). Muitos liberais aproximam-se das Escrituras carregados de ceticismo e contestando toda inspiração, inerrância e infalibilidade. Há aqueles que, enganosamente, afirmam que as Escrituras apenas contêm a Palavra de Deus, mas não são a Palavra de Deus. Outros negam sua historicidade e tentam, jeitosamente, explicar seus registros históricos e seus milagres de forma metafórica. Todavia, permanece a verdade inabalável de que toda as Escrituras Sagradas são inspiradas por Deus; elas são a própria Palavra de Deus.

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Fonte: Luciano de Paula Lourenço – EBD/IEADTC