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sexta-feira, 27 de março de 2015

13ª lição do 1º trimestre de 2015: A IGREJA E ALEI DE DEUS

 
Texto Base: Mateus 5:17-20; Romanos 7:7-12

 
“Anulamos, pois, a lei pela fé? De maneira nenhuma! Antes, estabelecemos a lei” (Rm 3:31)

 

INTRODUÇÃO

Com esta Aula finalizamos o estudo do Decálogo, salientando que ele é um fundamento sólido sobre o qual podemos construir nossa vida moral; é uma moldura que continua sendo preenchida pelo andar diário no Espírito. Com relação ao Decálogo, Hans Ulrich afirma: (1)

O Decálogo é um modelo para o exercício de boas obras. As multiformes obras de misericórdia e diaconia, a defesa da honra, da propriedade e da vida do próximo, bem como as ações sociais, que visam o bem-estar social e comunitário, emanam das versões construtivas dos dez mandamentos. O cristão anda nas boas obras que Deus preparou de antemão para ele (Ef 2:10).

O Decálogo é um modelo para a vida abundante. Ele mesmo contém a promessa de bênção: “... faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos" (Ex 20:6; Dt 5:10). Repetidas vezes Deus promete Sua bênção aos que guardam diligentemente Seus mandamentos: "Agora, pois, ó Israel, ouve os estatutos e os juízos que eu vos ensino, para os cumprirdes, para que vivais..." (Dt 4:1). Levítico 26:3-13; Deuteronômio 5:33; 7:12-26; 28:1-14 também mostram as bênçãos decorrentes da obediência aos dez mandamentos. O profeta Isaías reconhece que, se tivesse dado ouvidos aos mandamentos do Senhor, o povo escolhido não teria passado pelo exílio, mas sim desfrutado da vida abundante. Então, a paz do Senhor seria como um rio e Sua justiça, como as ondas do mar (Is 48:18).

O Decálogo é um modelo para a transformação da sociedade. Ele não é apenas um modelo para o exercício de boas obras e um meio para a vida abundante, é também um modelo exemplar para a transformação da sociedade. A obediência simples ao Decálogo transforma as atitudes do homem para com seu próximo. Em vez de assassinar um inimigo pessoal, ele o abençoa; em vez de furtar, trabalha e ajuda ao necessitado; em vez de dizer falso testemunho, pratica e diz a verdade; em vez de roubar a mulher do próximo vive na pureza sexual e apoia o matrimônio monogâmico; em vez de cobiçar, faz atos de misericórdia. Em vez de guardar para si a fé e a experiência do senhorio de Cristo, o ser humano brilha como luz e penetra como sal neste mundo (Mt 5:14-16); não conserva este mundo na situação em que se encontra, mas transforma-o com o amor, a paz e a esperança de Deus. Não se conforma com a injustiça, a miséria e a desonestidade generalizada. É um exemplo de devoção e fidelidade a Cristo em seu lar, no trato com seus vizinhos, no exercício de boas obras, na profissão e nos deveres e responsabilidades civis, para que o reino do Senhor venha e Sua vontade seja feita tanto nos céus como na terra.

I. O QUE SIGNIFICA “CUMPRIR A LEI”?

“Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir” (Mt 5:17).  Aqui, o Filho de Deus está afirmando que veio a este mundo para cumprir a Lei com todas as suas 613 disposições, ordenanças e proibições. Ele conduziu a Lei ao seu final; ela está cumprida. Por que Ele o fez? Encontramos a resposta quando lemos o versículo inteiro: “Porque o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10.4). Jesus cumpriu a Lei para todos, mas Sua obra é eficaz apenas para todo aquele que crê.

Segundo Samuel Rindlisbacher, o Senhor Jesus, cabeça da Igreja (Ef 5:23), validou toda a Lei Mosaica, inclusive as 613 disposições, ordens e proibições, ao afirmar: “É mais fácil passar o céu e a terra do que cair um til sequer da Lei” (Lc 16:17). Ele avançou mais um passo, dizendo: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir” (Mt 5:17). Jesus, ao nascer, também foi colocado sob a Lei: “vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei” (Gl 4:4). Ele foi criado e educado segundo os preceitos da Lei, pois cumpria suas exigências. Todavia, foi essa mesma Lei que O condenou à morte. Quando tomou sobre Si todos os nossos pecados, teve de morrer por eles, pois a Lei assim o exige. Vemos que a Lei foi cumprida e vivida por Jesus, e através dEle ela alcançou seu objetivo. Por isso está escrito que “... o fim da Lei é Cristo” (Rm 10:4).

Quando sou confrontado com a Lei Mosaica, ela me apresenta uma exigência que devo cumprir. Deus diz em Sua Lei: “... eu sou santo...” e exige de nós: “... vós sereis santos...” (Lv 11:44-45). Assim, a Lei me coloca diante do problema do pecado, que não posso resolver sozinho. O apóstolo Paulo escreve: “... eu, todavia, sou carnal, vendido à escravidão do pecado” (Rm 7:14).

A lei expõe e revela nossa incapacidade de atender às exigências divinas, pois ela nos confronta com o padrão de Deus. Ela nos mostra a verdadeira maneira de adorá-lo, estabelece as diretrizes segundo as quais devemos viver e regulamenta nossas relações com nosso próximo. Além disso, a Lei é o fundamento que um dia norteará a sentença que receberemos quando nossa vida for julgada por Deus. Pela Lei, reconhecemos quem é Deus e como nós devemos ser e nos portar. Mas existe uma coisa que a Lei não pode: ela não consegue nos salvar. Ela nos expõe diante de Deus e mostra que somos pecadores culpados. Essa é sua função.

II. O SENHOR JESUS VIVEU A LEI

Deus enviou a sua Lei com os preceitos morais, civis e cerimoniais para ajudar as pessoas a amá-lo com seu coração e mente. Entretanto, na época de Jesus os lideres religiosos haviam transformado a Lei de Deus em confuso emaranhado de regras. Quando Jesus falou sobre nova forma de entender a Lei, Ele estava tentando fazer com que as pessoas se voltassem ao seu significado original. Jesus não falava contra a Lei, mas contra os danos e excessos aos quais ela havia sido submetida.

Os textos de Mateus 5:17,18 mostram a expressa e total obediência de Jesus à Lei do Antigo Testamento, pois a Lei não pode ser anulada. Jesus não veio como um rabino trazendo um ensino recém-elaborado, Ele veio como o Messias prometido com uma mensagem que fora transmitida desde o início dos séculos – “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim ab-rogar, mas cumprir”. Jesus completa e transcende a Lei. Ele viveu a Lei. Ele cumpriu todos os preceitos.

