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terça-feira, 8 de setembro de 2015

11ª lição do 3º trimestre de 2015: A ORGANIZAÇÃO DE UMA IGREJA LOCAL



Texto Base: Tito 1:4-14
 

“Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam e, de cidade em cidade, estabelecesses presbíteros, como já te mandei” (Tt 1:5)

 
INTRODUÇÃO

Em continuidade ao estudo das “Ordenanças de Cristo nas Cartas Pastorais”, estudaremos a partir desta Aula a Epístola de Tito. Esta é a mais breve das três cartas pastorais escritas pelo apóstolo Paulo. Tito foi incumbido de pôr em ordem o que Paulo deixara inacabado nas igrejas de Creta, inclusive a instituição de presbíteros nessas igrejas (Tt 1:5); ajudar as igrejas a crescerem na fé, no conhecimento da verdade e em santidade (Tt 1:1); e silenciar falsos mestres que perturbavam a fé dos cristãos dessa ilha. Ele, na condição de presbítero supervisor, deveria estabelecer igrejas "de cidade em cidade", ministrar a palavra de edificação e advertência contra os falsos cristãos, repreendendo-os de modo veemente. Não era fácil a missão de Tito.

I. A EPÍSTOLA ENVIADA A TITO

1. O intento da Epístola. O principal intento desta Epístola é dar conselhos e orientar ao jovem pastor Tito a respeito dos seguintes temas:

a) A organização das igrejas (Tt 1:5). Muitas coisas estavam fora de lugar nas igrejas de Creta. Tito foi deixado lá para colocá-las em ordem. Essas coisas incluíam o ensino da sã doutrina, a aplicação da disciplina, o combate aos falsos mestres e a instrução da sã doutrina aos crentes.

b) A liderança das igrejas (Tt 1:5-9). Paulo tinha uma solene preocupação com o governo da igreja. Uma igreja bíblica precisa ter líderes sãos na fé e na conduta. Paulo deixa claro que o objetivo supremo do governo da igreja é a preservação da verdade revelada.

c) O combate aos falsos mestres e às falsas doutrinas (Tt 1:10-16). A liderança da igreja precisa vigiar para que os lobos que estão do lado de fora não entrem; nem os lobos vestidos de peles de ovelha, disfarçados dentro da igreja, arrastem após si os discípulos (At 20:29-31).

d) O ensino da sã doutrina (Tt 2:1). A igreja não deveria ficar apenas na defensiva, combatendo os falsos mestres, mas deveria, sobretudo, engajar-se no ensino da sã doutrina.

e) A promoção da ética cristã (Tt  2:2-10). Paulo dá orientações claras para os líderes e para os liderados. As prescrições apostólicas contemplam os idosos, os recém-casados, os jovens e os servos. Não é suficiente ter doutrina sã, é preciso também ter vida santa. A doutrina sempre deve converter-se em vida. Quanto mais conhecemos a verdade, tanto mais deveríamos viver em santidade.

f) A prática das boas obras (Tt 2:11-14; 3:8,14). Não somos salvos pelas boas obras, mas demonstramos nossa salvação por meio delas. A salvação é pela fé somente, mas a fé salvadora nunca vem só; ela é acompanhada das boas obras. A fé é a causa; as boas obras são o resultado da salvação. As nossas boas obras não nos levam para o céu, mas nos acompanham para o céu (Ap 14:13).

g) A submissão às autoridades (Tt 3:1-11). A ilha de Creta havia sido subjugada por Roma em 67 a.C., e desde então permaneceu resistente ao jugo colonial romano. Paulo já havia destacado a atitude insubordinada dos cretenses (Tt 1:10,16). Agora, Tito deveria orientar os cristãos de Creta a serem submissos aos seus governantes. A obediência dos cristãos como cidadãos deveria ornar a doutrina que pregavam.

O cristão tem dupla cidadania: é cidadão do céu e também do mundo. Ele deve obediência a Deus e também às autoridades constituídas. Duas coisas são exigidas do cristão em relação às autoridades:

- Em primeiro lugar, submissão (Tt 3:1). Aqueles que governam são autoridades constituídas pelo próprio Deus e devem ser respeitados e obedecidos. A obediência civil é responsabilidade do cristão. Ele não pode ser anarquista nem agitador social, uma vez que resistir à autoridade é insurgir-se contra o próprio Deus que a constituiu.

- Em segundo lugar, obediência (Tt 3:1). A submissão implica obediência e cumprimento dos deveres. O cristão deve ser cooperativo nos assuntos que envolvem toda a comunidade, uma vez que a cidadania celestial (Fp 3.20) não o isenta de suas responsabilidades como cidadão da terra.

2. Data em que foi escrita. Devido à semelhança dos temas e da linguagem, os conservadores creem que Tito foi escrito por volta do mesmo período ou um pouco depois de 1Timóteo. De qualquer modo, o livro foi escrito entre 1 e 2Timóteo, e não depois de 2Timóteo. Embora seja impossível fixar uma data exata, é provável que tenha sido entre 64 e 66 d.C. O lugar possível de origem é a Macedônia.

