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segunda-feira, 11 de abril de 2016

3ª lição do 2º trimestre de 2016: JUSTIFICAÇÃO, SOMENTE PELA FÉ EM JESUS CRISTO


Texto Base: Romanos 4:17-22

“E não duvidou da promessa de Deus por incredulidade, mas foi fortificado na fé, dando glória a Deus” (Rm 4:20).

 

INTRODUÇÃO

A Justificação é uma das gloriosas bênçãos da Salvação ao lado da Regeneração, da Adoção e da Santificação. A causa meritória desta justificação é a maravilhosa graça de Deus. A Justificação é o processo pelo qual a culpa do homem é transferida para Jesus, que já a pagou através de Seu sacrifício expiatório da cruz, e pode cobrir o homem com sua justiça. É por isto que Paulo diz: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é....”. O homem justificado não é um homem “reformado”, mas, é um novo homem. Este novo homem é visto por Deus como se nunca tivesse pecado. A Justificação não deixa resíduos dos pecados dantes cometidos. Isto por causa daquele “...que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que, nele, fossemos feitos justiça de Deus” (2Co 5:21).

I. A JUSTIFICAÇÃO MANIFESTADA (Rm 3:21-26)

21. Mas, agora, se manifestou, sem a lei, a justiça de Deus, tendo o testemunho da Lei e dosProfetas,

22. isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos e sobre todos os que creem; porque não há diferença.

23. Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus,

24. sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus,

25. ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus;

26. para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus.

1. Um culpado que é inocentado. Paulo diz em Romanos 3:21: “Mas, agora, se manifestou, sem a lei, a justiça de Deus, tendo o testemunho da Lei e dos Profetas”. O Rev. Hernandes Dias Lopes afirma que este texto de Romanos apresenta a mais gloriosa adversativa das Escrituras –Mas...”. Depois de provar a tese de que todos os seres humanos, de todas as raças, de todas as culturas, de todos os credos e de todos os estratos sociais - tanto gentios como judeus - são culpados diante de Deus; depois de mostrar que os efeitos da queda não trouxeram apenas alguns arranhões, mas lançaram todos os homens, indistintamente, num estado de depravação total; depois de colocar todos os homens sob a maldição e a condenação da lei, o apóstolo Paulo abre os portais da graça e aponta o caminho da salvação em Cristo, revelando que a salvação é urna obra exclusiva de Deus por meio de Cristo. Depois da longa e escura noite, raiou o sol, amanheceu um novo dia e o mundo foi inundado de luz. William Hendriksen diz que Deus, então, arrancou o homem do maior mal para dar-lhe o maior bem. O termo “justiça”, no texto supra, traduz a palavra grega dikaiosyne, muito comum no contexto de um tribunal. A imagem é de alguém que é inocentado por um juiz, mesmo sendo culpado pelos seus atos. Podemos concluir, então, que, mesmo culpados, Deus quis nos justificar e perdoar.

2. Um prisioneiro que é libertado (Rm 3:24) – “sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus”. Neste texto de Romanos 3:24, Paulo usa a expressão “redenção”. A justificação é feita mediante a redenção que há em Cristo Jesus (Rm 3:24). Ao morrer por nós, Cristo abre a oportunidade de nos libertar do pecado. Jesus pagou o preço da nossa salvação e, por isso, nos comprou a liberdade. Este ato é conhecido por “redenção”, ou seja, “o ato de remir”, o “resgate”, ou seja, “o ato de livrar (algo) de ônus por meio do pagamento”, o “ato de comprar para libertar”. Por isso, o apóstolo Pedro nos lembra que não fomos comprados com ouro, mas com o precioso sangue de Jesus (1Pd1:18,19). Como fomos comprados por Cristo, libertamo-nos do jugo do pecado e, por isso, não mais estamos sob condenação, alcançamos a justificação.

A Bíblia declara que não poderíamos ser redimidos sem o sacrifício de Cristo (Hb 9:22; Lv. 17:11). Na Cruz do Calvário, quando ele declarou “está consumado”(João 19:30), o preço da redenção estava pago, a Justiça de Deus estava satisfeita. A punição exigida pela Justiça de Deus estava concretizada sobre Jesus. Agora, nEle o homem podia ser justificado.