Quanto aos preceitos morais, o pr. Esequias Soares diz que os Dez Mandamentos são representados pelos dois grandes mandamentos: amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos (Mc 12:28-33). Na verdade, “desses dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas” (Mt 22:40). Trata-se de uma combinação de duas passagens da lei (Lv 19.18; Dt 6.4,5). São preceitos que foram resgatados na Nova Aliança e adaptados à graça, de modo que a Igreja segue a lei de Cristo, ou seja, a lei do amor, e não o sistema mosaico (Rm 6:14; 13:9,10;Gl 5:18).

Quanto aos preceitos cerimoniais, o Senhor Jesus cumpriu o sistema cerimonial da lei na sua morte (Lc 24:46). As instituições de Israel com suas festas, os holocaustos e os diversos tipos de sacrifícios da lei de Moisés eram tipos e figuras que se cumpriram em Cristo (Hb 5:4,5; 1Co 5:7). Assim, as cerimônias cessaram, mas o significado foi confirmado (Cl 2:17). 

Quanto aos preceitos civis, segundo o pr. Esequias Soares, Jesus cumpriu também o sistema jurídico da lei. Com sua morte, Ele transferiu os privilégios de Israel para a Igreja (1Pe 2:9,10). Jesus disse às autoridades judaicas que "o Reino de Deus vos será tirado e será dado a uma nação que dê os seus frutos" (Mt 21:43). Com isso, Israel deixou de ser um Estado Teocrático. A Igreja é a plataforma de Deus na Terra, a coluna e firmeza da verdade (1Tm 3:15).

Portanto, a Lei do Antigo Testamento deve ser agora interpretada e reaplicada à luz de Jesus. Deus não mudou de ideia e a vinda de Jesus fazia parte do plano de Deus para trazer novamente o ser humano ao status quo da Criação.

III. A LEI NÃO PODE SER REVOGADA

Jesus posicionou-se claramente a favor do código legal mosaico, pois disse: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os profetas; não vim para revogar, vim para cumprir” (Mt 5.17). “Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei sem que tudo seja cumprido” (Mt 5:18).

Entretanto, Ele rejeitou com veemência as ordenanças humanas e as obrigações impostas apenas pela tradição judaica (compiladas, posteriormente, no Talmude), afirmando: “Porque, deixando o mandamento de Deus, retendes a tradição dos homens, como o lavar dos jarros e dos copos, e fazeis muitas outras coisas semelhantes a estas. E dizia-lhes: Bem invalidais o mandamento de Deus para guardardes a vossa tradição. invalidando, assim, a palavra de Deus pela vossa tradição, que vós ordenastes. E muitas coisas fazeis semelhantes a estas” (Mc 7:8-10,13).

A maioria dos líderes revolucionários se desfaz de todas as ligações com o passado e repudiam a ordem tradicional em questão, mas o Senhor Jesus Cristo não. Ele sustentou a lei de Moisés e insistiu em que ela tinha de ser cumprida.

Jesus não veio para revogar a Lei ou os profetas, mas para cumprir. Ele deixou bem claro que nem um “jota” ou um “til” jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra. O “jota” é a menor letra do alfabeto hebraico; ocupa a metade da linha na escrita, é a décima letra e se chama iode; o “til” é um pequeno sinal diacrítico que serve para distinguir uma letra da outra. Jesus acreditava na inspiração literal da Bíblia, mesmo que fosse aparentemente um detalhe insignificante. Nada nas Escrituras, mesmo o menor “til”, existe sem significado.

“... até que o céu e a terra passem...”.  Jesus não só cumpriu a lei, mas “até que o céu e a terra passem” (significando até o fim do mundo) a lei não será modificada. Nem um jota ou um til se omitirá da lei, nem o menor traço de uma pena será colocado ao lado da lei de Deus. A afirmação de Jesus certifica a absoluta autoridade de cada palavra e letra da Escritura. Tudo o que foi profetizado na lei de Deus será cumprido, e os seus propósitos serão alcançados. Tudo se cumprirá.

E Jesus continua dizendo:

“Qualquer, pois, que violar um destes menores mandamentos e assim ensinar aos homens será chamado o menor no Reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no Reino dos céus “(Mt 5:19).

Notamos que Jesus antecipou uma tendência natural das pessoas de abrandar os mandamentos de Deus. As pessoas tendem a atenuar, racionalizar os significados. Mas aquele, pois, que violar um destes mandamentos, e ensinar outras pessoas a fazerem o mesmo, será considerado o menor no reino dos céus. O espantoso é que tais pessoas são permitidas no reino, mas devemos lembrar que a entrada no reino é determinada por sua obediência e fidelidade enquanto estiver na terra.

Como a Lei e os Profetas apontam na direção de Jesus e dos seus ensinos, aquele que os cumprir e ensinar será chamado grande no Reino dos céus. Aqueles que tratarem qualquer parte da Lei como “pequena” e, portanto, passível de ser infringida, serão chamados de “menores” e, provavelmente excluídos. Jesus explicou aos seus discípulos que os homens responsáveis pela transmissão da mensagem deveriam viver e ensinar cuidadosamente, levando em consideração a importância da Palavra de Deus, se quiserem realizar grandes conquistas para Ele.

IV. A LEI E O EVANGELHO

A lei não foi dada como meio de salvação (At 13:39; Gl 2:16,21; 3:11), mas com a intenção de mostrar ao povo sua pecaminosidade (Rm 3:20b; 5:20; 7:7; 1Co 15:56; Gl 3:19) e então encaminhá-lo a Deus para a graciosa salvação oferecida por ele. Foi dada à nação de Israel, apesar de conter princípios morais válidos para o povo de qualquer época (Rm 2:14,15). Deus testou Israel sob a lei como um exemplo da raça humana, e a culpa de Israel provou a culpa do mundo (Rm 3:19).

A lei tinha atrelada a ela a penalidade da morte (Gl 3:10); e a quebra de um mandamento tornava o homem culpado de todos (Tg 2:10), já que as pessoas tinham quebrado a lei, estavam sob pena de morte. A retidão e a santidade de Deus exigiam que a penalidade fosse paga. Foi por essa razão que Jesus veio ao mundo: para pagar a penalidade por meio da sua morte. Ele morreu como substituto para os transgressores da lei, apesar de ele mesmo não ser transgressor. Ele não deixou a lei de lado; pelo contrário, preencheu todas as exigências da lei cumprindo os mais rígidos requisitos mediante sua vida e morte. Assim, o evangelho não derruba a lei, mas a sustenta, e mostra como as exigências da lei foram totalmente satisfeitas pela obra redentora de Cristo.

Portanto, a pessoa que confia em Jesus não está mais sob a lei, está sob a graça (Rm 6:14). Ela está morta para lei por intermédio da obra de Cristo. A penalidade da lei deve ser paga uma única vez; já que Cristo pagou a pena, o crente não precisa pagá-la. É nesse sentido que a lei perdeu o brilho para o crente (2Co 3:7-11). A lei era um preceptor até a chegada de Cristo, mas, após a salvação, esse preceptor não é mais necessário (Gl 3:20,25).