3. Um viver correto. Uma vez que os crentes novos convertidos eram egressos do paganismo, a igreja nascente estava enfrentando muitas dificuldades, tanto externas quanto internas. A ilha de Creta era uma região altamente marcada pela devassidão moral e pela disseminação de muitas heresias. As igrejas, ainda incipientes, corriam sérios riscos de ser atacadas por esses perigos morais e espirituais. Somente sob uma liderança bíblica e moralmente sadia a igreja poderia resistir a esse cerco ameaçador. Provavelmente, Paulo esteve na ilha de Creta na companhia de Tito no intervalo entre suas duas prisões em Roma. Depois da sua partida, Satanás se esforçounão só para derrotar o governo da igreja, mas também para corromper a fé dos novos convertidos com falsas doutrinas. Por isso, Paulo urge em mandar Tito para tratar da ordem na igreja e exigir que os irmãos vivam de maneira correta e santa. A santificação - sem a qual ninguém verá a Deus (Hb 12:14) - é um processo gradual e contínuo que conduz ao aperfeiçoamento do caráter e da vida espiritual do crente, tornando-o participante da natureza divina (2Pe 1:4).

II. O PASTOR PRECISA PROTEGER O REBANHO DE DEUS

1. Qualificação dos pastores (Tt 1:6-9). Em sua Epístola a Tito, Paulo enfatiza as qualificações do bispo. Diz ele:

“Aquele que for irrepreensível, marido de uma mulher, que tenha filhos fiéis, que não possam ser acusados de dissolução nem são desobedientes. Porque convém que o bispo seja irrepreensível como despenseiro da casa de Deus, não soberbo, nem iracundo, nem dado ao vinho, nem espancador, nem cobiçoso de torpe ganância; mas dado à hospitalidade, amigo do bem, moderado, justo, santo, temperante, retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina como para convencer os contradizentes”.

As características do presbítero exaradas neste texto têm mais a ver com a vida dele do que com o seu desempenho. A vida do líder é a vida da sua liderança. A vida precede o ministério e é sua base. Portanto, ele precisa ser irrepreensível.

O retrato que Paulo traça do presbítero (Tt 1:6) ou bispo (1:7) é emoldurado pela irrepreensibilidade. O presbítero não pode deixar brechas no seu escudo moral. Seu ofício é público e sua reputação pública precisa ser inquestionável.

Pelo texto, o presbítero precisa ser irrepreensível em três áreas distintas:

A) IRREPREENSÍVEL COMO LÍDER DE SUA FAMÍLIA - Tt 1:6

Nesta área, ele precisa ser irrepreensível em dois pontos vitais:

1) Como marido de uma mulher. Marido de uma só mulher quer dizer marido fiel à sua esposa, ou seja, um homem livre de qualquer suspeita quanto à sua relação matrimonial, íntegro em sua conduta conjugal.

2) Irrepreensível como pai. O presbítero precisa ser o sacerdote do seu lar, o líder espiritual da sua família. Deve criar seus filhos na disciplina e admoestação do Senhor. Se o presbítero não sabe governar a própria casa, como poderá governar a igreja de Deus?, pergunta o apóstolo Paulo (1Tm 3:4,5). Obviamente isso se aplica aos filhos que vivem com a família sob a autoridade do pai.

B) IRREPREENSÍVEL COMO DESPENSEIRO DE DEUS - Tt 1:7,8

Neste aspecto, Paulo aborda o assunto sob duas perspectivas: primeiro, ele trata do aspecto negativo, isto é, o que um presbítero não deve ser; segundo, do aspecto positivo, isto é, o que o presbítero deve ser e ter. Vejamos, em resumo, estes aspectos.

B1) ASPECTOS NEGATIVOS - defeitos que o presbítero não deve ter. O presbítero nãodeve ser:

1) Soberbo. Soberba é aquela pessoa que exalta a si mesma, que só se preocupa consigo mesma e olha para os outros com discriminação e desprezo.

2) Iracundo. A Bíblia não classifica toda ira como pecado (Ef 4:26); o que ela condena é o homem genioso, esquentado, de estopim curto, que, além de irar-se com facilidade, também fica remoendo por longo tempo a sua ira. Um homem que nutre mágoas e ressentimentos em seu coração definitivamente não está preparado para exercer o presbiterato.

3) Dado ao vinho. O apóstolo Paulo é claro quando escreve aos efésios: “Não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito” (Ef 5:18).

4) Violento. Trata da violência tanto verbal quanto física. Aquele que governa os outros precisa governar primeiro suas emoções, ações e reações.

5) Cobiçoso de torpe ganância. Os cretenses eram conhecidos como indivíduos inveteradamente gananciosos (Tt 1:10-13). Alguém disse que eles se apegavam ao dinheiro como as abelhas ao mel. Os presbíteros precisam ser homens despojados dessa torpe ganância (Tt 1:7). Veja a recomendação do apóstolo Pedro: “Aos presbíteros que estão entre vós, ad­moesto eu, que também sou presbítero... apascentai o rebanho de Deus que está entre vós, tendo cuidado dele...não por torpe ganância...” (1Pe 5:1,2).

B2) ASPECTO POSITIVO – o que o presbítero deve ser e ter. O presbítero deve ser conhecido pelo que ele é e faz. Ele deve ornar o seu caráter como despenseiro de Deus com as seguintes virtudes:

1) Deve ser hospitaleiro. A hospitalidade na igreja primitiva era uma necessidade vital para o avanço missionário da igreja. Sem hospitalidade os missionários itinerantes teriam sua atividade estancada. E mais, nos primeiros dois séculos da era cristã não havia templos, por isso, as igrejas reuniam-se em casas (Rm 16:5; 1Co 16:19; Fm 2). Hoje, esta prática está em desuso. Todavia, quando a hospitalidade for estritamente necessária, a recomendação é clara: “Seja constante o amor fraternal. Não negligencieis a hospitalidade” (Hb 13:1,2).

2) Deve ser amigo do bem. O presbítero precisa ser um homem amante das boas ações. Ele não tem prazer mórbido de falar mal dos outros, mas tem grande deleite em dizer o bem das pessoas. Ele não apenas chora com os que choram, mas também se alegra com os que se alegam.