3. Um Inocente que é culpado (Rm 3:25). “Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus”.

Ao descrever como Deus nos proveu com uma justiça imerecida, Paulo faz referência ao sistema sacrificial do Antigo Testamento (veja Lv 17:11). No Dia da Expiação, celebrado no décimo dia do sétimo mês (Lv 16:29,30), os israelitas não poderiam fazer qualquer trabalho além de jejuar. Era o dia em que o sumo sacerdote ingressava no Santo dos Santos para fazer “…expiação sobre ele pelas vossas gerações” (Ex 30:10). O sangue do animal sacrificado era levado para dentro do lugar santíssimo. Ao lançar o sangue sobre o propiciatório, que era a tampa da arca, o sumo sacerdote estava fazendo expiação “…pelo santuário por causa das imundícias dos filhos de Israel e das suas transgressões, segundo todos os seus pecados...” (Lv.16:16). Isto era necessário para que Deus se mantivesse presente no meio do povo, para que houvesse comunhão entre Deus e Israel, apesar dos pecados cometidos. Era um sacrifício que deveria ser renovado anualmente, porque o pecado era apenas “coberto”, ou seja, era uma maneira de se manter precariamente a apresentação do homem diante de Deus, enquanto não viesse a “semente da mulher”, que reabilitaria a amizade de Deus com o homem.

Deus propôs Cristo Jesus como “propiciação”. Uma “propiciação” é algo que satisfaz a justiça de Deus, afasta sua ira e permite que ele demonstre misericórdia com base num sacrifício aceitável. Ao fazer com que Jesus fosse a propiciação pelos nossos pecados, Deus mostra-se favorável para com os homens. Jesus morreu em nosso lugar, derramou Seu sangue na cruz do Calvário, para que o homem pudesse, novamente, ter livre acesso a Deus, pudesse alcançar o perdão dos seus pecados e a sua justificação.

Jesus morreu pela humanidade, apesar de nunca ter pecado e não merecer, por isso, a pena decorrente da prática do pecado. Mas ao se entregar pela humanidade, Cristo tornou-se a propiciação pelos pecados de todos os homens e, mediante esta obra, podemos alcançar o favor divino. Jesus aplacou a ira de Deus de modo definitivo. O sangue de animais não justificava o homem, apenas adiava a execução da justiça de Deus. Cristo, porém, foi muito mais longe quando fez “propiciação” por nossos pecados, pois, não apenas encobriu-os, mas removeu-os completamente. Portanto, se o Senhor Jesus Cristo não oferecesse o sacrifício perfeito não haveria salvação para nenhum homem. Tanto judeus como gentios deveriam se conscientizar dessa realidade. Ninguém poderia ser libertado da escravidão do pecado sem o sacrifício vicário de Cristo (Ef 2:1-5). Pelo sacrifício do Cordeiro Imaculado, Deus teve satisfeita a Sua justiça (Is 53:11) e, portanto, pode, agora, distribuir este favor conquistado por Cristo, mediante a propiciação, obtida pelo Seu sacrifício único no Calvário, a todos os homens que crerem, isto é, que aceitarem que o único caminho pelo qual nós nos chegamos a Deus é através do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

II. A JUSTIFICAÇÃO CONTESTADA (Rm 3:27-31)

27. Onde está, logo, a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não! Mas pela lei da fé.

28. Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, sem as obras da lei.

29. É, porventura, Deus somente dos judeus? E não o é também dos gentios? Também dos gentios, certamente.

30.Se Deus é um só, que justifica, pela fé, a circuncisão e, por meio da fé, a incircuncisão,

31. anulamos, pois, a lei pela fé? De maneira nenhuma! Antes, estabelecemos a lei.

1. A justificação se opõe à salvação meritória (Rm 3:27,28) – “Onde está, logo, a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não! Mas pela lei da fé. Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, sem as obras da lei”.

Os judeus se vangloriavam na lei e na circuncisão. Julgavam-se melhores que os outros homens. Aplaudiam a si mesmos e presunçosamente se orgulhavam de sua justiça pessoal. No entanto, uma vez que a justificação é obra de Deus, e não do homem; e uma vez que ela é recebida pela fé, e não pelo mérito das obras, cessa qualquer possibilidade de vanglória pessoal. Não existe provisão para o orgulho na salvação pela graça. Não há nenhum crédito ou mérito em nos lançarmos à misericórdia de Deus em Cristo.