No entanto, enquanto o crente não está sob a lei, isso não significa que ele está sem lei. Ele está atado por uma corrente mais forte que a lei, pois ele está sob a lei de Cristo (1Co 9:21). Seu comportamento está moldado não por temor à punição, mas por um desejo de agradar o Salvador. Cristo se tornou a lei da sua vida (João 13:15; 15:12; Ef 5:1,2; 1João 2:6; 3:16).

Uma pergunta comum numa discussão quanto à atitude do crente para com a lei é: “Devo obedecer aos Dez Mandamentos?”. A resposta é que certos princípios contidos na lei são de relevância duradoura. Sempre foi errado roubar, cobiçar ou assassinar. Nove dos Dez Mandamentos são repetidos no Novo Testamento, com uma distinção importante: não foram dados como lei (atrelados a uma penalidade), mas como treinamento para a justiça ao povo de Deus (2Tm 3:16b). O único mandamento não repetido é o preceito do sábado; os crentes nunca são ensinados a guardar o sábado (isto é, o sétimo dia da semana – sábado).

O ministério da lei para os que não são salvos ainda não cessou: “Sabemos, porém, que a lei é boa, se alguém dela se utiliza de modo legítimo” (1Tm 1:8). E seu uso legítimo é produzir o conhecimento do pecado e, assim, levar ao entendimento. Mas a lei não é para os que já são salvos: “não se promulga lei para quem é justo” (1Tm 1:9).

A justiça exigida pela lei é cumprida naqueles “que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Rm 8:4). De fato, os ensinamentos do Senhor no sermão do Monte estabeleceram um padrão mais elevado que o estabelecido pela lei. Por exemplo, a lei disse: “Não matarás”. Jesus, porém, disse: “Nem mesmo irai-vos”. Portanto, o sermão do Monte não apenas sustenta a lei e os profetas, mas os intensifica e os conduz implicações mais intensas (2) .

CONCLUSÃO

O nosso Senhor resumiu toda a lei ao dizer que o seu objetivo é levar os homens à plenitude do amor. Portanto, quer cumprir a Lei de Deus de todo coração? Ame! Contra o amor não há lei. Por quê? O amor é o cumprimento da lei. Em vez de decorarmos uma lista de "pode não pode", devemos fazer tudo baseado no amor divino, então cumpriremos a lei de Deus na íntegra.  Disse o apóstolo Paulo: “... tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. O amor não faz mal ao próximo; de sorte que o cumprimento da lei é o amor" (Rm 13:9,10).

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terça-feira, 17 de março de 2015

12ª lição do 1º trimestre de 2015: NÃO COBIÇARÁS



Texto Base: Êxodo 20:17; 1Rs 21:1-5,9,10,15,16

 
“De ninguém cobicei a prata, nem o ouro, nem a veste” (At 20:33)

 

INTRODUÇÃO

Nesta Aula trataremos a respeito do Décimo Mandamento: “não cobiçarás...” (Êx 20:17; Dt 5:21). A cobiça é um desejo forte, constante e insaciável; ela pode levar o homem a pisar no seu próximo para subir na vida, chegando a roubar e matar. Deus estabeleceu limites: Adão poderia comer do fruto de todas as árvores, exceto uma (Gn 2:16,17). Quando desejamos o que Deus proibiu, está caracterizada a cobiça. O Décimo Mandamento assevera: “Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo” (Ex 20:17).  Portanto, o direito do outro é um dos nossos limites.

I. O DÉCIMO MANDAMENTO

1. Abrangência. Este mandamento inibe a cobiça em geral. Especificamente, proíbe a cobiça da mulher, dos empregados, dos animais e de todos os bens materiais e ideais do próximo. A cobiça é um dos piores pecados, o pecado que não se vê, afirma Esequias Soares.

“Enquanto os mandamentos anteriores referem-se ao comportamento exterior e direto da pessoa, o Décimo Mandamento reporta-se ao comportamento subjetivo, íntimo e interior do indivíduo. Ou seja, este mandamento está relacionado ao que a pessoa pensa e sente quando da sua peregrinação existencial” (Ensinador Cristão).

Segundo pr. Esequias Soares, a subjetividade é a característica distintiva deste mandamento em relação aos outros, pois não é possível ser conhecido. Isso mostra que o Legislador divino é onisciente, pois Ele conhece o mais íntimo do coração humano, nossos desejos e intenções (1Rs 8:39; 1Cr 28:9; Jr 17:10; At 1:24). Deus se interessa não só pelos corretos atos concretos, não apenas pelo cerimonialismo na adoração, mas principalmente pela pureza de um coração sincero. Isso mostra o lado espiritual do Decálogo. A ideia central é não desejar aquilo que pertence ao outro.

O Senhor Jesus disse que é do mais íntimo do ser humano que procede todo o tipo de pecado: "Porque do interior do coração dos homens saem os maus pensamentos, os adultérios, as prostituições, os homicídios, os furtos, a avareza, as maldades, o engano, a dissolução, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Todos estes males procedem de dentro e contaminam o homem" (Mc 7:21-23). Essas palavras mostram a dura realidade: o que o ser humano realmente é, isso afeta o que ele diz (Mt 12:34, 35). Toda ação humana começa no seu coração (Tg 1:14, 15), afirma Esequias Soares.

2. Objetivo. “O propósito divino é estabelecer limites à vontade humana, para que haja respeito mútuo entre as pessoas e seus bens”. Quando Deus ordenou: "não cobiçarás" - não pretendia inibir os desejos do coração humano, mas, sim, orientar a nossa conduta para o bem. Aliás, os mandamentos não podem ser vistos como proibições, e sim, normas de vida que facilitam e aperfeiçoam a nossa caminhada.

3. Contexto. Quando Moisés passou as santas instruções do Senhor (Êx 20), ele apresentava um programa orientador para o povo que vivia no deserto e haveria de conquistar a terra prometida. Nesta nova terra, o povo enfrentaria situações novas, gente diferente e problemas diversos. Então, vem a Palavra do Senhor - "não cobiçarás" - como se lhes dissesse: "controlem os seus desejos", principalmente no que envolve os bens do próximo. Isto se aplica, com todas as letras, ao povo de Deus da Nova Aliança.