3) Deve ser moderado. O presbítero deve ter o domínio completo sobre suas paixões e desejos, o que impede de ir além do que a lei e a razão lhe permitem e aprovam. Explicando melhor, o presbítero precisa ter equilíbrio, domínio próprio, autocontrole. Só se consegue ser assim com a unção do Espírito sobre sua vida (ler Ec 9:8).

4) Deve ser justo. O presbítero é um homem que não usa dois pesos e duas medidas. Ele não faz acepção de pessoas nem tolera preconceitos. Ele é justo no falar e no agir.

5) Deve ser piedoso, santo. Deus não usa grandes talentos, mas homens piedososNós estamos à procura de melhores métodos, e Deus está à procura de melhores homens. Deus não unge métodos, unge homens piedosos.

6) Deve ter domínio próprio. Ninguém está apto para liderar os outros se não tem domínio de si mesmo. Aquele que domina a si mesmo é mais forte do que aquele que domina uma cidade.

C) IRREPREENSÍVEL COMO MESTRE DA PALAVRA - Tt 1:9.

Nesta etapa é tratada a relação do presbítero com a igreja local. Refere-se ao ministério de ensino da Palavra de Deus. Paulo menciona três coisas importantes:

(1) O presbítero precisa demonstrar fidelidade doutrinária. “Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina...". O presbítero precisa ser um estudioso das Escrituras. Ele precisa afadigar-se na Palavra (1Tm 5:17). Paulo diz que os presbíteros têm dois ministérios com respeito à Palavra de Deus: (a) edificar a igreja pela sã doutrina; (b) rejeitar os falsos mestres que espalham doutrinas perniciosas.

(2) O presbítero precisa demonstrar capacidade para o ensinoPaulo prossegue: “para que seja poderoso... para admoestar com a sã doutrina...". A capacidade para exortar não vem da força, das técnicas da psicologia nem mesmo do ofício que o presbítero ocupa, mas do conhecimento da verdade para aplicar corretamente as Escrituras. A exortação não é fruto de capricho ou opinião pessoal do presbítero, mas do reto ensino das Escrituras. Sua exortação está fundamentada no reto ensino da verdade.

(3) O presbítero precisa demonstrar habilidade na apologética. Paulo diz que o presbítero precisa ser “[...] poderoso [...] para convencer os contradizentes”. Somente um indivíduo que tem destreza na verdade pode confrontar os falsos mestres, combater os falsos ensinos e convencer aqueles que contradizem a Palavra de Deus.

Essas são as qualificações dos líderes espirituais na igreja local. Deve-se notar que nada se diz sobre proezas físicas, realizações educacionais, posição social ou habilidade nos negócios. Uma pessoa simples pode ser presbítero qualificado pela boa reputação espiritual e o seu caráter notório. O verdadeiro pastor está profunda e vitalmente envolvido na vida espiritual da igreja pelo ensinamento, exortação, encorajamento, repreensão e correção.

2. Crentes, porém, problemáticos. “Porque há muitos desordenados, faladores, vãos e enganadores, principalmente os da circuncisão”(Tt 1:10).

Depois de falar dos atributos dos verdadeiros mestres, Paulo passa a descrever as características dos falsos mestres. Havia muitos falsos mestres, especialmente os da circuncisão, ou seja, os judaizantes. Paulo menciona duas facetas desses falsos mestres:

- Eles eram desordenados [insubordinados] (1:10). Os falsos mestres eram rebeldes e falastrões. Enquanto os presbíteros se colocavam debaixo da autoridade das Escrituras, eles se insurgiam contra ela e faziam isso com palavras insolentes e vazias. Os falsos mestres se negavam a obedecer à sã doutrina e à liderança constituída da igreja.

- Eles eram enganadores (1:10). A vida deles era errada e a doutrina deles era falsa. Suas palavras não produziam nenhum benefício espiritual. Ao contrário, privavam as pessoas da verdade e as induziam ao erro. Em vez de levar os homens à verdade, esses falsos mestres os faziam afastar-se dela. Em vez de firmar as pessoas na fé, os desviavam dela. Os principais encrenqueiros eram “os da circuncisão”, isto é, os mestres judeus que professavam ser cristãos e ainda assim insistiam em que os cristãos deveriam ser circuncidados e observar os ritos judaicos para poder ser salvo. Tratava-se da negação prática da autossuficiência da obra de Cristo.

Aos quais convém tapar a boca; homens que transtornam casas inteiras, ensinando o que não convém, por torpe ganância” (Tt 1:11).  

Paulo, aqui, trata da influência dos falsos mestres referido no versículo anterior. Esses falsos mestres eram itinerantes que saíam de casa em casa espalhando o veneno letal de sua falsa doutrina, tentando embaraçar os novos convertidos com seu falacioso e enganoso ensino. Segundo Hernandes Dias Lopes, o ensino desses falsos mestres era fundamentalmente transtornador em vez de ser transformador. Eles não buscavam os pagãos nem queriam fazer discípulos entre os que viviam perdidos na mais tosca imoralidade (cf Tt 1:12), mas iam atrás daqueles que haviam abraçado a fé cristã para desviá-los da sã doutrina. Andavam de casa em casa, ensinando suas heresias, interessados não na vida espiritual das pessoas, mas no seu dinheiro. Eles usavam a religião para encher o próprio bolso. O vetor desses falsos mestres era o dinheiro e o lucro. Não eram pastores do rebanho, mas lobos que procuravam devorar as ovelhas. Homens como esses era preciso “tapar a boca”. Eles deviam aprender que a igreja não é uma democracia anarquista e que há limite na liberdade de expressão. Eles tinham pervertido “casas inteiras”. Isso sugere que eles estavam sorrateiramente propagando doutrinas perniciosas. Esse é o método preferido das seitas (2Tm 3:6). Ainda hoje as seitas heréticas seguem a mesma trilha.