A maioria das religiões prescreve deveres específicos que devem ser executados para tornar uma pessoa aceitável perante Deus. O cristianismo é único ao ensinar que as boas obras que realizamos não nos tornam justos perante Deus. Nenhuma quantidade de realizações humanas ou progresso no desenvolvimento pessoal eliminará a distância entre a perfeição moral de Deus e o nosso imperfeito desempenho diário. Portanto, não existe base para o orgulho. As boas obras são importantes, mas elas não nos darão a vida eterna. Somos salvos somente pela confiança no que Deus fez por nós através de Jesus Cristo (cf. Ef 2:8-10).

2. A justificação se opõe ao orgulho nacionalista (Rm 3:29). Outra indagação que Paulo procura responder é a seguinte: “É, porventura, Deus somente dos judeus? E não o é também dos gentios? Também dos gentios, certamente” (Rm 3:29).

Esse é outro ponto que contrastava com a crença do judaísmo do primeiro século: o exclusivismo. Os judeus tinham consciência da sua relação especial de aliança com Deus (Rm 3:2; 9:4,5), na qual os gentios não tinham parte. Foi aos judeus que Deus confiou a sua revelação especial (Rm 3:2); deles também, como Paulo mais tarde relatará, é “a adoção de filhos; deles é a glória divina, as alianças, a concessão da lei; a adoração no templo e as promessas”, isso sem mencionar “os patriarcas” e “a linhagem humana de Cristo”(Rm 9:4). O que os judeus haviam esquecido é que os seus privilégios não visavam a exclusão dos gentios, mas sim a inclusão definitiva destes, quando através da posteridade de Abraão “todos os povos da terra” fossem abençoados. Essa aliança com Abraão foi cumprida em Cristo. Ele é a semente de Abraão e através dele a bênção da salvação estende-se agora a todo o que crê, sem exceção ou distinção.

A doutrina da justificação pela fé exclui não apenas qualquer possibilidade de vanglória, mas também qualquer forma de elitismo e discriminação. Deus não é uma divindade tribal ou monopólio de um povo. Ele é o Deus único, vivo e verdadeiro, que estabeleceu um único meio de salvação, a fé em Cristo, e isto tanto para os judeus como para os gentios.

Olhando para o Calvário talvez possamos entender porque o Cordeiro de Deus foi imolado entre dois malfeitores – “Onde o crucificaram, e, com ele, outros dois, um de cada lado, e Jesus no meio” (João 19:18). Não podia ser só Jesus? Não podia ser três, quatro, cinco? Às vezes, eram crucificados dezenas de malfeitores de uma só vez. Certamente, aqueles dois condenados não seriam executados naquele dia, por ser véspera da Páscoa. Mas, ali, estava Jesus e mais dois. Seria por que ele estava sendo oferecido em sacrifício em favor de dois povos existentes na terra - Judeus e Gentios? Perceba que Jesus estava no centro - equidistantes de ambos. Ali estava acabando o privilégio dos Judeus. Nesta nova dispensação não há mais diferença entre Judeu e Gentio. Jesus está à mesma distância de ambos. Os privilégios são iguais.

3. A justificação se opõe ao antinomismo (Rm 3:31) – “anulamos, pois, a lei pela fé? De maneira nenhuma! Antes, estabelecemos a lei”. “Antinomismo – argumentação que se desenvolve por meio de antinomias”. Antinomia – “contradição entre duas leis ou princípios; oposição recíproca”.

Paulo enxerga de antemão a crítica judaica, e levanta uma questão válida: “anulamos, pois, a lei pela fé?”. Ele mesmo responde: “de maneira nenhuma! Antes, estabelecemos a lei”.

A lei e a fé não são antagônicas. Não estão em oposição uma à outra. A fé não anula a lei, nem a lei dispensa a fé. A lei cumpriu o seu propósito preparando o caminho para a fé. A função da lei é expor e condenar o pecado e trancar o pecador no calabouço da culpa até que Cristo venha libertá-lo através da fé. Assim, a fé justifica aqueles a quem a lei condena. Pela fé nós alcançamos uma justiça perfeita, a justiça de Cristo a nós imputada (2Co 5:21). Quem transgride a lei pode se valer do pagamento feito por Cristo em seu lugar. Assim, o evangelho da salvação pela fé confirma a lei ao asseverar que suas exigências máximas foram e devem ser cumpridas.