II. A COBIÇA

1. Significado. Segundo o Rev. Hans Ulrich Reifler, a palavra hebraica bíblica para "cobiça"(chamad), refere-se "aos sentimentos íntimos que revelam como intrigas para se apoderar dos bens do próximo". Já em grego, segundo o mesmo autor, há três palavras diferentes que traduzem a ideia da cobiça. A primeira é pleonexia, que significa o desejo incontrolável de possuir o mundo e seus bens materiais, poder, influência e prestígio. A segunda palavra é philarguria, que significa amor desordenado pelo mundo. Este termo expressa que o mundo é o objeto da cobiça, o ídolo do qual o homem cobiçoso não se pode separar. A terceira palavra grega no Novo Testamento é epithumia, que pode ser traduzida por cobiça, intenção impura, ambição, desejo intenso, desejo ardente, aspiração. Em síntese, estes termos indicam o desejo incontrolável de possuir o mundo e os seus bens materiais, poder, influência e prestígio, ou "o amor desordenado pelo mundo", "intenção impura", "desejo ardente".

O mundo em que vivemos é orientado por um estilo de vida materialista, hedonista e pragmatista, todavia, o Evangelho demanda de cada um de nós um estilo rigorosamente contrário ao mundano.

Gênesis 3:6 descreve as características principais da cobiça. A árvore da vida era boa para comer, agradável aos olhos e desejável para o entendimento. A cobiça estimula o paladar, influencia a vista e afeta a mente humana. Eva, ao receber esses três estímulos, cedeu à tentação e comeu o fruto proibido, dando-o também ao marido. O primeiro pecado do homem foi resultado da cobiça de Eva, por causa da beleza da árvore da vida.
A história do dilúvio mostra que o problema da multiplicação da maldade está na cobiça que nasce dos maus desígnios do homem – “Viu o SENHOR que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração (Gn 6:5).

2. Cobiçar. Originalmente, cobiçar é mais do que simplesmente desejar algo; frequentemente relaciona-se a tomar providências para se apossar de algo, planejando, arquitetando, almejando andar nos caminhos dos outros. É "desejar mais do que é suficiente". É o desejo excessivo de possuir aquilo que pertence a outrem. O Décimo Mandamento termina com as palavras: “nem coisa alguma do teu próximo”.

Existe o desejo legítimo e a cobiça. O primeiro refere-se ao suprimento das necessidades e, em alguns casos, um pouco mais, atingindo o nível do conforto; o segundo vai muito além, alcança o excesso e avança rumo ao proibido. Mas onde está a exata fronteira entre uma e outra coisa?  É difícil dizer onde o desejo correto se transforma em cobiça, assim como não podemos determinar com certeza a exata quantidade de comida que alguém precisa consumir. Cada indivíduo é capaz de reconhecer que a sua necessidade foi suprida e seu apetite saciado. Depois disso, o desejo torna-se cobiça. Disse o sábio Salomão: “Se achaste mel, come somente o que te basta, para que porventura não te fartes dele, e venhas a vomitar” (Pv 25:16).

3. A versão inibidora e crítica do Décimo Mandamento no Antigo e no Novo Testamento, segundo Hans Ulrich Reifler. (*)

a) No Antigo Testamento. Números 11:4 descreve a cobiça dos israelitas como um grande desejo: "E o populacho, que estava no meio deles, veio a ter grande desejo das comidas dos egípcios; pelo que os filhos de Israel tornaram a chorar, e também disseram: quem nos dará carne a comer?". É incrível como a cobiça pode ser tão forte, a ponto de levar as pessoas ao choro.

A queda moral do rei Davi, relatada em 2Samuel 11:1ss., mostra como o Décimo Mandamento afeta também o Sétimo e o Sexto Mandamentos. A cobiça por Bate-Seba levou o rei Davi ao adultério e ao homicídio premeditado.

O profeta Isaías ensina que a cobiça causa indignação a Deus, fazendo-O ferir o povo e se esconder (Is 57:17a). Infelizmente, o povo escolhido optou pelo caminho da cobiça. Contudo, mesmo mantendo essa rebeldia contra Javé, Ele deseja sará-los, guiá-los, consolá-los (Is 57:17b-18).

Jeremias refere-se às multiformes iniquidades de Jerusalém, que a conduzirão à queda (Jr 6:9ss.). Um desses pecados é a ganância generalizada entre crianças e adultos, e até entre líderes espirituais (profetas, sacerdotes). Novamente, a cobiça é vista em combinação com outros deslizes contra a lei moral de Deus. É a ganância que leva à falsidade (Jr 6:13). Mais tarde, o profeta prediz que, em consequência dessa ganância, as mulheres e os campos serão entregues a outros. Esta profecia trágica cumpriu-se literalmente com a invasão de Nabucodonosor, quando as mulheres judias foram violadas e a terra da promissão foi tomada.

Em Jeremias 22:17, o profeta vê como a ganância leva ao derramamento de sangue inocente, à violência e extorsão. Este círculo vicioso é indicado também por Miquéias, quando escreve que a cobiça leva à usurpação de campos e casas (Mq 2:2).

b) No Novo Testamento. Segundo Hans Ulrich, no Novo Testamento, a palavra predominante para cobiça é pleonexia, o desejo incontrolável de possuir o mundo, poder, influência, bens materiais. O apóstolo Paulo segue a tradição de Jesus (Mc 7:22) e encara a cobiça como um vício.

Além de vício (1Co 5:10,11; 6:10: Ef 5:5), a cobiça ou avareza é encarada também como característica dos gentios (Ef 4:19), idolatria (Cl 3:5) e prática herética (1Ts 2:5). Veja também o mesmo ensino confirmado pelo apóstolo Pedro em 2Pedro 2:3,14.

Jesus adverte repetidas vezes contra a cobiça, haja vista que o homem não vive só de seus bens materiais (Mt 5:28; 16:26; Mc 7:22; Lc 12:15).

Em Romanos 7:7, epithumia é o equivalente para a palavra hebraica chamad, usada no Décimo Mandamento. Parece que, para Paulo, a cobiça ou concupiscência é um pecado particularmente ruim (Rm 7:7,8). Ele também diz que o desejo ardente de comer carne, manifestado pelos israelitas no deserto, é um exemplo clássico de cobiça (compare 1Co 10:6 com Nm 11:4).

Para Tiago, a cobiça nasce no coração do homem e gera o pecado que, por fim, acaba levando à morte (Tg 1:14,15). A cobiça nem sempre leva aos resultados desejados: "Cobiçais, e nada tendes" (Tg 4:2).