III. A PERCEPÇÃO DA PUREZA PARA OS PUROS E PARA OS IMPUROS

1. Tudo é puro para os puros (Tt 1:15). “Todas as coisas são puras para os puros; todavia, para os impuros e descrentes, nada é puro. Porque tanto a mente como a consciência deles estão contaminados”.

Este versículo nada tem a ver com as coisas pecaminosas em si e condenadas na Bíblia. Este provérbio deve ser entendido à luz do contexto. Pelo contexto, percebemos que Paulo aplica essa declaração aos alimentos e devemos ter cuidado para não generalizar. William MacDonald diz que estaremos em apuros se retirarmos do contexto as palavras “todas as coisas são puras para os puros” e as tomarmos como uma declaração de verdade absoluta em todas as áreas da vida.

Paulo não estava falando de questões de moralidade concreta, de coisas inerentemente certas ou erradas. Ele estava discutindo questões moralmente neutras, coisas que eram corrompidas para o judeu que vivia sob a lei, mas perfeitamente legítimas para um cristão que vivia debaixo da graça. O exemplo, comer carne de porco era proibido ao povo judeu do Antigo Testamento, mas o Senhor Jesus mudou tudo quando disse que nada que entra no homem pode contaminá-lo (Mc 7:15). Ao dizer isso, ele considerou puros todos os alimentos (Mc 7:19). Paulo ecoou essa verdade ao afirmar: “Não é a comida que nos recomendará a Deus, pois nada perderemos, se não comermos, e nada ganharemos, se comermos” (1Co 8:8).

Quando Paulo diz: “Todas as coisas são puras para os puros”, ele quer dizer que para o cristão nascido de novo todos os alimentos são puros, mas “para os impuros e descrentes nada é puro”. Não é o que o homem come que o contamina, mas o que são de seu coração (Mc 7:20-23). Se a vida interior do homem é impura, se ele não tem fé no Senhor Jesus, nada é puro para ele.

Muitas pessoas têm inescrupulosamente usado esse texto para justificar comportamentos reprováveis, vendo, ouvindo e manuseando coisas vergonhosas. O cristão que se entrega a práticas eróticas pecaminosas e diz que são puras porque seu coração é puro usa a Palavra de Deus como desculpa para pecar. Pedro refere-se a isso ao afirmar que “deturpam as Escrituras para a própria destruição deles” (2Pedro 3:16).

2. Conhecem a Deus, mas o negam com as atitudes (Tt 1:16). “Confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras, sendo abomináveis, e desobedientes, e reprovados para toda boa obra”.

Aqui, Paulo diz que os falsos mestres, ou seja, os judaizantes, professam conhecer a Deus, entretanto, o negam por suas obras. Eles apresentam-se como cristãos, mas a prática não condiz com a confissão. Para ampliar sua sagaz repreensão, o apóstolo os denuncia como “abomináveis, desobedientes e reprovados para toda boa obra”. O comportamento deles era abominável.

Segundo William Macdonald, cada crente deve representar o Senhor Jesus aqui na Terra, devendo ser uma cópia do Salvador e mostrar Cristo ao mundo. Essa é uma tremenda responsabilidade.

Alguém disse que Deus tem um sobrenome. Ele foi chamado o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó. Ele não se sentia envergonhado de ser o Deus destes homens (Hb 11:16b). Como é que Deus se sentiria se tivesse o meu nome como o Seu sobrenome? É bom enfatizar que o crente está sob vigilância constante. Quando falamos do nosso Salvador e da vida que Ele nos oferece, tudo o que dizemos é filtrado através daquilo que os outros observam em nós.

A causa do Cristianismo tem sido mais prejudicada pelos seus seguidores do que pelos seus oponentes, porque o mundo compara frequentemente a profissão de fé de um cristão com a prática da mesma. Dizem, com uma certa razão, que se o Cristianismo é aquilo que nós defendemos ser, então as nossas vidas deveriam ser diferentes. Quantas vezes Cristo é difamado por “políticos cristãos” de linguagem vulgar, compromissos duvidosos, associações obscuras? É incalculável a desonra causada ao nome de Jesus.

Aqueles, dentre nós, que defendem o título de cristão, têm obrigação de agir em conformidade com ele. “É contraditório alguém dizer que crê, e agir como se não cresse”. “A nossa conduta revela a nossa fé e o nosso relacionamento com Deus”.

CONCLUSÃO

A Igreja é um organismo vivo, e é organizada. Assim sendo, é necessário que nela haja ordem e, por conseguinte, progresso, mesmo porque o seu arquiteto é o próprio Deus Todo-Poderoso – o qual não é de confusão, mas de ordem -, que a arquitetou antes mesmo da “fundação do mundopara que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor” (Ef 1:3,4). Todavia, é bom ressaltar que Jesus não fundou uma organização eclesiástica e nem estrutural. Ele criou um organismo vivo, com a Sua presença, em obediência a princípios divinos, a fim de prevalecer sobre o império das trevas e da maldade. Mas com o cresci­mento da Igreja, fez-se sentir a necessidade de haver uma estrutura organizacional administrativa e eclesiástica, de recrutar pessoas dedicadas para ajudarem nas tarefas espirituais e sociais da mesma. E onde há pessoas servindo deve haver quem as lidere, para que o seu serviço seja harmonioso e sem atropelos.