III. A JUSTIFICAÇÃO EXEMPLIFICADA (Rm 4:1-25)

Para comprovar que a justificação se faz pela fé em Cristo Jesus e não pela lei ou pelas obras humanas, o apóstolo toma como exemplo o caso de Abraão, de cuja descendência biológica o judeu se orgulhava. O apóstolo mostra que Abraão, o pai fundador de Israel, foi justificado não por suas obras (Rm 4:4-8), nem por sua circuncisão (Rm 4:9-12), nem pela lei (Rm 4:13-15), mas pela fé. Abraão foi justificado diante de Deus porque creu em Deus e isto lhe foi imputado por justiça, como nos afirma Gênesis 15:6. Em consequência, Abraão é agora "o pai de todos os que creem", sejam eles judeus ou gentios (Rm 4:11,16-25). A imparcialidade divina é evidente.

Por que Paulo escolheu Abraão como exemplo da justificação pela fé no Antigo Testamento? Primeiro, porque foi o ancestral, o pai da nação de Israel; segundo, porque os rabinos ensinavam que Abraão havia sido justificado por suas obras de justiça. Os rabinos citavam Gênesis 22:15-18 e 26:2-5 para provar que Deus havia abençoado Abraão por causa da sua obediência. Os rabinos, contudo, não percebiam que esses versículos se referiam à vida de obediência de Abraão depois de sua justificação (Gn 15:6).

O exemplo de Abraão mostra que a justificação pela fé é o único meio pelo qual Deus garante a salvação, tanto no Antigo como no Novo Testamento, tanto para os judeus como para os gentios. É, portanto, um erro acatar a tese de que no Antigo Testamento as pessoas eram salvas pelas obras, e no Novo Testamento, pela fé, ou que hoje a missão cristã deve limitar-se aos gentios, com base no pressuposto de que os judeus têm a sua forma distinta de salvação. Como bem diz o Rev. Hernandes Dias Lopes, a justificação não é uma conquista humana, mas uma dádiva divina; não resulta do mérito, é obra da graça. A justificação não é o que recebemos por mérito próprio, mas o que recebemos pelos méritos de Cristo. A salvação não é um troféu que ostentamos como prêmio do nosso mérito, mas um dom que recebemos apesar do nosso demérito.

1. Abraão foi justificado pela fé, não pelas obras (Rm 4:1-8). Neste texto de Romanos, o apóstolo Paulo toma o exemplo de Abraão para fazer um contraste entre a justificação pela fé e pelas obras. Segundo o Rev. Hernandes Dias Lopes, a justificação pelas obras coloca a glória da salvação no homem e não em Deus. A pretensa e tola ideia da justificação pelas obras exalta o homem e dá a ele o direito de se gloriar por causa da sua própria salvação. Essa vã pretensão faz do homem o autor de sua própria salvação. Se Abraão tivesse sido justificado pela obediência às obras da lei, teria tido motivo de gloriar-se, mas não diante de Deus. Nenhum pecador pode ostentar seus troféus diante do trono de Deus. Nenhum pecador pode achegar-se à presença de Deus com arrogância. Aqueles que aplaudem a si mesmos e se ostentam de seus pretensos méritos jamais serão justificados. A vanglória diante de Deus é a mais consumada loucura, a mais repudiada tolice.

Paulo cita, também, o rei Davi como exemplo de que a pessoa é justificada pela fé, não pelas obras (Rm 4:6-8). Paulo cita as palavras de Davi do salmo 32:1,2: “Bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada, e cujo pecado é coberto. Bem-aventurado o homem a quem o SENHOR não imputa maldade, e em cujo espírito não há Engano”. O que Paulo viu nesses versículos? Em primeiro lugar, observou que Davi não menciona obras; o perdão diz respeito à graça de Deus, e não aos esforços humanos. Em segundo lugar, observou que Deus justifica o ímpio. Davi adulterou com Bate-Seba, mandou matar seu marido e escondeu seu pecado (2Sm 11:1-27). Se fosse julgado por suas obras, seria condenado; se fosse tratado segundo seus méritos, receberia a morte, e não o perdão. Porém, em vez de condená-lo, Deus o perdoa. Em vez de atribuir-lhe culpa, atribui-lhe justiça; em vez de expor seu pecado, cobre-o; em vez de deixá-lo viver esmagado pela culpa, oferece-lhe gratuitamente a bem-aventurança do perdão e da justificação. A graça de Deus é a causa de tudo isso.