III. A VINHA DE NABOTE

1. Proposta recusada. Acabe possuía riqueza e todo tipo de bens materiais, mas dirigiu seus olhos e sua cobiça à propriedade de subsistência de Nabote, seu vizinho. Seu desejo incontido desencadeou uma série de pecados: abuso de autoridade, acusação, falso testemunho, homicídio e roubo (1Rs 21). A proposta que Acabe fez a Nabote parecia justa, generosa e irrecusável, pois oferecia em troca uma outra vinha melhor, ou se desejasse, lhe daria em dinheiro o que ela valia. Acontece que o valor da vinha para Nabote ia para além das questões mercantilistas. Ele considerava aquela propriedade uma herança inegociável, e cuja venda implicaria em transgressão ao mandamento do Senhor (cf Lv 25:13-28 e Nm 36:7,9). Nabote procedeu corretamente. De acordo com o livro de Levitico, a terra pertencia ao Senhor (Lv 23:23). Assim sendo, Nabote não poderia vender aquilo que lhe fora dado como uma herança do Senhor. Diante da resposta e posicionamento de Nabote, a reação de Acabe foi de desgosto e indignação, pois o seu capricho não fora alcançado, o que desencadeou no rei uma crise emocional (1Rs 21:4). Mas, Acabe queria aquela propriedade a qualquer custo; aquele espaço de terra, era o seu objeto de maior desejo. Por ser rei, imaginava que podia atropelar a lei de Deus e emplacar injustiça social.

2. O direito de propriedade. A principal causa da cobiça de Acabe: o domínio incontrolado do “ter”, de “possuir”, aquilo que é do outro, neste caso a vinha de Nabote. Esta vinha era próxima ao palácio real, isto é, da casa de verão, e, aparentemente, Acabe, levado por um capricho, desejava transformá-la em um jardim.

Porém Nabote disse a Acabe: guarda-me o Senhor de que eu te dê a herança de meus pais” (1Rs 21:3). Entendemos pelo texto sagrado que aquela propriedade fora passada a Nabote por herança, o que fortalecia a convicção de Nabote de que ele não deveria vendê-la nem trocá-la por outra propriedade. É provável que Nabote tenha sido criado naquele terreno, dedicando-se com seus pais ao cultivo de uvas. Se Nabote tivesse feita essa venda ou trocada por outra vinha, ele teria transgredido não só uma tradição, como também a sua consciência (cf Lv 25:23-28; Num 36:7ss). Acabe reconhecia isso; ele era cônscio de que Nabote estava religiosamente obrigado a conservar a posse de sua terra e que essa obrigação não poderia ser contrariada. Entretanto, ele ainda assim queria essa área; ele estava totalmente dominado pela cobiça, qual um viciado de drogas; somente a casa de verão não lhe satisfazia, queria agora construir uma horta ao lado dela para que seus desejos pudessem ser realizados; não se importava em quebrar o mandamento divino “não cobiçarás” (Ex 20:17). Desta feita, o que fez Acabe diante da resposta negativa de seu súdito? Ficou entristecido, como uma criança mimada, e não quis se alimentar. O desejo despertado pela cobiça é tão poderoso que acaba por tornar-se ocupação única do cobiçoso. Acabe não desejava mais comer, ou fazer qualquer outra coisa (1Rs 2:4).

3. O pecado de Acabe e Jezabel. Acabe cobiçou a vinha de Nabote com tanta intensidade que não conseguiu mais comer, de tanto desgosto (1Rs 21:1-7). A mesma cobiça inflamou sua mulher Jezabel, causando o assassinato de Nabote (1Rs 23:8-16). Ao observar o estado em que se encontrava Acabe, Jezabel, sua mulher, procurou tomar conhecimento do que havia acontecido, o que lhe foi relatado pelo rei (1Rs 21.5-6). Diante do que ouviu, Jezabel, que já havia em outros episódios demonstrado a sua influência e força no reino, que tomava decisões sem pedir a aprovação do seu manipulável e omisso marido, possuidora de um temperamento difícil e cruel em suas deliberações, toma para si as dores de Acabe e declara: “governas tu, com efeito, sobre Israel? Levanta-te, come, e alegre-se o teu coração; eu te darei a vinha de Nabote, o jezreelita” (1Rs 21:7). Jezabel se coloca aqui como aquela que satisfará a cobiça de Acabe. Uma esposa sábia não adota tal postura, antes, aconselha o seu marido sobre os princípios do contentamento. Enfim, o desejo exacerbado e maligno de Acabe resultou no assassinato do obediente Nabote, resultando assim na inobediência a outro mandamento da lei moral de Deus: “não matarás” (Ex 20:13).

Novamente vemos que o pecado da cobiça pode conduzir o homem a atos criminosos. A quebra premeditada do Décimo Mandamento leva, mais cedo ou mais tarde, à quebra de outros mandamentos.

Atualmente, muitos líderes e irmãos caprichosos, que não se contentam com aquilo que possuem, e que acham que seus desejos precisam ser atendidos e satisfeitos por todos, estão dominados pela cobiça. Tenhamos cuidado, pois a cobiça é abominação ao Senhor (Dt 7:25); é a raiz de todos os males (Tg 4:15,15).

4. O fruto da cobiça. O fruto da cobiça de Acabe: assassinato do obediente Nabote. O pecado de Acabe envolveu várias pessoas, inclusive os anciãos e os nobres de Israel (1Rs 21:8), os quais sem temor e piedade co-participaram do plano maligno da esposa de Acabe. Como Acabe não se apossou imediatamente da vinha de Nabote, Jezabel continuou com seu plano diabólico. Sem escrúpulos, sem temor a Deus, sem piedade e sem misericórdia, Jezabel articula um plano onde Nabote seria vitimado por uma terrível calúnia. Usando o nome e o sinete de seu marido, ela escreveu cartas aos anciãos e aos nobres da cidade e que habitavam com Nabote, onde dizia o seguinte: “Apregoai um jejum e trazei Nabote para a frente do povo. Fazei sentar defronte dele dois homens malignos, que testemunhem contra ele, dizendo: Blasfemaste contra Deus e contra o rei. Depois, levai-o para fora e apedrejai-o, para que morra. Os homens da sua cidade, os anciãos e os nobres que nela habitavam fizeram como Jezabel lhes ordenara, segundo estava escrito nas cartas que lhes havia mandado. Apregoaram um jejum e trouxeram Nabote para a frente do povo. Então, vieram dois homens malignos, sentaram-se defronte dele e testemunharam contra ele, contra Nabote, perante o povo, dizendo: Nabote blasfemou contra Deus e contra o rei. E o levaram para fora da cidade e o apedrejaram, e morreu”.

“O maligno plano de Jezabel se reveste de um caráter espiritual, com direito a proclamação de um jejum e com o argumento de que Nabote teria blasfemado contra Deus (e contra o rei). É possível “espiritualizar” até a cobiça. Em nome de Deus, e com a máscara da falsa espiritualidade, muitas barbáries e injustiças foram e são realizadas sob a influência do “espírito de Jezabel”; muitas cobiças são alimentadas à custa da destruição de vidas, casamento e famílias” (pr. Altair Germano).

Nunca foi exposta a falsa acusação de blasfêmia levantada contra Nabote perante a assembleia dos anciãos e dos nobres. Este sincero israelita foi apedrejado de acordo com a lei (cf Lv 24:13-16), sob o testemunho de duas pessoas (falsas testemunhas, claro) que teriam presenciado a suposta ofensa (cf Dt 17:6,7). Com o assassinato de Nabote, Acabe se apropriou indevidamente da sua vinha.