Fonte: ebdweb

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

10ª lição do 3º trimestre de 2015: O LÍDER DIANTE DA CHEGADA DA MORTE.


Texto Base: 2 Timóteo 4:6-17

 
“Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé” (2Tm 4:7).

 
INTRODUÇÃO

Na noite de 17 de julho de 64 d.C, um catastrófico incêndio estourou em Roma. O fogo durou seis dias e sete noites. Dez dos quatorze bairros da cidade foram destruídos pelas chamas vorazes. Pelo fato de dois bairros em que havia grande concentração de judeus e cristãos não terem sido atingidos pelo incêndio, Nero encontrou uma boa razão para culpar os cristãos pela tragédia. A partir daí a perseguição contra os cristãos tornou-se insana e sangrenta. Segundo estudiosos, faltou madeira na época para fazer cruz, tamanha a quantidade de cristãos crucificados. Os crentes eram amarrados em postes e incendiados vivos para iluminar as praças e os jardins de Roma. Outros, segundo o historiador Tácito, foram jogados nas arenas enrolados em peles de animais, para que cães famintos os matassem a dentadas. Outros ainda foram lançados no picadeiro para que touros enfurecidos os pisoteassem e esmagassem.

Na época em que explodiu essa brutal perseguição, Paulo estava fora de Roma, visitando as igrejas. Por ser o líder maior do cristianismo, tornou-se alvo dessa ensandecida cruzada de morte. Provavelmente, quando estava em Trôade, na casa de Carpo, foi preso pelos agentes de Nero e levado a Roma para ser jogado numa masmorra úmida, fria e insalubre. Foi dessa prisão que Paulo escreveu a epístola de 2Timóteo. É digno de destaque que, nesta epístola, Paulo não pede oração para sair da prisão nem expressa expectativa de prosseguir em seu trabalho missionário. O idoso apóstolo está convencido de que a hora de seu martírio havia chegado. Paulo não estava pesaroso com a partida, pois suas dores e sofrimentos, certamente, foram esquecidos, diante da certeza de que fez um bom trabalho e que cumpriu a missão para qual fora designado pelo Senhor.

Para o apóstolo Paulo a morte não era uma tragédia. Para ele, morrer era partir para estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor (Fp 1:23). Ele desejava, preferencialmente, estar com o Senhor - “Desejamos, antes, deixar este corpo, para habitar com o Senhor”(2Co 5:8). Somente aqueles que têm o Espírito Santo como penhor (2Co 5:5) podem ter essa confiança do além-túmulo. O penhor do Espírito é uma garantia de que caminhamos não para um fim tenebroso, mas para um alvorecer glorioso; caminhamos não para a morte, mas para a vida eterna, para habitação de uma mansão permanente. Aqueles que vivem sem essa garantia se desesperam na hora da morte. Na verdade, eles caminham para um lugar de trevas, e não para a cidade iluminada; caminham para um lugar de choro e ranger de dentes, e não para a festa das bodas do Cordeiro; caminham para o banimento eterno da presença de Deus, e não para o bendito lugar onde Deus armará seu “tabernáculo” para sempre conosco. Para o verdadeiro cristão, “o viver é Cristo, e o morrer é lucro”(Fp 1:21).

I. A CONSCIÊNCIA DA MORTE NÃO TRAZ DESESPERO AO CRENTE FIEL

A morte é a situação mais difícil que o ser humano pode enfrentar. Ela é o terrível legado que herdamos dos nossos primeiros pais, que desobedeceram ao Criador no Éden (Gn 2:15-17; 3:19; Rm 5:12). É o pagamento indesejado que o ser humano recebe por ter pecado (Rm 6:23). É o fim para o qual o ser humano caminha a passos largos (Ec 12:1-7). Mais do que isso, é o inimigo implacável que vem no encalço do ser humano para, no inevitável dia do encontro, deixá-lo prostrado (Lc 12:20). É o último inimigo a ser aniquilado (1Co 15:26). Contudo, para o crente fiel, a morte é “lucro”(Fp 1:21).

Que avaliação o apóstolo Paulo faz de sua jornada, agora, no crepúsculo da vida, a caminho do patíbulo? Se esse bandeirante do cristianismo fosse examinado pelas lentes da teologia da prosperidade, seria um fracasso. O maior pregador, missionário, teólogo e plantador de igrejas da história do cristianismo, está velho, jogado numa masmorra, pobre, cheio de cicatrizes, abandonado no corredor da morte. O grande apóstolo dos gentios está sozinho num calabouço romano, sem dinheiro, sem amigos, sem roupas para enfrentar o inverno, sofrendo as mais amargas privações. Como esse homem se sente? Como ele avalia seu passado, seu presente e seu futuro?

Destacamos alguns pontos fundamentais acerca da atitude do apostolo Paulo no momento em que se viu no corredor da morte. Em 2Timóteo 4:7,8, ele faz uma profunda análise do seu ministério e, antes de fechar as cortinas da sua vida, abre-nos uma luminosa clareira com respeito a seu tempo presente, passado e futuro. Diz o velho bandeirante da fé:

6. Porque eu já estou sendo oferecido por aspersão de sacrifício, e o tempo da minha partida está próximo.

7. Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé.

8. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda.