2. Abraão foi justificado pela fé, não pela circuncisão (Rm 4:9-12). De acordo com a doutrina rabínica, Deus perdoa somente um indivíduo circuncidado no Juízo Final. Certamente, os leitores de Paulo teriam dificuldades extremas com esse texto. Por isso, ele inicia uma nova rodada de explicações. O apóstolo Paulo recorre mais uma vez à experiência de Abraão para mostrar que não era o caso. Em romanos 4:10, Paulo mostra que Abraão foi justificado (Gn 15:6) antes de ser circuncidado (Gn 17:24). Se o pai do povo de Israel foi justificado estando ainda incircunciso (Gn 4:10), é preciso perguntar: “Por que outros incircuncisos não podem ser justificados? ”.

Concordo com o Rev. Hernandes Dias Lopes quando diz que Abraão foi justificado quando ainda era gentio, fato que abre precedente para a justificação dos gentios de forma absolutamente dissociada da circuncisão. Assim, a circuncisão não foi a causa instrumental de Abraão, mas apenas um sinal exterior em sua carne de que ele havia sido justificado pela fé. A circuncisão constituiu, em essência, o símbolo exterior da aliança entre Deus e o povo de Israel. Além de ser um sinal, a circuncisão foi um selo, a saber, o selo da justiça da fé que Abraão teve quando ainda era incircunciso. O sinal aponta para a existência do que representa. O selo autentica, confirma, certifica ou garante a autenticidade do que é representado. A circuncisão confirmou que Abraão havia sido considerado e tratado por Deus como um homem justo pela fé. A circuncisão era o selo da justiça que Abraão recebeu com base na fé.

Uma vez que foi justificado antes de ser circuncidado, Abraão pode ser o pai de outros incircuncisos, ou seja, dos gentios que creem. Esses podem ser justificados da mesma forma que Abraão foi: pela fé.

Há uma diferença entre ser descendente de Abraão e filho de Abraão. Jesus disse aos fariseus: “Bem sei que sois descentes de Abraão” (João 8:37), mas prosseguiu: “Se sois filhos de Abraão, praticai as obras de Abraão” (João 8:39). Assim, Paulo insiste em que o elemento essencial não é a circuncisão física, mas a fé no Deus vivo.

Em resumo, houve um momento na vida de Abraão em que ele teve fé antes de ser circuncidado e outro momento em que ele teve fé e foi circuncidado. Assim, na visão perspicaz de Paulo, tanto os gentios que creem quando os judeus que creem podem chamar Abraão de pai e identificar-se com ele como seus filhos.

3. Abraão foi justificado pela fé, não pela lei (Rm 4:13-17a). Segundo John Stott, Abraão não poderia ter sido justificado pela lei, porque esta só foi dada 430 anos depois do patriarca (Gl 3:17). Logo, Abrão não poderia ter sido justificado por uma lei que não conhecia nem havia sido dada ao povo ainda. O lapso de tempo entre Abraão e a dádiva da lei constitui-se um argumento irresistível contra a pretensão dos judeus que pregavam a justificação pela observância da lei. Além deste argumento, Stott diz que a salvação não se destina apenas aos judeus da circuncisão, mas também aos gentios da incircuncisão. Abraão não é apenas o pai dos judeus circuncisos, mas também dos crentes gentios incircuncisos. Segundo Stott, "somente o Evangelho da graça e da fé pode unir, abrindo a porta para os gentios e igualando todo mundo aos pés da cruz de Cristo” (Rm 3:29).

4. Abraão foi justificado pela fé em Deus, não pela fé na fé (Rm 4:17b-22). Até aqui, aprendemos com Paulo que a fé veio antes das obras, da circuncisão e da lei. Agora, ele mostrará que essa fé não é mero assentimento intelectual nem sentimento vago, mas confiança robusta no Deus Criador, no Deus da ressurreição. A tese de Paulo em Rm 4:17-22 não é simplesmente a fé, mas o objeto da fé. A fé só faz sentido porque Deus, como seu objeto, é digno de confiança. A natureza da fé é crer em Deus apenas com base em sua Palavra. O bom senso pode até dizer: não acontecerá; a razão pode dizer: não pode ser; mas a fé diz: pode ser e será, porque me foi prometido.