É curioso ver que pessoas malignas não adoram ao Senhor nem o temem, mas não se furtam de usar o nome do Senhor para perverter o juízo e cometer atrocidades. Mas lembremo-nos de que Deus não se deixa escarnecer nem deixa seu nome ser usado em vão.

4. Consequência da cobiça de Acabe e Jezabel. Acabe e sua mulher Jezabel muito haviam irado o Senhor por causa da intensa idolatria e da quase substituição do Senhor por Baal como deus nacional do reino do norte. Entretanto, a morte de Nabote, planejada covardemente por Jezabel, motivada pela cobiça do rei Acabe, foi a “gota d’água” da ira de Deus. Por causa disto, Deus sentenciou toda a casa de Acabe à morte (1Rs 21; 2Rs 10:1-14). A sentença do julgamento de Acabe e Jezabel foi transmitida por Elias, o profeta:

Então, veio a palavra do SENHOR a Elias, o tisbita, dizendo: Levanta-te, desce para encontrar-te com Acabe, rei de Israel, que está em Samaria; eis que está na vinha de Nabote, aonde tem descido para a possuir. E falar-lhe-ás, dizendo: Assim diz o SENHOR: Porventura, não mataste e tomaste a herança? Falar-lhe-ás mais, dizendo: Assim diz o SENHOR: No lugar em que os cães lamberam o sangue de Nabote, os cães lamberão o teu sangue, o teu mesmo. E também acerca de Jezabel falou o SENHOR, dizendo: Os cães comerão Jezabel junto ao antemuro de Jezreel” (1Rs 21:18,19,23).

Acabe ainda se recusou a admitir seu pecado contra Deus; em vez de fazê-lo, acusou Elias de ser seu inimigo (cf 1Rs 21:20). É quase impossível que os que se tornam cegos pela cobiça e pelo ódio, enxerguem seus próprios erros.

Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isto também ceifará” (Gl 6:7).

CONCLUSÃO

Todo ato de cobiça além de reprovado por Deus, será também duramente punido por Ele. Assim como Nabote, os que são vitimados por causa de sua obediência a Deus, e diante da cobiça alheia, são por Ele devidamente justificados e vingados. Portanto, todos aqueles que de alguma maneira detém o poder e dele abusam para realizar propósitos pessoais e até malignos, sofrerão consequências desastrosas. De Deus ninguém zomba! A quem muito for dado muito será cobrado.  Pense nisso!

Fonte: ebdweb

terça-feira, 3 de março de 2015

10ª lição do 1º trimestre de 2015: NÃO FURTARÁS

 
Texto Base: ÊXODO 20:15; 22:1-9

“Aquele que furtava não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as mãos o que é bom, para que tenha o que repartir com o que tiver necessidade” (Ef 4:28).

 

INTRODUÇÃO

Dando continuidade ao estudo do Decálogo estudaremos nesta Aula o Oitavo Mandamento: “Não furtarás”.  Este mandamento apresenta nossa obrigação moral para com o próximo no tocante à propriedade; é uma proibição formal contra toda e qualquer forma de furto. Segundo Hans Ulrich Reifler, "não furtar" significa não possuir coisa alguma que não tenha sido obtida por meios lícitos e honestos. Ninguém nasce criminoso ou ladrão. Portanto, o problema principal da natureza do furto está nas atitudes corrompidas que levam a esta prática. Furtar não implica apenas na apropriação indevida de bens alheios, mas também na corrupção do coração do furtador. Por isso Jesus Cristo enfatizou que “do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias” (Mt 15:19).

I. O OITAVO MANDAMENTO

O Oitavo Mandamento pressupõe o direito individual de adquirir e administrar propriedades, mas visa evitar a subtração oculta do alheio, contra a vontade de seu dono legítimo.

Este Mandamento foi dado a Israel como preceito jurídico e religioso, mas no Novo Testamento o tema é espiritual, pois os ladrões e roubadores não herdarão o Reino de Deus (1Co 6:10).

1. Abrangência. Este mandamento abrange qualquer negócio com vantagem ilícita em detrimento de outrem. As três passagens principais da lei mosaica que tratam da apropriação indevida são: Êxodo 22:1-15, Levítico 19:35-37 e Deuteronômio 25:13-16. Mas o problema do furto é muito mais abrangente. O Antigo Testamento inclui várias modalidades de furto: o negócio frauduloso (Êx 22:9), o uso de duas medidas que talvez tenha sido a modalidade mais praticada (Lv 19:35-37; Dt 25:13-16; Am 8:5), o roubo de animais grandes e pequenos (Êx 22:1) e o arrombamento de casas (Êx 22:2).

Veja outras modalidades de furto: uso de violência para adquirir bens alheios; fraude comercial; medidas comerciais indevidas; negligência e falta de diligência no trabalho; exploração de preços e impostos; adulteração de produtos, preços, medidas e regras comerciais; apropriação indevida de comissões e gorjetas; suborno; desvio de verbas públicas; ágio e qualquer forma de desonestidade pessoal, comercial ou governamental.  O atraso propositado do pagamento do trabalhador bem como o uso de medidas viciadas era considerado como roubo (Lv 19:13; Dt 25:13-16). Diz o texto sagrado: “Não furtareis, nem mentireis, nem usareis de falsidade cada um com o seu próximo; Não oprimirás o teu próximo, nem o roubarás; a paga do jornaleiro não ficará contigo até à manhã” (Dt 19:11,13).

Os exemplos históricos mais conhecidos em Israel são o roubo dos ídolos domésticos praticado por Raquel (Gn 31:19,30), a história trágica de Acã (Jz 7:1-26) e a corrupção generalizada nos dias do profeta Oséias (Os 4:1,2).

2. Objetivo do Oitavo Mandamento. O propósito do Oitavo Mandamento é a proteção e o respeito pelos bens alheios e pelo próximo. Ninguém tem o direito de subtrair o que não lhe pertence. Nem mesmo o Estado pode lançar mão da propriedade alheia. O rei Acabe se apoderou ilegitimamente do campo de Nabote e tal atitude deixou Deus irado, por isso mandou o profeta Elias ditar o destino desse monarca com sua esposa Jezabel (1Rs 21:17-19).  