1. Serenidade diante da morte (2Tm 4:6). Mesmo estando na antessala da morte e no corredor do martírio, Paulo não usa palavras de revolta nem de lamento. Ele estava consciente e sereno. O veterano apóstolo sabe que vai morrer. Mas não é Roma que tirará a sua vida; é ele quem vai oferecê-la. E ele não vai oferecê-la a Roma, mas a Deus. Paulo compara sua vida com um sacrifício e uma oferta para Deus. Ele disse: “Porque eu já estou sendo oferecido por aspersão de sacrifício, e o tempo da minha partida está Próximo” (2Tm 4:6). Aqui, ele usa a figura da libação, um rito comum na religião judaica, para expressar sua disposição de dar sua vida pelo evangelho e pela igreja. No judaísmo, a libação era o derramamento de vinho ou azeite sobre a oferta do holocausto (cf. Ex 29:40,41; Nm 15:5,7,10; 28:24). Não era uma oferta pelos pecados, mas uma oferta de gratidão ao Senhor. O Rev. Hernandes Dias Lopes, citando Hans Burki, diz que a libação não era o sacrifício propriamente dito. Pelo contrário, era derramada sobre o animal a ser sacrificado (Nm 15:1-10). Paulo, portanto, entendia sua morte como oferenda derramada sobre o sacrifício da igreja (Fp 2:17) e derramada no mais verdadeiro sentido sobre o holocausto [sacrifício total] do Messias Jesus (Rm 8:32).

O grande avivalista americano do século 19, Dwight L. Moody, na hora da morte, disse às pessoas que o cercavam: - “Afasta-se a Terra, aproxima-se o Céu, estou entrando na glória”. O médico e pastor galês, Martyn Lloyd-Jones, depois de uma grande luta contra o câncer, disse para os seus familiares e paroquianos: - “Por favor, não orem mais por minha cura, não me detenha da glória”. O crente fiel comporta-se de forma sereno diante da morte.

2. A certeza da missão cumprida (2Tm 4:7). Paulo está passando o bastão para o seu filho Timóteo, mas, antes de enfrentar o martírio, relembra como havia sido sua vida: um duro combate. A vida para Paulo não foi uma feira de vaidades nem um parque de diversões, mas um combate renhido. O Rev. Hernandes Dias Lopes, citando Hans Burki, diz que Paulo lutou contra poderes sombrios da maldade; contra Satanás; contra vícios judaicos, cristãos e gentílicos; contra hipocrisia, violência, conflitos e imoralidades em Corinto; contra fanáticos e desleixados em Tessalônica; contra gnósticos e judaizantes em Éfeso e Colossos; e, não por último - no poder do Espírito Santo —, contra o velho ser humano dentro de si mesmo, tribulações externas e temores internos. Acima de tudo e em todas as coisas, porém, lutou em prol do evangelho - a grande luta de sua vida, seu bom combate. O apóstolo poderia morrer tranquilo porque havia concluído sua carreira, e isso era tudo o que lhe importava (At 20:24). Mas ele também deixa claro que nessa peleja jamais abandonou a verdade nem negou a fé. Não morre bem quem não vive bem. A vida é mais do que viver, e a morte é mais do que morrer, diz Hernandes Dias Lopes.

3. Paulo olhou para o futuro com esperança (2Tm 4:8). A gratidão do dever cumprido, associada à serenidade de saber que estava indo para a presença de Jesus, dava a Paulo uma agradável expectativa do futuro. Mesmo que o imperador o condenasse à morte e o tribunal de Roma o considerasse culpado, o reto e justo Juiz revogaria o veredito de Nero, considerando-o sem culpa e dando-lhe a coroa da justiça. Como num brado de triunfo diante do martírio, Paulo proclama: “Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda”.

Segundo William Macdonald, “a coroa da justiça é a grinalda que será dada aos cristãos que mostrarem justiça em seu serviço”. Nos jogos atléticos romanos, os vencedores recebiam uma coroa de louros. Símbolo de triunfo e honra, era o prêmio mais cobiçado da antiga Roma. Provavelmente, Paulo estava se referindo a isso quando falou de uma coroa. Esperando por Paulo, guardada para ele, estava uma recompensa: a coroa da justiça. Paulo receberia a sua recompensa do Senhor, justo Juiz. A recompensa de Paulo lhe seria dada no Dia da volta do Senhor. Esta coroa da justiça, esta recompensa, não será somente para Paulo. Ela está prometida a “todos os que amam a vinda de Jesus”. Que grande incentivo para Timóteo, para os crentes leais da sua igreja, e para todos os crentes em todos os tempos. Seja o que for que venhamos a enfrentar – desânimo, perseguição, ou morte -, nós sabemos que a nossa recompensa está com Cristo, na eternidade.

II. O SENTIMENTO DE ABANDONO

Paulo, certamente, foi a maior expressão do cristianismo. Viveu de forma superlativa e maiúscula. Pregador incomum, teólogo incomparável, missionário sem precedentes, evangelista sem igual. Viveu perto do Trono, mas ao mesmo tempo foi açoitado, preso, algemado e desolado. Tombou como mártir na terra, mas foi recebido como príncipe no Céu. Não foi poupado dos problemas, mas triunfou no meio deles. Como bem disse o rev. Hernandes Dias Lopes, o Céu não é aqui. Aqui não pisamos tapetes aveludados nem caminhamos em ruas de ouro, mas cruzamos vales de lágrimas. Aqui não recebemos o galardão, mas bebemos o cálice da dor.

1. O clamor de Paulo na solidão. “Procura vir ter comigo depressa. Porque Demas me desamparou, amando o presente século, e foi para Tessalônica; Crescente, para a Galácia, Tito, para a Dalmácia. Só Lucas está comigo...” (2Tm 4:9-11).