Segundo Hernandes Dias Lopes, Abraão creu em Deus, antes que na promessa; apegava-se a quem fizera a promessa, mais que àquilo que havia sido prometido; Deus lhe importava acima de tudo. Sua fé não foi nem um cálculo das probabilidades de execução nem uma apreciação das vantagens a fruir. Abraão atentou somente para aquele que falara. Desta forma, o apóstolo Paulo aborda aqui o objeto da fé, o Deus que comunica vida aos mortos e o caráter da fé, pois Abraão creu contra a esperança (Rm 4:18).

Hernandes Dias Lopes, citando John Stott, diz que a fé de Abraão estava ancorada em dois atributos divinos: seu poder e sua fidelidade.

- Em primeiro lugar, a fé precisa estar estribada no poder de Deus (Rm 4:17b-19). O Deus em quem Abraão creu é o Deus que vivifica os mortos (o Deus da ressurreição) e o Deus que chama à existência as coisas que não existem (o Deus da criação). Do nada ele tudo criou; da morte ele trouxe a vida. John Stott diz que o nada e a morte não são problemas para Deus. Ao contrário, foi a partir do nada que ele criou o universo e foi da morte que ele ressuscitou a Jesus. A criação e a ressurreição foram e continuam sendo as duas mais significativas manifestações do poder de Deus. Quando Deus revitalizou o corpo de Abraão para gerar e o corpo de Sara para conceber, isso foi uma espécie de ressurreição. Quando dessa dupla morte Deus trouxe Isaque à existência, isso foi uma espécie de criação. Esse é o tipo de Deus em quem Abraão creu.

- Em segundo lugar, a fé precisa estar estribada na fidelidade de Deus (Rm 4:20-22). Abraão creu que o Deus que ressuscita os mortos e traz à existência as coisas que não existem não pode faltar com sua promessa. Desta maneira, o poder e a fidelidade de Deus são as duas colunas que sustentam o edifício da fé. Por trás da promessa divina está seu caráter fiel. A fé ri das impossibilidades, pois olha para o Deus fiel que cumpre suas promessas.

5. Abraão foi justificado pela fé, não isoladamente, mas como exemplo de todos os que creem (Rm 4:23-25). Olhando para a justiça de Abraão mediante a fé, a Igreja compreende o chão em que ela própria foi plantada e do qual ela vive. Examinar como Deus justificou a Abraão no passado é conhecer como Deus nos justifica hoje. O registro bíblico da justificação de Abraão está nas Escrituras por nossa causa (Rm 4:23,24). O modo pelo qual Deus justificou Abraão é o mesmo pelo qual Deus nos justifica. Abraão é "nosso pai", pai de todos nós, crentes de todos os tempos; sua fé é a nossa; o que dele se diz é válido ao nosso respeito. Abraão creu no Deus que faz viver os mortos e que do nada faz despontar a existência. Tal é também o Deus da nossa fé, pois ele ressuscitou o nosso Senhor Jesus dentre os mortos.

CONCLUSÃO

O homem é justificado pela fé em Cristo Jesus, graciosamente, mas essa justificação não se dá de forma automática. O homem precisa tomar posse de sua bênção, conforme afirmou Paulo: “Porque pela graça dois salvos, por meio da fé...”(Ef 2:8). Assim é que, no processo que envolve a Justificação, o Pai proveu a fonte, que é a Sua Graça; o Filho proveu a base da Justificação, que é o Seu Sangue; o Espírito Santo move o homem ao exercício da fé para alcançar sua bênção. É preciso entender que a base da Justificação não é a fé, mas, é o sangue do Cordeiro de Deus. A fé é o meio, e não o fim. A fé, em si mesma, não salva, quem salva é Jesus. A fé, em si mesma, não cura, quem cura é Jesus. A fé é o meio, é o mover do homem, é como uma mão que se estende para tomar posse da bênção. Se essa mão não se estender a bênção não é entregue, automaticamente.
Fonte: ebdweb - Luciano de Paula Lourenço

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