3. Contexto. O Oitavo Mandamento diz respeito a roubo de bens e, provavelmente, a sequestros. A ligação com o tráfico de pessoas se baseia na inferência de Êxodo 21:16: "E quem furtar algum homem e o vender; ou for achado na mão, certamente morrerá". Este preceito reaparece mais adiante, em Dt 24:7, que diz: “Quando se achar alguém que furtar um dentre os seus irmãos dos filhos de Israel, e com ele ganhar, e o vender, o tal ladrão morrerá, e tirarás o mal do meio de ti”. E o verbo hebraico gãnav("roubar, furtar"), que aparece no Oitavo Mandamento "não furtarás", é o mesmo usado nesses dois versículos. O pr. Esequias Soares escreveu: “Pessoas eram roubadas na antiguidade para serem vendidas como escravas, como aconteceu com José do Egito que foi vendido pelos próprios irmãos” (Gn 37:22-28). O próprio José disse: "De fato, fui roubado da terra dos hebreus" (Gn 40:35).

Mas o preceito se refere também a furto de bens materiais. O direito de propriedade é confirmado, e condena-se qualquer tentativa de se conseguir algo de graça. O mandamento combate a filosofia do “o que é seu é meu; logo, vou tomar isso de você”. Segundo Victor P. Hamilton, o antídoto contra o roubo aparece nas palavras de Paulo para a igreja de Filipos: “O meu Deus, segundo as suas riquezas, suprirá todas as vossas necessidades” (Fp 4:19), mas tal promessa cobre apenas necessidades, não ganância.

II. A VERSÃO INIBIDORA E CRÍTICA DO OITAVO MANDAMENTO (1)

1. No Antigo Testamento. Para evitar o furto e proteger o dono legítimo, a lei previa uma restituição que variava conforme o valor comercial do objeto ou animal roubado. Quem roubasse e matasse um boi precisava restituir seu valor cinco vezes; se fosse uma ovelha, deveria pagar quatro vezes (Êx 22:1). Se o animal fosse encontrado vivo, exigia-se apenas o dobro de seu valor, porque ele ainda era comerciável (Êx 22:4). A restituição por valores domésticos (roupas e joias) equivalia ao total do valor real (Êx 22:3). Se o criminoso não tivesse como pagar a restituição, ele deveria ser "vendido por seu furto" (Êx 22:3). Casos duvidosos eram levados aos juízes (Dt 22:8,9).

Na sexta visão de Zacarias, consta que outra consequência do furto é a expulsão (Zc 5:1-4); infelizmente, não sabemos a que tipo de expulsão o profeta se referia, mas provavelmente era a expulsão da comunhão viva com Javé, que implicava na morte física.

O furto de Acã foi qualificado por Javé como violação da aliança do Senhor (Js 7:15). O rei Salomão escreveu que "balança enganosa é abominação para o Senhor" (Pv 11:1); também chamou o roubo de pecado e o ladrão de companheiro da destruição (Pv 28:24). O profeta Jeremias também qualificou o furto como abominação (Jr 7:9,10).

2. No Novo Testamento. No encontro com o jovem rico, o Senhor Jesus faz valer a exigência moral do Oitavo Mandamento – “Jesus disse: Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho” (Mt 19:18).

O apóstolo Paulo reafirma a versão inibidora deste mandamento para a igreja de Roma: “... não furtarás... (Rm 13:9c). Outro exemplo de versão inibidora do Oitavo Mandamento no Novo Testamento é a exortação paulina aos efésios: "Aquele que furtava, não furte mais" (Ef 4:28a). Em sua carta pessoal a Tito (Tt 2:10), Paulo reafirma que o furto é errado.

O apóstolo Pedro se preocupava com os cristãos da Ásia para que não sofressem por causa da prática do furto – “Que nenhum de vós padeça como homicida, ou ladrão...” (1Pe 4:15).

III. A VERSÃO POSITIVA E CONSTRUTIVA DO OITAVO MANDAMENTO (2)

1. No Antigo Testamento. O Antigo Testamento contém muitas referências bíblicas que mostram a equivalência positiva do Oitavo Mandamento.

a) O respeito às propriedades alheias impede a cobiça descontrolada. Por isso a lei de Moisés diz que não se deve mudar os marcos fixados pelos antigos – “Não mudes os marcos do teu próximo, que os antigos fixaram na tua herança, na terra que o SENHOR, teu Deus, te dá para a possuíres” (Dt 19:14).

b) A confiança no Senhor. O homem que confia no Senhor e está convicto da suficiência de Deus não se deixa iludir facilmente pela confiança materialista. Isso não significa que o homem que confia no Senhor não trabalha, não se responsabiliza ou não se esforça para obter o sustento adequado com suas próprias mãos, mas, sim, que sua atitude está cheia de fé na justa provisão de Deus, que de fato faz prosperar quem nEle confia (Pv 28:25).

c) A honestidade comercial. Isto evita a apropriação ilegítima de coisas que não nos pertencem (majoração de preços acima do mercado, lucros excessivos, ágio e outras modalidades que prejudicam o consumidor). O peso integral e justo (Dt 25:15) evita o roubo. Comerciantes desonestos correm o risco de abreviar suas vidas, porque podem levar seus fregueses a reações incontroláveis.

d) A honestidade do trabalhador. Isto também contribui para diminuir e evitar furtos e roubos. O trabalho honesto nos sustentará e nos fará felizes e realizados: "Do trabalho de tuas mãos comerás, feliz serás, e tudo te irá bem" (Sl 128:2). Por isso, os incentivos econômicos do governo devem fortalecer a produção, gerar empregos e evitar a especulação. Os empregados devem ser diligentes e dóceis, mostrando obediência a seus patrões.

e) A justiça trabalhista. Salários humanos e justos não só reduzem a criminalidade urbana, mas também constituem um incentivo indispensável à produção e prosperidade de uma nação. O trabalhador satisfeito fará muito mais por sua empresa do que o funcionário oprimido. Os salários devem ser pagos em dia, no tempo certo (Dt 24:15a). O não cumprimento dessa medida é pecado (Dt 24:15b) e vai contra a justiça trabalhista.

2. No Novo Testamento. O Novo Testamento reafirma as versões positivas do Oitavo Mandamento que se encontram no Antigo Testamento.

a) A confiança na providência do Senhor. Essa versão positiva é salientada em Mateus 6:33, Filipenses 4:19. Essa confiança não é passiva: ela se expressa na busca, petição, oração e fé em Cristo.

b) Honestidade comercial. Em Tito 2:10, a honestidade comercial é qualificada como o contrário do furto e uma forma de ornar a doutrina de Deus - não defraudando; antes, mostrando toda a boa lealdade, para que, em tudo, sejam ornamento da doutrina de Deus, nosso Salvador”.

c) O trabalho honesto e assistência ao necessitado. O trabalho honesto como substituto positivo do furto é mencionado em Efésios 4:28: "Aquele que furtava, não furte mais: antes trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com que acudir ao necessitado". Parece que o apóstolo Paulo nos fornece aqui uma verdadeira terapia para recuperar um ladrão. Em vez de exigir sua expulsão ou morte, como no Antigo Testamento, Paulo lhe dá uma segunda chance: o trabalho honesto das próprias mãos para o autossustento e para acudir ao necessitado. O trabalho honesto e uma relação concreta com o necessitado formam, então, os dois pilares construtivos que vencem a tentação do furto.