Paulo, já idoso, anseia ter a companhia do jovem pastor Timóteo. Por isso, ele pede que Timóteo se esforce para chegar logo a Roma. O apóstolo sente-se profundamente solitário na prisão em Roma. Ele estava numa cela fria, necessitado de um ombro amigo. Ele, então, roga para que Timóteo vá depressa ao seu encontro. Pede para ele vir antes do inverno (2Tm 4:21), pois nesse tempo era impossível navegar. Roga a Timóteo que leve também Marcos. O gigante do cristianismo está precisando de gente amada a seu lado, antes de caminhar para o patíbulo. Sua comunhão com Deus não o tornava um super-homem. Dentro do seu peito, batia um coração sedento por relacionamento.

a) Demas o desamparou. Paulo passou a vida investindo na vida das pessoas e, na hora em que mais precisou de ajuda, foi abandonado e esquecido na prisão. Ser esquecido pelos que antes foram colegas na evangelização deve ser uma das mais amargas experiências no serviço cristão.Demas era amigo de Paulo, irmão na fé e parceiro de trabalho. Mas agora Paulo estava na prisão, os cristãos eram perseguidos e o clima politico era claramente desfavorável a eles. Em vez de ansiar pela vinda do Senhor, Demas preferiu amar o presente século e assim abandonou Paulo e foi para Tessalônica. Provavelmente o temor pela segurança pessoal, o levou a se tornar desleal.

Demas é mencionado apenas três vezes no Novo Testamento (Cl 4:14; Fm 24; 2Tm 4:10). Na primeira vez, era um cooperador; na segunda vez, seu nome é apenas mencionado; e, na última vez, ele é apresentado como um desertor. Começou bem a carreira, mas a encerrou mal.Hendriksen diz que o verbo [desamparou] usado por Paulo implica que Demas não apenas deixou o apóstolo, mas o deixou numa situação difícil. Demas foi atacado pela covardia naquele tempo de terror. Ele foi seduzido de volta ao mundo pelo amor ao dinheiro. Os momentos de adversidade revelam aqueles que realmente são amigos sinceros.

b) Só o médico amado ficou com Paulo. “Só Lucas está comigo...”.  Lucas era o único a manter contato com Paulo em Roma. Deve ter significado muito para o apóstolo ter o estímulo espiritual e a habilidade profissional desse grande homem de Deus. A presença de Lucas com Paulo na sua segunda prisão é um tocante testemunho da lealdade desse companheiro. Lucas já havia acompanhado Paulo em sua viagem a Roma e em sua primeira prisão (At 27). Paulo o chamara de médico amado (Cl 4:14) e colaborador (Fm 24). Feliz é o obreiro que no final da sua lida tem um amigo, como Lucas, para estar ao seu lado. Lucas escreveu tanto o Evangelho que leva seu nome como o livro de Atos.

2. A serenidade dos últimos dias. “Quando vieres, traze a capa que deixei em Trôade, em casa de Carpo, e os livros, principalmente os pergaminhos” (2Tm 4:13).

Paulo precisava de amigos para a alma, livros para a mente e cobertura para o corpo. Ele tinha necessidades físicas, mentais e emocionais. As prisões romanas eram frias, insalubres e escuras. Os prisioneiros morriam de lepra e de outras doenças contagiosas. O inverno se aproximava, e Paulo precisava de uma capa quente para enfrentá-lo. Segundo estudiosos, essa “capa” era uma roupa externa grande, sem mangas, feita de uma única peça de tecido pesado, com um buraco ao meio por onde se passava a cabeça. Servia de proteção contra o frio e a chuva. Paulo tinha deixado a sua “capa” na casa de um homem chamado Carpo, aparentemente onde ele havia se hospedado, em uma de suas visitas a Trôade (provavelmente não a visita mencionada em Atos 20:6, pois esta tinha ocorrido vários anos antes).

Paulo também precisava de livros (feitos de papiro) e pergaminhos (feitos de peles). Estava no corredor da morte, mas queria aprender mais. Paulo precisava de amigos, de roupas e de livros. Precisava de provisão para a alma, a mente e o corpo. Essa atitude de Paulo é um eloquente testemunho de que o homem de Deus, quando está seguro no Senhor, não teme a morte ou quaisquer outras circunstâncias adversas.

3. Preocupações finais com o discípulo. “Alexandre, o latoeiro, causou-me muitos males; o Senhor lhe pague segundo as suas obras. Tu, guarda-te também dele, porque resistiu muito às nossas palavras” (2Tn 4:14,15).

Aqui, Paulo alerta Timóteo a respeito de “Alexandre, o latoeiro”. Paulo não dá nenhuma descrição de Alexandre, senão sua profissão. Ele trabalhava com cobre. O apóstolo também não descreve quais foram esses muitos males. Segundo estudiosos, Alexandre pode ter testemunhado contra Paulo no seu julgamento, causando desta forma muitos males ao apóstolo. Os informantes eram uma das grandes maldições de Roma naquela época. Buscavam obter favores e receber recompensas em troca de informações. Isso levou alguns historiadores a afirmar que foi Alexandre, o latoeiro, quem traiçoeiramente delatou Paulo, resultando em sua segunda prisão e consequente martírio. Alexandre se tornou inimigo do mensageiro [Paulo] e também da mensagem [evangelho]. Perseguiu o pregador e resistiu à pregação. Possivelmente, esse Alexandre morava em Trôade, onde Paulo fora preso, e, por isso, o apóstolo exorta a Timóteo que, ao passar por Trôade para pegar seus pertences, se guardasse desse malfeitor.

- “o Senhor lhe pague segundo as suas obras”. Quando Paulo diz estas palavras, não está expressando um espírito vingativo contra Alexandre, mas apenas entregando seu julgamento nas mãos de Deus, a quem pertence esse direito.

“O crente fiel sempre vai encontrar pessoas difíceis em sua caminhada, por isso, precisa estar preparado para lidar com toda a sorte de gente, boas e más”.