IV. O TRABALHO (3)

Vinculado a Oitavo Mandamento está o trabalho como recurso para que cada um possa obter o sustento de sua família de maneira digna. É geralmente através do labor que se criam condições para adquirir terras, imóveis e móveis, e para movimentar uma conta bancária. "Aquele que furtava, não furte mais; antes trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com que acudir ao necessitado" (Ef 4:28). Vamos então verificar como o Antigo e o Novo Testamentos encaram o trabalho.

1. No Antigo Testamento. No Antigo Testamento, o trabalho é um mandato da criação. "Tomou, pois, o Senhor Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar" (Gn 2:15). O homem recebeu a ordem de cultivar e guardar a terra. O cuidado e a proteção do meio-ambiente (a preocupação ecológica) fazem parte do mandato da criação. A exploração econômica (cultivar) e a proteção ecológica (guardar) formam dois pilares fundamentais do trabalho humano dentro dos princípios da criação. Note bem: o que foi maldito não é o trabalho em si, mas a terra.

a) Todos devem trabalhar. "Seis dias trabalharás, mas ao sétimo dia descansarás, quer na aradura quer na sega" (Êx 34:21). Geralmente, usa-se este versículo para provar que o homem precisa descansar um dia por semana. Mas isso também indica que o homem deve trabalhar durante seis dias. Israel interpretou tal passagem como uma diretriz para o trabalho: a negligência e a preguiça não eram bem vistas (Pv 6:6-8); quem não cuidava de seus familiares era isolado da comunidade.

b) O trabalho traz satisfação. Embora o trabalho humano não esteja isento das consequências da queda (Gn 3:17-19), ele também traz satisfação: "Em todo trabalho há proveito (ou lucro)" (Pv 14:23a); e "pelo que vi não haver cousa melhor do que alegrar-se o homem nas suas obras, porque essa é a sua recompensa" (Ec 3:22). Pode-se questionar se esses versículos são aplicáveis numa situação de salários indignos e de opressão contra o trabalhador, mas, no período do Antigo Testamento, o principal trabalho era a lavoura ainda não mecanizada, e a justa distribuição das terras produtivas ajudou a diminuir as discrepâncias sociais em Israel. Tratava-se, portanto, de uma situação ideal. Mas isso não significa que, na intenção de Deus, o trabalho humano não deveria trazer satisfação.

c) Todo trabalho honesto é louvável. O Antigo Testamento menciona o trabalho remunerado (1Rs 5:7-18), o trabalho artístico (Êx 36:1,2), a atividade agrícola (Êx 22:1ss.), o trabalho espiritual (sacerdotes, levitas, profetas e alunos de profetas) e o trabalho musical (1Cr 6:31-48; 15:16; 25:7).

2. No Novo Testamento. O Novo Testamento não anula, mas alarga os princípios mencionados no Antigo Testamento.

a) Uma pessoa normal não pode viver na ociosidade. O trabalho é uma das demonstrações mais eloquentes da dignidade da pessoa humana. Quem, decididamente, se entrega ao ócio, e se deixa dominar pela preguiça, acaba doente. São estas pessoas as frequentadoras contumazes dos divãs dos psicanalistas, e dos consultórios dos psicólogos.

Paulo foi enfático: "Se alguém não quer trabalhar, também não coma" (2Ts 3:10). Dura é esta advertência do apóstolo contra aqueles cristãos de Tessalônica que se julgavam vocacionados para uma tarefa mais sublime do que a de sustentar os próprios familiares. Em 2Ts 3:14, Paulo chega a desaconselhar contatos sociais com pessoas que não querem trabalhar.

Portanto, uma pessoa normal não pode viver sem trabalhar, mesmo não precisando prover sua subsistência. É claro que muitos, embora desejando trabalhar, são impedidos, quer por incapacidade física, mental, ou social. Estes, em sendo necessário, devem ser ajudados pelo Serviço Social da Igreja, ou por algum “irmão”, em particular.

b) Cuide dos familiares. "Ora, se alguém não tem cuidado dos seus e especialmente dos de sua própria casa, tem negado a fé, e é pior do que o descrente" (1Tm 5.8). De acordo com este versículo, o cuidado pelos familiares prova a sinceridade da fé. Mas é preciso distinguir entre a cobiça e o sustento realmente necessário para a família. O cuidado pelos familiares é uma ordem divina, mas o desejo de possuir cada vez mais, que acaba negligenciando a comunhão viva no lar, é contraproducente e pode causar graves problemas emocionais e sociais.

c) Faça o trabalho com sinceridade. Em Colossenses 3:22, vemos que Paulo deseja que os escravos obedeçam em tudo a seus senhores segundo a carne, não servindo apenas sob vigilância, visando tão-somente agradar homens, mas com singeleza de coração, temendo ao Senhor. Hoje em dia, é impossível exigir que um empregado preste obediência cega a seu patrão, pois nossa situação industrial é totalmente diferente daquela do primeiro século da era cristã. As circunstâncias mudam, mas o princípio da sinceridade no trabalho é uma virtude que faz uma empresa conquistar seu espaço comercial para o bem-estar do empregador e do empregado.

d) Seja um empregador justo. Assim como o empregado tem suas responsabilidades específicas, o empregador é convidado a fazer sua parte a fim de que haja equidade e justiça para todos. Paulo orienta os chefes e os senhores: "... tratai aos servos com justiça e com equidade, certos de que também vós tendes Senhor no céu" (Cl 4:1). A posição de senhor obriga à justiça e equidade. O motivo para tal atitude é de caráter escatológico: eles também têm sobre si um Senhor que julgará seus atos no dia final.

e) O trabalho secular e as tarefas espirituais são conciliáveis. Jesus era carpinteiro e, ao mesmo tempo, rabino e o Filho do Deus altíssimo. Paulo era fabricante de tendas e apóstolo dos gentios. Pedro era pescador e apóstolo dos judeus. Lídia era vendedora de púrpura e testemunha fiel de Cristo. Conclui-se, portanto, que o Novo Testamento não favorece uma dicotomia inconciliável entre o trabalho secular e as tarefas espirituais.

O cristão não é motivado a trabalhar apenas por razões econômicas: em última análise, tudo o que o cristão faz ele o faz para o Senhor (Cl 3:23). Eis porque ele deve trabalhar com todo o coração.

CONCLUSÃO

“Não haverá paz numa sociedade se não houver proteção da propriedade. Isso inclui o compromisso de cada um na construção de uma sociedade justa e saudável. Deus concedeu a todos os seres humanos o direito de adquirir bens materiais, desde que essa aquisição seja de maneira honesta e envolva o trabalho” (Esequias Soares).

Fonte: ebdweb