III. A CERTEZA DA PRESENÇA DE CRISTO

1. Sozinho perante o tribunal dos homens (2Tm 4:16). “Ninguém me assistiu na minha primeira defesa; antes, todos me desampararam. Que isto lhes não seja imputado”.

Paulo se arriscou pelos outros; mas ninguém compareceu em sua primeira defesa para estar a seu lado ou falar a seu favor. Nem Lucas, “o médico amado”, se encontrava na cidade, quando Paulo compareceu a audiência.

Segundo Hernandes Dias Lopes, mais perturbador que o frio gelado que se avizinhava pela chegada do inverno, era a geleira da ingratidão que Paulo tinha de suportar no apagar das luzes de sua jornada na terra. John Stott argumenta que, se Alexandre, o latoeiro, falou com deliberada malícia contra Paulo e o evangelho, os amigos de Paulo, em Roma, deixaram completamente de falar, e seu silêncio não se devia à malícia, mas ao medo. O verdadeiro amigo é aquele que chega quando todos já se foram. É aquele que está ao nosso lado, pelo menos para confortar-nos com o bálsamo do silêncio.

O verdadeiro amigo não nos abandona na hora da aflição. Jó fez uma dramática descrição desse abandono na hora de necessidade (Jó 19:13-16):

13. Pôs longe de mim a meus irmãos, e os que me conhecem deveras me estranharam.

14. Os meus parentes me deixaram, e os meus conhecidos se esqueceram de mim.

15. Os meus domésticos e as minhas servas me reputaram como um estranho; vim a ser um estrangeiro aos seus olhos.

16. Chamei a meu criado, e ele me não respondeu; cheguei a suplicar com a minha boca.

“Podem os amigos e companheiros nos abandonar nos momentos difíceis, mas Deus é fiel e jamais nos deixa sozinho”.

2. Sentindo a presença de Cristo (2Tm 4:17). “Mas o Senhor assistiu-me e fortaleceu-me, para que, por mim, fosse cumprida a pregação e todos os gentios a ouvissem; e fiquei livre da boca do leão”.

Paulo foi vitima do abandono dos homens, mas foi acolhido e assistido por Deus. Assim como Jesus foi assistido pelos anjos no Getsêmani enquanto seus discípulos dormiam, Paulo também foi assistido por Deus na hora de sua dor mais profunda.

O Rev. Hernandes Dias Lopes, citando Warren Wiersbe, escreve: Quando Paulo ficou desanimado com os coríntios, o Senhor foi até ele e o encorajou (At 18:9-11). Depois de ser preso em Jerusalém Paulo voltou a receber a visita e o estimulo do Senhor (At 23:11). Durante a terrível tempestade em que Paulo estava a bordo de um navio, mais uma vez o Senhor lhe deu forcas e coragem (At 27:22-26). Agora, naquela horrível prisão romana, Paulo voltou a experimentar a presença fortalecedora do Senhor, que havia prometido: “De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei” (Hb 13:5).

Deus não nos livra do vale, mas caminha conosco no vale. Deus não nos livra da fornalha, mas nos livra na fornalha. Deus não nos livra da cova dos leões, mas nos livra na cova dos leões. Às vezes, Deus nos livra da morte; outras vezes, Deus nos livra através da morte. Em toda e qualquer situação, Deus é o nosso refúgio.

3. Palavras e saudações finais (2Tm 4:18). “E o Senhor me livrará de toda má obra e guardar-me-á para o seu Reino celestial; a quem seja glória para todo o sempre. Amém!”.

Segundo Willian Macdonald, ao afirmar que o Senhor o livraria de toda má obra, o apóstolo Paulo não quis dizer que seria definitivamente liberto da execução. Ele sabia que a hora de sua morte se aproximava (cf. 2Tm 4:6). O que, então, ele quis dizer? Sem dúvida, que o Senhor o livraria de fazer qualquer coisa que maculasse seus últimos dias de testemunho. O Senhor o livraria de se retratar, de negar o nome de Jesus, de covardia ou de qualquer outra forma de colapso moral ou espiritual. Além disso, Paulo estava seguro de que o Senhor o levaria salvo para o seu “reino celestial”, ao Céu.

Numa última oportunidade de encorajar o jovem pastor Timóteo diante de tantas lutas, Paulo diz: “O Senhor Jesus Cristo seja com o teu espírito. A graça seja convosco”. Matthew Henry está correto ao dizer que nada nos deve deixar mais felizes que ter o Senhor Jesus Cristo com o nosso espírito; porque nele todas as bênçãos espirituais estão resumidas.  

A epístola de 2Timóteo não foi endereçada apenas ao pastor Timóteo; foi escrita a toda a igreja de Éfeso e consequentemente a nós, hoje. No último versículo, Paulo passa do singular – “o Senhor seja com o teu espírito” -, para o plural – “a graça seja convosco”. A presença do Senhor e a graça do Senhor nos bastam.

Assim como a graça, que é melhor que a vida, foi suficiente para Paulo e a igreja de Éfeso no passado, seja também nosso alento hoje, para prosseguirmos preservando o evangelho, sofrendo pelo evangelho, permanecendo no evangelho e pregando o evangelho. “Amém!”.

CONCLUSÃO

Paulo tinha consciência de que a morte física aniquilaria apenas o seu corpo, mas seu espirito e sua alma (o homem interior — 2Co 4:16) estavam guardados em Cristo Jesus. Um servo de Deus que se pauta pela obediência ao Senhor, vivendo em santidade, e fazendo a vontade divina, não se desespera, mesmo ante a iminência do dia final.

Fonte: ebdweb